SILVIO MEIRA

A VOLTA AO CONDADO

Ou… a geração Z nas ruas da Europa, os sinais do colapso
e o que A PRÓXIMA DEMOCRACIA tem a dizer sobre eles

A crise consiste precisamente no fato de que o velho está morrendo e o novo não pode nascer.
Neste interregno, surge uma grande variedade de sintomas mórbidos.
Antonio Gramsci, Cadernos do Cárcere, 1930.

Uma senhora de oitenta e sete anos

Começa com uma porta.

Em setembro, em Madri, Maricarmen Abascal, aposentada de 87 anos, foi despejada do apartamento onde morava. Duas semanas depois, morreu no hospital. Na Puerta del Sol, o quilômetro zero da Espanha, apareceu um acampamento de barracas que não saiu mais de lá. O governo baixou dois decretos de emergência — um para suspender despejos, outro para estender compulsoriamente contratos de aluguel. Em 2 de outubro, o Partido Popular, o Vox e o Junts derrubaram os dois no Congresso [veja no link theolivepress.es/…/spain-snap-elections-housing-vote]. Três dias depois, Pedro Sánchez dissolveu o parlamento e convocou eleições gerais para 29 de novembro [veja no link articulo14.es/…/pedro-sanchez-convoca-elecciones…].

Uma porta, um despejo, uma morte, um acampamento, uma votação perdida, um governo que cai. Em cinco semanas.

E a Espanha não está sozinha. A CNN publicou hoje um guia para quem perdeu o fio [veja no link edition.cnn.com/2026/10/24/europe/gen-z-protests-europe-explainer-intl], e o fio é longo.

Na França, estudantes do ensino médio começaram a bloquear escolas em 21 de setembro, contra salas superlotadas, professores que faltam e não são substituídos e prédios caindo aos pedaços, sobretudo nos bairros mais pobres. Em 17 de outubro, entre 550 mil e 800 mil pessoas foram às ruas, dependendo de quem contou [veja no link freitag.de/…/frankreich-brennt…]. A maior parte marchou em paz. Mas a prefeitura de Limoges, do século XIX, quase foi destruída por um incêndio; escolas foram queimadas; houve saques em Paris, Marselha, Lyon e Bordeaux, e 2.400 detenções num único fim de semana [veja no link fortune.com/2026/10/20/europe-france-spain-albania-protests-young-people]. Até o começo do mês, o total de detidos já passava de 6.500 — mais do que nos coletes amarelos e em maio de 68, segundo a contagem da nss magazine [veja no link nssmag.com/…/student-revolt-blockades-tiktok…].

Na Itália, estudantes ocuparam uma escola em Roma em 7 de outubro; em Milão, a polícia prendeu 271 pessoas, a maioria menores de idade, e um tal Movimento 17 de Outubro anunciou mobilização permanente, todo sábado, às três da tarde. Em Portugal, milhares encheram o Rossio, em Lisboa, contra uma lei que facilita despejos, num país em que o preço das casas mais que dobrou desde 2017 [veja no link dazeddigital.com/…/gen-z-protests-paris-france-albania…]. Na Bélgica, o motivo é o custo do ensino superior. Na Grécia, milhares marcharam. Na Albânia, o estopim foi um resort de luxo, ligado a uma empresa de investimentos fundada por Jared Kushner, planejado numa ilha com reserva natural onde vivem flamingos; o movimento virou dos flamingos, pede a renúncia do primeiro-ministro Edi Rama por corrupção, e os confrontos de 14 de outubro, em Tirana, deixaram 71 policiais feridos [veja no link news4jax.com/…/clashes-break-out-for-a-third-day-in-albania…]. Na Alemanha, um grupo chamado Gen Z regelt convocou protestos para 31 de outubro, em mais de vinte cidades, contra escolas quebradas, custo de vida e uma possível volta do serviço militar obrigatório [veja no link evangelisch.de/…/gen-z-regelt-proteste…]. França e Espanha têm greves gerais marcadas para 5 e 11 de novembro; a espanhola será a primeira em catorze anos.

