por Silvio Meira

a nova política de informática

a

o brasil está desenhando uma "nova" política nacional de informática, cujo propósito aparente é a atração de grandes empreendimentos globais de tecnologias de informação e comunicação para o país, seja na forma de laboratórios de pesquisa e desenvolvimento ou fábricas.

e a palavra correta parece ser atração mesmo, e não criação. sendo de "atração", o efeito que teremos, se tudo correr bem, será um certo número de operações internacionais se instalarem no brasil, quase sempre para suprir o mercado local. isso porque os incentivos oferecidos como parte da nova política compensam o custo de importação e o risco de contrabando, mas não nos tornam competitivos [por razões amplamente conhecidas] no mercado global.

sob vários aspectos, estamos entre os maiores mercados mundiais de informática e telecom. e temos importado insumos e produtos de tal forma que as luzes vermelhas da balança comercial acenderam no planalto há tempos. este blog já discutiu o assunto múltiplas vezes. mas vale a pena lembrar que seriam necessárias mais de três vezes as exportações do complexo de soja só para compensar o déficit da balança comercial de eletro-eletrônicos previsto para 2011, acima de trinta bilhões de dólares.

tivéssemos cuidado da política de informática original, lá das décadas de 70 e 80, é provável que o brasil estivesse em outro patamar de competências tecnológicas, industriais e negociais, no espaço global, em tecnologias da informação e comunicação. mas qualquer análise da política de informática original vai descobrir que seu fracasso se deveu ao fato dela ter se tornado nada mais que uma política de substituição de importações para um mercado fechado.

parecidíssima, por sinal, com a "velha" e original política industrial que "trouxe" a indústria automobilística para o país. temos um dos maiores mercados de automóveis do mundo, muitos fabricantes internacionais aqui instalados e vivendo de um "lucro brasil" que não existe em nenhuma outra geografia. mas nenhuma fábrica brasileira de volume e classe mundial. agora [como se não bastasse…], estamos sofrendo uma invasão de fábricas chinesas e produtos idem..

TICs tem que ser uma das grandes estratégias nacionais na economia e indústria do conhecimento. porque é um grande mercado em si mesma e porque é transversal, sendo parte considerável dos insumos de quase todas as outras cadeias de valor.

estamos vivendo o auge, talvez, da onda mundial de inovação em torno de TICs. é muito provável que, dentro de 20, 30 anos, estejamos atrasados, como estamos hoje, dentro de outra onda mundial de inovação centrada em sustentabilidade, sistemas holísticos, biológicos, engenharia genética e o que mais.

o nosso tempo seria, pois, uma das últimas oportunidades para "acertar o passo" do que poderia vir a ser uma política nacional de competitividade no cenário mundial de tecnologias de informação e comunicação.

mas, ao definir uma política de atração de labs e indústrias já estabelecidas no mercado mundial, sob pressão de uma balança comercial insustentável no médio prazo [resultado dos múltiplos erros de políticas anteriores], será que isso também é um reconhecimento tácito da baixa capacidade tecnológica, investidora, inovadora e empreendedora do brasil e dos brasileiros?

ao centrar o que deveria ser uma política nacional de inovação em informática na atração de empreendimentos globais para substituição de importações, aliado a obrigações de um "processo produtivo básico" que exige conteúdo nacional relevante no longo prazo, será que estamos cientes da complexidade da verificação do atendimento de tal determinação… e aparelhados para cobrar das indústrias? fizemos uma avaliação de como isso foi feito na política de informática [quase] passada e estamos contentes com os resultados?

as obrigações de investimento da política de informática em vigor resultaram na contratação de muitas centenas de milhões de reais em pesquisa, desenvolvimento e inovação no país, pelas empresas beneficiárias da lei vigente. dito isto, as evidências de que tal investimento tenha resultado em aumento significativo de conteúdo nacional em equipamentos e sistemas produzidos por aqui são pontuais. e não há sinal de que o investimento em P, D e I tenha aumentado a competitividade internacional da produção de base nacional.

depois de quarenta anos da primeira política de informática, aquela da reserva de mercado total, depois muito flexibilizada, a impressão que se tem é que estamos revisitando o ponto de partida, sem revisitar as razões pelas quais, de lá pra cá, continuamos pouco competitivos no mercado global.

o problema de falta de competitividade da indústria brasileira é estrutural e de dificílima solução. tratá-lo de forma adequada exigiria mudanças radicais até nas receitas e gastos públicos. daí porque atacar a conjuntura, o que é muito mais fácil e dá retornos e resultados aparentes em prazos muito mais curtos.

o danado é que as soluções conjunturais para problemas estruturais não são sustentáveis… razão pela qual… estamos onde estamos e, pelo andar da carruagem das soluções nacionais, onde ficaremos por muito, muito tempo ainda.

