por Silvio Meira

dez tendências tecnológicas nos negócios [6]

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a combinação de TICs para sustentabilidade e a própria sustentabilidade de TICs vai ocupar uma boa parte da “agenda sustentável” dos negócios, no futuro próximo. é isso que vamos discutir aqui, hoje, dando continuidade a uma série sobre um relatório da mcKinsey que aponta as dez principais tendências tecnológicas nos negócios nesta década.

as tres primeiras tendências [criação colaborativa, negócio = rede, colaboração em escala] apareceram no post inicial, neste link. no segundo texto, neste link, falamos da “internet das coisas” e, no texto anterior, sobre “big data” e experimentação. hoje, a conversa é introduzida pelo slide abaixo, de uma palestra do autor na CNI, em são paulo, cuja íntegra está neste link

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ao invés de considerar o impacto de TICs corporativas na sustentabilidade [ambiental] do negócio, vamos considerar aqui a faceta de sustentabilidade das próprias TICs no negócio, que também é uma preocupação essencial. TICs são, claro, muito importantes em todas as facetas de sustentabilidade, desde controlar gastos e excessos a redefinir certas infraestruturas, como vai ser o caso de eletricidade e “smart grid” e, mais perto dos negócios, da internet das coisas e seus impactos. sobre este último ponto, veja, neste blog, SPIMES, everyware, spimeware e um campo informacional global. me atrevo a dizer que as empresas que desconsiderarem a grande ordem de magnitude das mudanças que serão causadas pela internet das coisas no contexto de seus negócios vão ter sérios problemas nestas duas décadas.

mas, voltando ao foco que decidimos dar a este texo, watts humphrey, notável engenheiro da IBM e depois do SEI, na university of carnegie mellon, decretou anos atrás que “seja qual for seu negócio, você está no negócio de software”. humphrey não estava dizendo que as empresas eram ou seriam fábricas de software, mas que, à medida em que todos os processos e métodos das empresas iam sendo codificados em software, a importância dos sistemas de informação para os negócios se tornaria fundamental.

a “sentença” de humphrey foi dita há quase uma década, quando as empresas estavam saindo do bug do milênio e tiveram que revisar, cada uma, quase todo o software que servia de esteio aos seus processos de negócio. de lá para cá, o uso cada vez mais intenso de metassistemas corporativos como os de ERP e CRM diminuiram o esforço de “escrever” uma empresa em software, talvez de impossível para muito difícil.

mesmo assim, escrever os sistemas de informação de um negócio e cuidar de sua manutenção ao tempo em que tudo, do mercado a fornecedores e clientes e até a própria empresa mudam, o tempo todo… gasta uma energia [e recursos] que podem por em risco a sobrevivência do negócio. daí este texto, relacionando a tendência da mcKinsey [sobre TICs e sustentabilidade em geral] aos problemas de equilíbrio entre investimentos e resultados associados a TICs nos negócios.

não faz muito tempo, as empresas não tinham alternativas a não ser escrever, elas próprias, a empresa em software. na melhor das hipóteses, isso era [ou melhor, é] terceirizado para um alguém que o faz para a empresa, o que deixa o pessoal do negócio, em tese, se concentrar no negócio propriamente dito, ou seja, nos processos de negócio que realmente fazem da empresa o que ela é. como se não bastasse, era a própria empresa que rodava seu software, tendo que manter seus próprios centros computacionais, como muitas fazem até hoje.

é mais ou menos como cada corporação, ao depender de eletricidade para tudo, fizesse um de tudo para tê-la, das licenças ambientais para gerar energia até operação de um negócio separado de “força e luz”, que a provê ao negócio principal. nada surpreendente que se gaste tanta energia [!], nos negócios, para alinhar o que se chama de TICs [tecnologias de informação e comunicação] ao “negócio” propriamente dito.

acontece que TI nos negócios é muito mais que hardware e software. um outro slide, de uma outra conversa, mostra do que estamos falando…

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na coluna da esquerda, a imagem acima mostra o substrato que resulta, na economia, sociedade e empresas [e para as pessoas, em particular], em comunicação: o lado esquerdo representa a a internet, responsável pela conectividade do planeta, que vem a ser uma infraestrutura [cabos, servidores, roteadores, satélites…], sobre a qual se situam serviços [como SMTP, um protocolo para emeio] que suportam aplicações… como emeio, por sinal, que resultam em processos de comunicação. pegue seja lá o que acontece por causa da internet e dá pra explicar, de maneira abstrata, desta forma.

do lado direito, de baixo para cima, temos a pilha de níveis que leva à informatização dos negócios: na base, computação, comunicação e controle, sendo que comunicação é toda a pilha da esquerda, pra começar; e na base da pilha está todo o hardware, tudo o que você possa imaginar que processa informação [de forma física] e, ligado na tomada, “dá choque”.