E há a Sérvia, onde tudo começou mais cedo. Em 1º de novembro de 2024, a marquise da estação ferroviária de Novi Sad desabou e matou dezesseis pessoas. Os estudantes transformaram o luto em dois anos de protestos contra corrupção. Em 27 de setembro, Aleksandar Vučić renunciou à Presidência — não exatamente por causa deles: proibido de disputar um terceiro mandato, saiu para concorrer ao cargo de primeiro-ministro. A eleição parlamentar é neste domingo, 25 de outubro, e a lista apoiada pelos estudantes disputa com chance real [veja no link aljazeera.com/…/serbian-president-aleksandar-vucic-resigns…].

Leia de novo, devagar, a lista dos motivos: aluguel, escola, professor, custo de vida, corrupção, serviço militar, um resort numa ilha de flamingos. Nenhum deles é novo. Nenhum deles é exótico. E nenhum deles cabe numa hashtag.

O que este texto vai argumentar é que isso não é um surto. São sinais. E que eles já tinham sido descritos, um a um, antes de chegarem à rua.

O que isso não é

Antes de dizer o que é, vale descartar quatro explicações preguiçosas, porque todas estão circulando e todas são confortáveis.

Não é briga de gerações. O jornalista alemão Sebastian Friedrich resumiu bem: o que une os protestos, apesar de gatilhos e alvos diferentes, é uma promessa quebrada — a de que estudar e trabalhar duro garantiriam uma vida boa. Muitos jovens temem viver pior que os pais mesmo tendo cumprido todas as expectativas. Não é revolta contra os velhos. É contra as condições materiais de um futuro que não fecha a conta.

Não é complô estrangeiro. O ministro da Defesa italiano, Guido Crosetto, chamou os distúrbios de Milão de guerra híbrida, travada por ferramentas não convencionais como TikTok, redes sociais e YouTube. O chanceler francês apontou narrativas hostis da Rússia, da China, do Irã e da comunidade MAGA. Mas o próprio Macron admitiu que não há evidência de interferência estrangeira nos eventos — só de manipulação de informação depois deles. Redes de desinformação ligadas à Rússia, como as operações Doppelgänger e Overload, amplificaram a violência; não a criaram. A Comissão Europeia diz que não há base para abrir investigação formal [veja no link euronews.com/…/france-and-italy-blame-foreign-powers…]. Explorado não é o mesmo que causado.

Não é coisa de TikTok. Plataformas importam, e muito, e vão ter seção própria aqui. Mas nenhum algoritmo inventou o preço do aluguel em Lisboa.

E não é europeu. Desde 2024, a mesma onda passou por Quênia, Bangladesh, Indonésia, Nepal, Madagascar, Marrocos, Peru, Filipinas, Bulgária. Derrubou governos em Bangladesh, no Nepal, em Madagascar e na Bulgária [veja no link en.wikipedia.org/wiki/Gen_Z_protests]. A Bulgária, aliás, foi o primeiro governo europeu derrubado por ela: em dezembro do ano passado, depois de protestos convocados pelo TikTok com cartazes que diziam Gen Z vs. Corruption, o primeiro-ministro Rosen Zhelyazkov renunciou — no país que estava indo para a sétima eleição parlamentar em quatro anos [veja no link tovima.com/wsj/wave-of-gen-z-unrest-fells-its-first-european-government]. O símbolo que atravessa os continentes é uma bandeira pirata de um mangá, One Piece: uma caveira de chapéu de palha. Guarde isso também.

Uma ressalva final, porque realismo não é romantismo. A violência é real, e não se explica pela causa. Prefeitura incendiada, escola queimada, loja saqueada e policial ferido não são metáfora de nada. Mas a violência também não explica a causa. Quem só enxerga o fogo em Limoges perde de vista meio milhão de pessoas que marcharam em paz pelos mesmos motivos.

Quatro crises, uma rua só

O guia da CNN diz que os jovens protestam por educação, moradia e emprego. É verdade, mas é a superfície. Olhando de perto, há quatro crises sobrepostas, e cada uma alimenta as outras.