Sobre o autor

Silvio Meira

silvio meira é cientista-chefe da TDS.company, professor extraordinário da CESAR.school e presidente do conselho do portodigital.org

29 comentário

  • Completando seu último parágrafo. Não temos políticas públicas de longo prazo, 20 anos ou mais, a exemplo dos países asiáticos bem sucedidos. Por exemplo, já se fala do lançamento de uma nova política industrial. Será a terceira em menos de 10 anos.

  • Completando seu último parágrafo. Não temos políticas públicas de longo prazo, 20 anos ou mais, a exemplo dos países asiáticos bem sucedidos. Por exemplo, já se fala do lançamento de uma nova política industrial. Será a terceira em menos de 10 anos.

  • Aparentemente, estão ocorrendo:

    1. As instituições (no Brasil, o governo e outras partes formulando ou pressionando por políticas), não estão interessadas na opinião dos atores mais importantes na estruturação, de políticas de informática: os usuários e empresários do setor (aka, pequenos e médios. Os grandes fazem parte das instituições e/ou do governo, assentados formalmente ou informalmente).

    2. Os usuários e empresários do setor estão apáticos e perdidos, pois carecem de representatividade efetiva. Representatividade efetiva é aquela onde os atores participam direta (e, efetivamente), de sua escolha.

    3. Definem a política, os oportunistas de plantão ou, melhor dizendo, os grupos oportunistas de plantão, com interesses estritamente pessoais, no vácuo da apatia. Logo, a lei do menor esforço impera sobre as soluções definitivas e difíceis, como você falou.

    Nesse cenário, não há espaço/interesse pela inovação e sequer, criatividade. A apatia é a expressão mais perigosa, pois inibe a indignação.

    Então, tá danado mesmo, caro Meira!

  • Aparentemente, estão ocorrendo:

    1. As instituições (no Brasil, o governo e outras partes formulando ou pressionando por políticas), não estão interessadas na opinião dos atores mais importantes na estruturação, de políticas de informática: os usuários e empresários do setor (aka, pequenos e médios. Os grandes fazem parte das instituições e/ou do governo, assentados formalmente ou informalmente).

    2. Os usuários e empresários do setor estão apáticos e perdidos, pois carecem de representatividade efetiva. Representatividade efetiva é aquela onde os atores participam direta (e, efetivamente), de sua escolha.

    3. Definem a política, os oportunistas de plantão ou, melhor dizendo, os grupos oportunistas de plantão, com interesses estritamente pessoais, no vácuo da apatia. Logo, a lei do menor esforço impera sobre as soluções definitivas e difíceis, como você falou.

    Nesse cenário, não há espaço/interesse pela inovação e sequer, criatividade. A apatia é a expressão mais perigosa, pois inibe a indignação.

    Então, tá danado mesmo, caro Meira!

  • BRASIL !
    “O CAPITAL ESPECULATIVO AINDA IMPERA SOBRE A PRODUÇÃO”
    VIVA O EMPREGO E RENDA …

  • BRASIL !
    “O CAPITAL ESPECULATIVO AINDA IMPERA SOBRE A PRODUÇÃO”
    VIVA O EMPREGO E RENDA …

  • CARACTERES DA COMPETITIVIDADE

    Numa contemporânea sociedade globalizada, de acirrada competição e de crescente valorização do conhecimento , para caminharmos no rumo de um desenvolvimento , por inteiro, do nosso Brasil é preciso ,também, divulgar, fomentar e implementar na administração pública e na cultura empresarial o que poderemos designar como Caracteres da Competitividade, os 5C: Capacitação Cooperação Comunicação Compromisso Confiança

    Assim como os Sensos de Qualidade, os 5S, foram fundamentais para o Japão no após guerra mundial , os 5C serão essenciais para o Brasil avançar no após crise mundial.

    Vale lembrar que a chamada crise mundial foi de especulação e não de produção. Aí está a nossa oportunidade, o nosso diferencial. Portanto, a nossa hora é agora e não podemos perder o expresso do progresso. Inovar para avançar é preciso.