a menos que seu negócio seja muito especial, nada do que ele usa neste nível é feito por ou precisa estar sob seu controle, sendo de sua propriedade e rodando dentro de um prédio seu; tanto quanto a infraestrutura de internet, a base da pilha pode e deve estar em qualquer lugar, sob certas condições contratuais de qualidade e performance de serviço. só pra lembrar, emeio, não por acaso, está aí…

sobre esta fundação, está o software básico, como sistemas operacionais, bancos de dados, servidores web e firewalls: de novo, nada disso é de sua conta, a menos que você esteja em um negócio especial como google, facebook, microsoft, totvs ou amazon. o negócio destas empresas é software e elas têm tudo a ver com este nível. você, não; se sua empresa não está –explicitamente- no negócio de software, seus processos de negócio devem ser sua principal preocupação e foco de investimento e ação e, só se for absolutamente necessário, você deve se preocupar com o nível de acima do software básico, que seriam as aplicações [ou, em termos da década de 70-80, o software aplicativo…] que sustentam diretamente seus processos de negócio.

aí estamos começando a chegar no que realmente interessa: se meu negócio não é de software e se é diferente –e se não quero ou não posso torná-lo diferente- da competição, tenho que procurar “sistemas” ou “aplicações” que me deixem a maior parte do tempo para tocar meus processos de negócio e não coisas que comecem a tomar o precioso tempo que eu teria para tocar o negócio para, ao invés, cuidar de TICs.

houve uma época em que “ter” e “rodar” sua própria base de hardware e desenvolver todo seu software em  casa era um imperativo do negócio. ou se fazia isso ou nada saia como se queria. ou, talvez, nada saia e ponto. era mais ou menos como, muito tempo atrás, ter que gerar sua própria energia elétrica, sem o que seu negócio não “rodava”. aliás, foi por isso que delmiro gouveia entrou no negócio de geração e distribuição de energia elétrica…

hoje, a sustentabilidade do negócio e de TICs no negócio depende, quase  essencialmente, de uma dedicação ferrenha à execução-como-eficiência focada nos processos de negócio, sem o que toda a casa corre o risco de se perder. TICs sustentáveis, no negócio, são aquelas que dão conta dos processos de negócio correntes com tanta eficácia e eficiência quanto possível, ao mesmo tempo em que servem de base para os processos de execução-como-aprendizado [a inovação, no negócio como um todo] de forma tão leve e rápida que for possível.

caso estas duas condições não sejam atendidas, nem TICs, no negócio, é “smart” e sustentada nem o negócio, provavelmente, é sustentado. lucro, então, nem pensar. tal insustentabilidade parece ser o caso de um bom número de empresas [e instituições de todos os tipos, como prefeituras] que ainda escreve todo o seu software, perdendo energia e tempo em construções e usos que deveriam ser absolutamente padrão nos negócios, públicos inclusive.

pense em quase cada prefeitura brasileira [entre as que têm a capacidade de cobrar impostos] escrevendo o software que gerencia seu IPTU e ISS. isso certamente teria que ser o caso quando a indústria de software propriamente dita não tinha conseguido elicitar um repertório padrão para resolver os problemas de classes inteiras de indústrias ao ponto em que, até muito recentemente, cada empresa ter mesmo que ter seu próprio centro computacional. isso porque não havia rede em quantidade e qualidade suficientes para depender de centros remotos e não havia tecnologia [de software] para tratar capacidade computacional como módulos padronizados, comoditizados, passíveis de serem agregados e fornecidos como serviço e bilhetados por volume de uso.

observar a evolução da pilha de TICs que sustenta os processos de negócio, na figura anterior, e redesenhar TICs nos negócios, fazendo o melhor uso das capacidades padrão existentes no mercado, experimentando de forma leve e rápida para criar o que não existe [no nível das aplicações] e que vai sustentar novos processos de negócio é parte essencial da agenda de sustentabilidade de TICs em qualquer negócio.

Sobre o autor

Silvio Meira

silvio meira é cientista-chefe da TDS.company, professor extraordinário da CESAR.school e presidente do conselho do portodigital.org

por Silvio Meira
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Pela Rede

silvio meira é PROFESSOR EXTRAORDINÁRIO da cesar.school, PROFESSOR EMÉRITO do CENTRO DE INFORMÁTICA da UFPE, RECIFE e CIENTISTA-CHEFE, The Digital Strategy Company. é fundador e presidente do conselho de administração do PORTO DIGITAL. silvio é professor titular aposentado do centro de informática da ufpe, fundou [em 1996] e foi cientista-chefe do C.E.S.A.R, centro de estudos e sistemas avançados do recife até 2014. foi fellow e faculty associate do berkman center, harvard university, de 2012 a 2015 e professor associado da escola de direito da FGV-RIO, de 2014 a 2017.

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