A primeira é econômica, e é a da promessa quebrada. O desemprego entre menores de 25 anos na zona do euro ficou em 15% em agosto, com 2,39 milhões de jovens desocupados [veja no link tradingeconomics.com/euro-area/unemployment-rate/news/588727]. Em junho, a taxa batia 23,4% na Espanha, 21,1% na França e 24,9% na Suécia [os números estão compilados em uni2study.com/…/spain-italy-greece-youth-unemployment…]. O jovem europeu sai da casa dos pais, em média, aos 26,3 anos; o italiano e o espanhol, aos 30,2; o croata, aos 31,5. Na Itália, só 47,6% das pessoas entre 20 e 29 anos têm emprego, a pior taxa da União [veja no link eunews.it/…/young-italians-slowest-to-leave-the-parental-home…]. Na Espanha, o salário mínimo é de 1.221 euros e o aluguel médio de um apartamento de 80 metros quadrados, 1.130. A maior parte do meu salário vai para o aluguel, disse uma garçonete de vinte anos à Associated Press. A inflação da zona do euro chegou a 3,8% em setembro, puxada pela energia, com a alta dos combustíveis associada à guerra no Irã.

E aqui entra o detalhe que torna tudo mais difícil. Grécia, Itália, França, Bélgica, Espanha e Portugal carregam dívidas públicas altas, que limitam o gasto. Na mesma semana em que a rua pedia mais escola, o juro do título francês de dez anos passou de 5% pela primeira vez desde 2002, e a diferença em relação ao título alemão chegou perto de 170 pontos-base, o maior nível desde a crise das dívidas soberanas [veja no link tradingeconomics.com/france/government-bond-yield/news/589480]. Ao mesmo tempo, orçamentos de educação estão sendo cortados enquanto o gasto é redirecionado para defesa [veja no link socialeurope.eu/europes-graduate-glut-collides-with-the-ai-disruption]. Não por acaso, os estudantes italianos também protestam contra o aumento do gasto militar, e os alemães, contra o alistamento.

A rua pede escola.
O mercado cobra juros.
O orçamento vai para a defesa.
E as três coisas acontecem na mesma semana.

A segunda é social, e é a da vida adiada. Quando a casa própria vira impossível e o aluguel come o salário, o que se adia não é só a mudança: é a vida adulta inteira — casar, ter filhos, escolher onde morar, decidir o próprio tempo. Um jornal mexicano resumiu a revolta espanhola numa manchete: não queremos ser parasitas dos nossos pais [veja no link cronica.com.mx/…/la-rebelion-de-la-generacion-z…]. Em Barcelona, Lisboa e Madri, a moradia ainda concorre com o turismo: a cidade onde o jovem nasceu virou ativo de quem nunca morou nela. E a escola, que deveria ser a ponte, está rachada — literalmente, em muitos prédios franceses.

A terceira é dos governos, e é a da resposta que piora. Na Espanha, a resposta institucional foi derrubar os decretos e, depois, convocar eleições. Na França, Macron — com pouco mais de seis meses de mandato pela frente — disse que as queixas dos estudantes são legítimas, mas que forças políticas as estão explorando, e pediu respostas concretas em semanas [veja no link omanobserver.om/…/macron-says-french-student-protesters-exploited…]; segundo a CNN, também se moveu para proibir manifestações ilegítimas. Na Albânia, Rama atribuiu os protestos a radicais e a adversários políticos e ficou no cargo; a próxima eleição parlamentar só está prevista para 2029. Na Alemanha, o Ministério do Interior avisou que extremistas podem se aproveitar dos atos de 31 de outubro, antes mesmo de eles acontecerem. Na Sérvia, o presidente trocou de cadeira para continuar no poder. O cientista político Oscar Berglund, da Universidade de Bristol, observa que a resposta predominante tem sido repressão, e que ela tem inflamado os protestos, em vez de contê-los [veja no link aljazeera.com/opinions/2026/10/23/why-is-gen-z-revolting].

A quarta é da democracia, e é a mais perigosa. Uma pesquisa do YouGov para a Fundação TUI, com quase sete mil jovens de 16 a 26 anos em sete países europeus, encontrou só 57% preferindo a democracia a qualquer outra forma de governo; na França, 52%; na Espanha, 51%. E 21% aceitariam um regime autoritário em certas circunstâncias — 24% na Itália [veja no link eunews.it/…/21-per-cent-of-young-europeans…]. Isso foi medido no ano passado, antes das barricadas. Na França, Marine Le Pen teve a inelegibilidade reduzida em julho e é candidata à eleição de abril de 2027. A extrema direita cresce na Alemanha e em outros lugares.