    PAULO CESAR BASTOS é engenheiro civil
    paulocbastos@bol.com.br

  • CARACTERES DA COMPETITIVIDADE

    Numa contemporânea sociedade globalizada, de acirrada competição e de crescente valorização do conhecimento , para caminharmos no rumo de um desenvolvimento , por inteiro, do nosso Brasil é preciso ,também, divulgar, fomentar e implementar na administração pública e na cultura empresarial o que poderemos designar como Caracteres da Competitividade, os 5C: Capacitação Cooperação Comunicação Compromisso Confiança

    Assim como os Sensos de Qualidade, os 5S, foram fundamentais para o Japão no após guerra mundial , os 5C serão essenciais para o Brasil avançar no após crise mundial.

    Vale lembrar que a chamada crise mundial foi de especulação e não de produção. Aí está a nossa oportunidade, o nosso diferencial. Portanto, a nossa hora é agora e não podemos perder o expresso do progresso. Inovar para avançar é preciso.

    PAULO CESAR BASTOS é engenheiro civil
    paulocbastos@bol.com.br

  • Sem educação decente não há como melhorar em nada. Somos um país sem futuro. Aliá, seu texto está precisando de uma revisão.

  • Sem educação decente não há como melhorar em nada. Somos um país sem futuro. Aliá, seu texto está precisando de uma revisão.

  • Extraído de “A Economia como ela é…”
    Paulo Nogueira Batista Jr
    ISBN 85-85934-65-4
    pp. 67-71

    ´Como disse John Kenneth Galbraith, em entrevista …: “Globalização” (…) não é um conceito sério. Nós, os americanos, o inventamos para dissimular a nossa política de entrada econômica nos outros países.”

    (…)

    ‘As empresas (…) não se desvinculam dos seus países de origem (…); na sua grande maioria, não são “transnacionais”, mas empresas nacionais com atuação no exterior, como observa, aliás, Paul Hirst (…).

    (…)

    ‘A “Globalização” virou pau para toda obra. É desculpa para tudo e desfruta, além disso, da imortal popularidade de explicações que economizam esforço de reflexão.’

  • Extraído de “A Economia como ela é…”
    Paulo Nogueira Batista Jr
    ISBN 85-85934-65-4
    pp. 67-71

    ´Como disse John Kenneth Galbraith, em entrevista …: “Globalização” (…) não é um conceito sério. Nós, os americanos, o inventamos para dissimular a nossa política de entrada econômica nos outros países.”

    (…)

    ‘As empresas (…) não se desvinculam dos seus países de origem (…); na sua grande maioria, não são “transnacionais”, mas empresas nacionais com atuação no exterior, como observa, aliás, Paul Hirst (…).

    (…)

    ‘A “Globalização” virou pau para toda obra. É desculpa para tudo e desfruta, além disso, da imortal popularidade de explicações que economizam esforço de reflexão.’

  • Tudo bem, o que o Meira falou é verdade e eu concordo 100%. Then what? O que sugere, com base em sua experiência à frente do CESAR, que por sinal só existe graças aos investimentos exigidos pela Lei Atual e é um centro de excelencia e modelo de sucesso a ser seguido? O ponto é: as empresas “acham” os caminhos para satisfazer a exigência de investimentos. Como fazer para que estes investimento não sejam apenas para cumprir tabela, mas de fato criar produtos ou serviços que consigam competir e ser exportados? Gostaria que ajudasse a indicar o caminho, pois acredito que ele saberia dar boas sugestões.

  • Tudo bem, o que o Meira falou é verdade e eu concordo 100%. Then what? O que sugere, com base em sua experiência à frente do CESAR, que por sinal só existe graças aos investimentos exigidos pela Lei Atual e é um centro de excelencia e modelo de sucesso a ser seguido? O ponto é: as empresas “acham” os caminhos para satisfazer a exigência de investimentos. Como fazer para que estes investimento não sejam apenas para cumprir tabela, mas de fato criar produtos ou serviços que consigam competir e ser exportados? Gostaria que ajudasse a indicar o caminho, pois acredito que ele saberia dar boas sugestões.

  • Texto muito interessante. Entretanto, existem dois aspectos a lidar: o curto e o longo prazo. A atração de empresas é uma estratégia de curto prazo que pode ajudar no longo prazo.