Mas preste atenção no que está acontecendo de fato. Quem está na rua não está pedindo menos democracia. Está pedindo que ela entregue. O risco não é a geração Z. O risco é o que acontece com a geração Z se a democracia continuar não entregando.

Quem protesta ainda acredita que vale a pena protestar.
O perigo é o dia em que ela concluir que não vale.

A lente: de onde vêm as crises

Em 2025, Rosário Pompéia e eu publicamos A Próxima Democracia: 32 Teses para o Futuro da Política no Mundo Figital. O segundo capítulo começa assim — e eu peço licença para citar o próprio livro, porque a frase descreve outubro de 2026 com uma exatidão que nos incomoda:

a política está em colapso, não como evento abrupto, mas como processo prolongado de desintegração, com partidos esvaziados, parlamentos desacreditados, lideranças populistas que instrumentalizam ressentimentos e ondas de mobilização que explodem nas redes, mas não aterrissam nas instituições.

Ondas que não aterrissam. Se há uma imagem para a Europa deste outono, é essa.

O livro propõe dezesseis sinais do colapso — as luzes vermelhas no painel da democracia. Não vou repassar os dezesseis. Mas pegue a lista de motivos lá de cima e coloque ao lado deles, e vários acendem ao mesmo tempo.

Exclusão cidadã (Sinal 10): mandatos desconectados da participação, eleições que funcionam como cheque em branco, decisões tomadas em gabinetes distantes da vida. Os decretos espanhóis de moradia foram derrubados numa votação parlamentar perfeitamente legal, com a Puerta del Sol acampada do lado de fora. Ninguém infringiu regra nenhuma. E foi exatamente isso que tornou o resultado intolerável.

Mercantilização da política e democracia de mercado (Sinais 13 e 14): quando o mercado vira o árbitro final do que é politicamente viável. Habitação tratada como ativo financeiro; um resort numa reserva de flamingos; e, no topo, o juro de dez anos dizendo ao governo francês o que ele não pode gastar com escola.

Declínio dos partidos (Sinal 8) e cooptação dos movimentos (Sinal 11): nenhum desses protestos foi convocado por partido. Na Sérvia, os estudantes recusaram líderes e partidos desde o início, em parte para não serem cooptados — e em parte porque os que aparecem na mídia viram alvo [veja no link rosalux.de/…/serbian-students-are-reimagining-what-society-could-be]. Quando Macron diz que as queixas estão sendo exploradas, está nomeando o Sinal 11 do lado de quem governa.

Culto ao executivo (Sinal 12): Vučić renunciando à Presidência para disputar a chefia do governo é o sinal em estado puro — o poder como pessoa, que só muda de cadeira.

Desinformação estratégica (Sinal 15) e desconexão geracional (Sinal 16): uma geração que não encontra nos canais políticos convencionais nem a linguagem nem a velocidade da vida dela.

Mas a contribuição mais útil do livro, para este outono, não está nos sinais. Está em três diagnósticos mais fundos.

O primeiro é o descompasso de relógios, que descrevemos na Tese 7. Instituições funcionam em ciclos longos: sessões legislativas, orçamentos anuais, calendários eleitorais. A sociedade funciona em ciclos cada vez mais curtos: conversas que não param, crises que se acendem em segundos, humores coletivos que atravessam plataformas. Quando autoridades só aparecem nas datas do calendário, soam distantes; quando somem entre uma data e outra, deixam vazios que outros preenchem, muitas vezes com ruído. Um despejo em setembro, um acampamento no mesmo mês, uma votação em outubro, uma eleição em novembro e um governo empossado, talvez, em janeiro. A vida de quem foi despejado não espera janeiro.

O segundo é a atrofia da imaginação. Citamos Geoff Mulgan, sobre o déficit paralisante de imaginação social e política do nosso tempo, e Ruth Levitas, sobre o fechamento do horizonte — uma clausura cognitiva que impede de pensar fora das estruturas dominantes. A política, escrevemos, deixou de ser força de projeção para virar engrenagem de gestão de danos. É o que a rua está recusando: a gestão de danos. Ninguém acampa na Puerta del Sol por um ajuste de 0,3% no reajuste de aluguel.