    Japão e China criaram estratégias de aumento da produção tecnológica que se iniciou com a cópia de produtos e o aprendizado decorrente disto (hoje chamado de transferência tecnológica).

    Isto não quer dizer que isto seja a solução para nossos problemas, mas sim que a política de atração pode trazer benefícios também para uma estratégia de longo prazo que incentive a inovação e o desenvolvimento nacional.

  • Texto muito interessante. Entretanto, existem dois aspectos a lidar: o curto e o longo prazo. A atração de empresas é uma estratégia de curto prazo que pode ajudar no longo prazo.

    Japão e China criaram estratégias de aumento da produção tecnológica que se iniciou com a cópia de produtos e o aprendizado decorrente disto (hoje chamado de transferência tecnológica).

    Isto não quer dizer que isto seja a solução para nossos problemas, mas sim que a política de atração pode trazer benefícios também para uma estratégia de longo prazo que incentive a inovação e o desenvolvimento nacional.

  • O seu texto vai na mesma direção do artigo intitulado “Brasil desistiu de ser país desenvolvido”, publicado no site Inovação Tecnológica (http://migre.me/5lgDN).

    O trem da TI nós já perdemos porque pelo que ouço em eventos o maior sonho dos atores é trazer datacenters de grandes empresas para o país… datacenters esses que não precisam de quase nenhum ser humano para serem operados.

    Pesquisa e desenvolvimento tecnológico no Brasil é tarefa para heróis, dada a bagunça no sistema e a descontinuidade das iniciativas que criam inúmeras barreiras para os empreendedores. A disponibilidade de capital de risco também é mínima, fazendo com que ótimas ideias sejam abandonadas pela simples falta de incentivos e de condições para desenvolvê-las.

    E com esse cenário o Brasil será consolidado como o armazém do mundo. Continuaremos fornecendo as matérias-primas e comprando os produtos acabados feitos com elas… como fazemos desde o descobrimento.

  • O seu texto vai na mesma direção do artigo intitulado “Brasil desistiu de ser país desenvolvido”, publicado no site Inovação Tecnológica (http://migre.me/5lgDN).

    O trem da TI nós já perdemos porque pelo que ouço em eventos o maior sonho dos atores é trazer datacenters de grandes empresas para o país… datacenters esses que não precisam de quase nenhum ser humano para serem operados.

    Pesquisa e desenvolvimento tecnológico no Brasil é tarefa para heróis, dada a bagunça no sistema e a descontinuidade das iniciativas que criam inúmeras barreiras para os empreendedores. A disponibilidade de capital de risco também é mínima, fazendo com que ótimas ideias sejam abandonadas pela simples falta de incentivos e de condições para desenvolvê-las.

    E com esse cenário o Brasil será consolidado como o armazém do mundo. Continuaremos fornecendo as matérias-primas e comprando os produtos acabados feitos com elas… como fazemos desde o descobrimento.

  • O exemplo contrário foi a criação do ITA e do polo de Aeronáutica que deu origem a Embraer, terceira fabricante internacional de aviões. Neste caso foi criada tecnologia nacional, e não importamos uma fábrica da Boeing.

    • pois é. mas, “naquele tempo”… arece que havia um DESIGN, e tempo pra fazer as coisas acontecerem. agora, sem design, também não há, ou não parece haver, tempo.

  • O exemplo contrário foi a criação do ITA e do polo de Aeronáutica que deu origem a Embraer, terceira fabricante internacional de aviões. Neste caso foi criada tecnologia nacional, e não importamos uma fábrica da Boeing.

    • pois é. mas, “naquele tempo”… arece que havia um DESIGN, e tempo pra fazer as coisas acontecerem. agora, sem design, também não há, ou não parece haver, tempo.

por Silvio Meira

Pela Rede

silvio meira é PROFESSOR EXTRAORDINÁRIO da cesar.school, PROFESSOR EMÉRITO do CENTRO DE INFORMÁTICA da UFPE, RECIFE e CIENTISTA-CHEFE, The Digital Strategy Company. é fundador e presidente do conselho de administração do PORTO DIGITAL. silvio é professor titular aposentado do centro de informática da ufpe, fundou [em 1996] e foi cientista-chefe do C.E.S.A.R, centro de estudos e sistemas avançados do recife até 2014. foi fellow e faculty associate do berkman center, harvard university, de 2012 a 2015 e professor associado da escola de direito da FGV-RIO, de 2014 a 2017.

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