E aqui está o detalhe que quase ninguém nota. No mesmo capítulo, lembramos Henry Jenkins: o engajamento político dos jovens não desapareceu, ele migrou — para comunidades de fãs, gamers, criadores de conteúdo —, onde jovens usam narrativas ficcionais e universos compartilhados para ensaiar ação coletiva. Jenkins chama isso de imaginação cívica. Uma geração que levanta, do Nepal à Bulgária, a bandeira pirata de um mangá sobre um grupo de amigos que enfrenta um governo mundial corrupto não está despolitizada. Está politizada numa língua que as instituições não falam.

A imaginação não sumiu.
Ela mudou de endereço — e as instituições não atualizaram o cadastro.

O terceiro diagnóstico é sobre a forma. Recorremos a Zeynep Tufekci, que estudou protestos da era das redes e distinguiu duas coisas: a força de sinalização — a capacidade de reunir uma multidão rapidamente — e a capacidade de construir organização. Movimentos nascidos em plataformas, diz ela, sofrem de três déficits: de capacidade tática (sem estrutura para decidir, adaptar e negociar), de capacidade narrativa (ótimos em slogans, fracos em uma visão comum de futuro) e de capacidade de ruptura sustentada (o pico de atenção passa, e a pressão some). A nss magazine concluiu sua análise dos estudantes franceses com uma frase que a Tufekci poderia ter escrito como advertência: ao transformar a revolta num artefato cultural viral, os estudantes já ganharam a batalha da atenção.

Ganharam a batalha da atenção. A pergunta é se isso basta para ganhar alguma outra.

Junte os três e a origem da crise cabe num parágrafo. Uma máquina política desenhada para um mundo de informação escassa, território estável e tempo lento encontrou um mundo figital — físico, digital e social ao mesmo tempo — e não consegue mais ouvir, decidir nem entregar no tempo das pessoas. A promessa econômica que sustentava a paciência foi quebrada. E a energia que sobra não encontra onde pousar.

Plataformas: incendiário, bombeiro ou rua?

Agora, a pergunta difícil: qual é o papel das plataformas sociais não reguladas nisso tudo?

A resposta honesta tem três camadas.

Primeira: elas não criaram a crise, mas deram forma a ela. Os estudantes franceses organizam bloqueios no TikTok e, segundo a nss, disfarçam mensagens políticas de memes, vídeos de games, referências de anime e áudios da moda, porque o algoritmo da plataforma reduz o alcance de conteúdo político e violento. Pense nisso por um momento. A regra de moderação de uma empresa privada está definindo a gramática de um protesto político na França. Em Quando a Plataforma “Faz” Campanha, escrevi, sobre a eleição brasileira, que plataformas exercem capacidade editorial por meio de sistemas que decidem admissão, classificação, ranqueamento, amplificação e monetização. A Europa está mostrando o outro lado da mesma moeda: quem edita o espaço público também edita a forma do dissenso.

Em janeiro de 2023, em Narrativas, Distopias, Extremismo: Soluções?, lembrei que o comportamento humano em redes — ativismo coordenado, cascatas de informação — se parece muito com o comportamento emergente de bandos de pássaros e cardumes, que agem como unidade coesa sem líder nem direção hierárquica; que o comportamento do grupo é determinado pela estrutura da rede, que molda o grupo, que molda a estrutura; e que tentar conter o que já viralizou, enquanto a estrutura e os incentivos continuam no lugar, é trabalho de Sísifo. Os protestos de 2026 são esse bando. Não têm líder porque a rede que os carrega não precisa de um — e por isso mesmo não têm com quem negociar.

Segunda: elas aceleram o boato, e o boato mata. Em agosto, rumores no Instagram, no Facebook e no TikTok de que a fronteira entre Marrocos e Espanha estaria aberta levaram cerca de 60 mil pessoas a Ceuta em poucos dias, na maior onda migratória entre os dois países em anos. Mais de 80 morreram, afogadas ou esmagadas [veja no link euronews.com/…/social-media-rumours-spark-biggest-migration-crisis…]. Ninguém sabe quem estava por trás de muitas das contas; várias foram apagadas logo depois. É a enchente de informação de que tratei em PIPOCO DE INTELIGÊNCIA, ENCHENTE DE INFORMAÇÃO, com corpos na praia. E, nos protestos de outubro, a enchente veio por cima: operações estrangeiras de desinformação amplificando a violência, saqueadores tentando revender produtos roubados no Vinted.

Terceira: elas viraram a principal janela de quem protesta. O Digital News Report 2026, do Reuters Institute, mostrou que 52% dos jovens de 18 a 24 anos têm nas redes sociais, nas plataformas de vídeo e na IA a principal fonte de notícias, e que a confiança em notícia encontrada nas redes é de 22%; em respostas de IA, 20% [veja no link gijn.org/stories/2026-reuters-institute-digital-news-report]. Uma geração que se informa principalmente por canais em que não confia é uma geração em estado permanente de desconfiança. Não é ingenuidade: é o ambiente.

Agora, a ressalva que este blog sempre faz, porque ela importa. Plataformas não são a explicação de tudo. Em 2023, um experimento publicado na Science, com participação da própria Meta, trocou o feed algorítmico pelo cronológico para milhares de usuários durante três meses da campanha eleitoral americana de 2020: a exposição mudou, as atitudes políticas e a polarização, não [veja no link pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/37498999]. Algoritmo não fabrica aluguel caro. Fabrica velocidade, forma e alcance — o que, numa crise, já é muita coisa.

E a regulação? A Europa é o lugar do mundo que mais tentou. Em dezembro do ano passado, a Comissão aplicou a primeira multa da Lei de Serviços Digitais, 120 milhões de euros, ao X, por selo de verificação enganoso, opacidade em anúncios e bloqueio de acesso a pesquisadores [veja no link yahoo.com/…/eu-fines-x-140-million]. Mas o mecanismo de resposta a crises da mesma lei, que dá à Comissão poderes de emergência sobre plataformas, não foi acionado neste outono, embora os reguladores francês e italiano tenham pedido investigação. A França aprovou em julho a proibição de redes sociais para menores de 15 anos, valendo para contas novas desde 1º de setembro [veja no link dexerto.com/…/france-bans-children-under-15…], e uma dúzia de países europeus prepara leis parecidas [veja no link thelocal.es/20260713/eu-to-limit-childrens-access-to-social-media]. Não há relação de causa entre essa lei e a revolta que começou três semanas depois, até porque os secundaristas franceses têm, na maioria, mais de 15 anos. Mas a coincidência ensina uma coisa: regular quem entra não é regular a arquitetura. A idade de quem usa diz pouco sobre o que a máquina amplifica.

Regular o acesso não é regular a arquitetura.
O problema nunca foi quem está na rede.
É o que a rede faz com quem está nela.

E as plataformas podem ser parte da solução? Podem, e já foram. No Nepal, em setembro de 2025, depois que um bloqueio de redes sociais virou estopim de uma revolta que derrubou o governo, mais de dez mil pessoas debateram num servidor do Discord, em votações abertas, quem deveria ser a primeira-ministra interina; escolheram Sushila Karki, ex-presidente da Suprema Corte, conhecida por decisões contra a corrupção [veja no link aljazeera.com/…/how-nepals-gen-z-used-gaming-app-discord-to-pick-pm]. Foi experimental, vulnerável a contas falsas e a infiltrados, e os próprios organizadores criaram uma sala de checagem para combater boatos. Mas em março deste ano o Nepal votou, com cerca de 60% de comparecimento, e o partido que capitalizou a revolta saiu à frente na apuração [veja no link thequint.com/…/nepal-2026-election-gen-z-rsp-leads]. A onda, ali, aterrissou.

Na Sérvia, o caso é ainda mais instrutivo. Os estudantes usam redes para sinalizar, mas decidem em plenários presenciais, por faculdade, por maioria, depois de deliberação longa, com o princípio de uma pessoa, um voto. Sem líderes, sem partidos, sem ONGs. A plataforma carrega o sinal; o plenário constrói a capacidade. É Tufekci resolvida na prática. E foi essa capacidade, construída devagar, ao longo de dois anos, que permitiu ao movimento virar uma lista eleitoral com 250 candidatos e um slogan seco: Sérvia ou máfia [veja no link jacobin.com/2026/10/elections-serbia-student-list-vucic].

No livro, perguntamos qual será o futuro da política, e respondemos que será mediado por plataformas — mas serão elas privadas, ou públicas e cidadãs? Esta é a pergunta. Plataformas não reguladas criam o caos quando a arquitetura otimiza atenção, velocidade e engajamento e não presta contas a ninguém. Ajudam a resolvê-lo quando a arquitetura é desenhada para deliberar, verificar e decidir. A diferença não está na tecnologia. Está em quem desenha a regra e em quem responde por ela.

Em outras palavras, o que escrevi sobre a Meta e a eleição brasileira vale para qualquer feed europeu: quem edita responde pelo que edita.

IA: o primeiro degrau

E há o tema que quase não aparece nos cartazes, mas que vai pesar mais do que qualquer outro nos próximos anos: o impacto da inteligência artificial no trabalho de quem está começando.

Em agosto, Erik Brynjolfsson, Bharat Chandar e Ruyu Chen, do Laboratório de Economia Digital de Stanford, atualizaram com dados de folha de pagamento da ADP o estudo que chamaram de Canários na mina de carvão. O emprego de trabalhadores de 22 a 25 anos nas ocupações mais expostas a IA está cerca de 19% abaixo do que estaria se tivesse acompanhado o de jovens da mesma idade em ocupações pouco expostas; um ano antes, a diferença era de 15%. Para trabalhadores experientes, não há diferença parecida. O ajuste acontece por menos contratação de jovens, não por mais demissões. E o padrão tem uma assinatura reveladora: o emprego jovem cai onde o trabalho depende de conhecimento codificado, aquele que se ensina e se documenta; o emprego experiente cresce onde o trabalho depende de conhecimento tácito, aquele que só se aprende fazendo [veja no link digitaleconomy.stanford.edu/news/canariesaug26]. Os autores são cuidadosos: não há deslocamento generalizado de empregos na economia, e os padrões são descritivos, não causais. Mas a direção é clara.

Leia de novo, devagar, porque o mecanismo é mais grave que o número. O conhecimento codificado é exatamente o que o júnior fazia para aprender o tácito. A planilha, a minuta, o primeiro relatório, o código de rotina: era assim que se subia o primeiro degrau. Se a máquina faz o primeiro degrau, a escada continua lá — mas começa no segundo. E ninguém chega ao segundo sem ter pisado no primeiro.

IA não está tirando o emprego do jovem.
Está tirando o primeiro degrau da escada — e a escada continua lá, inalcançável.

Isso já aparece na Europa por outros caminhos. Num concurso recente da administração europeia, 174.922 candidatos disputaram cerca de 1.500 vagas, quase três vezes o esperado; 45% deles eram italianos [veja no link socialeurope.eu/europes-graduate-glut-collides-with-the-ai-disruption]. Em O Gráfico, Março de 2026, mostrei a distância entre a área azul — o que a IA poderia fazer, em tese, em cada ocupação — e a área vermelha — o que ela de fato faz no dia a dia. Escrevi que a vermelha vai crescer, e que a pergunta é o que construímos enquanto ela ainda é pequena. Em As Três Inteligências, Revisitadas, registramos que não havia, até o começo de 2026, deslocamento agregado de emprego, mas havia sinais adiantados na contratação de trabalhadores jovens. Os sinais ficaram mais altos.

Então: IA vai aumentar ou resolver o caos? As duas coisas são possíveis, e qual delas acontece depende de escolha, não de tecnologia.

Aumenta, por pelo menos três caminhos. Primeiro, transforma a promessa quebrada em promessa estruturalmente impossível: se o diploma não leva mais ao primeiro emprego qualificado, a frase estude e trabalhe que dá certo vira mentira institucional, e mentira institucional é combustível de revolta. Segundo, barateia a enchente: persuasão em escala, desinformação de baixo custo, contas falsas indistinguíveis de gente. Terceiro, acelera ainda mais o relógio social em relação ao institucional, alargando o descompasso da Tese 7.

Resolve, sob desenho. A mesma tecnologia que fecha o primeiro degrau pode reconstruí-lo como aprendizado: tutores que dão pistas em vez de respostas, aprendizagens profissionais em que o júnior orquestra agentes sob supervisão e aprende o tácito por outro caminho. Pode dar ao Estado a capacidade de ouvir em escala e responder no tempo da vida — o Estado-plataforma de que tratamos no livro. Pode ajudar pessoas a deliberar e a encontrar pontos de acordo, como já mostraram experimentos publicados na Science [veja no link science.org/doi/10.1126/science.adq2852]. Mas nada disso é automático, e há uma armadilha conhecida: usar IA para cortar cabeças é o que Brynjolfsson chamou de Armadilha de Turing, que discuti em A GRANDE APOSTA. Trava o ganho e destrói exatamente a capacidade humana que faria o trabalho novo. E há outra, que o livro chama de tecnossolucionismo: nenhum chatbot conserta o telhado de uma escola de periferia.

Uma proposta concreta, só para não ficar no abstrato. A União Europeia tem desde 2013 uma Garantia para a Juventude, que promete oferta de emprego, estágio ou formação a jovens desocupados. Na era da IA, ela precisaria virar uma garantia do primeiro degrau: empresas que automatizam trabalho de entrada assumindo, em contrapartida, a formação de juniores em papéis de orquestração — e o Estado medindo, publicando e cobrando isso. Não é caridade. Sem primeiro degrau, daqui a dez anos não haverá ninguém experiente para supervisionar as máquinas.

O que o livro propõe

Diagnóstico, por mais preciso, é só metade. O livro, que chamamos de manifesto-operacional, foi escrito justamente para não parar na metade. O que ele propõe, como resposta estrutural e sustentável a crises como esta, pode ser resumido em seis movimentos. Nenhum é receita. Todos são direção.

Um: infraestrutura cívica do dissenso. A Tese 25 diz que a desobediência ética e não violenta não é ameaça à democracia, é vacina democrática — e que uma democracia adulta tem confiança para proteger e aprender com seus desobedientes. O que propomos ali é quase um manual para este outono. Uma escada ética de mobilização — petição, audiência pública, mesa de negociação, mediação independente, protesto e, em último caso, desobediência civil —, com portas de passagem claras e devolutivas obrigatórias em cada degrau. Portas de escuta com prazos de resposta e audiências obrigatórias quando certos limiares são atingidos. Um ombudsman do protesto. Registro público, em tempo real, de detenções e uso da força. E uma lista de antipadrões a evitar, que parece escrita para outubro: a criminalização preventiva, com proibições genéricas sem base em fatos; a janela de escuta fictícia, que protocola sem decidir; a policialização do dissenso; e as cercas digitais, banimentos arbitrários em plataformas. Proibir protestos ilegítimos sem critério público e revisão independente é criminalização preventiva. Ouvir sem decidir é janela de escuta fictícia. Nenhuma das duas acalma; as duas inflamam, como Berglund observou.

E aqui cabe Tolkien, de novo. Em A Longa Derrota, escrevi sobre Saruman, que se corrompe por eficiência: conclui que, para vencer o inimigo, é preciso adotar os métodos dele. A instituição que salva a democracia com os métodos do inimigo entrega, no ano seguinte, uma democracia salva e uma instituição sem autoridade moral para salvá-la de novo. Governar uma revolta contra a falta de escuta com menos escuta é Saruman de uniforme.

Dois: política como fluxo, não como evento. A Tese 7 propõe escuta social institucionalizada, permanente, com equipes dedicadas, leitura de sinais precoces e devolutivas públicas que mostrem o que foi ouvido, o que foi feito e o que mudou. Se o despejo de setembro tivesse encontrado um Estado que ouve em fluxo, talvez não tivesse virado acampamento. E, como resumimos no último capítulo a partir das Teses 9 e 24, é no chão da vida diária que a legitimidade se constrói ou se desfaz: moradia, escola, transporte não são temas “sociais” ao lado da política. São a política.

Três: transparência radical, como padrão. Corrupção é o denominador comum de Sérvia, Bulgária, Albânia e Nepal. Em Paredes de Vidro, Relógio Visível, apliquei a Tese 32 à crise do Supremo brasileiro: aberto por padrão, sigilo como exceção justificada, com prazo e revisão independente; transparência controlada por uma das partes não é transparência. O mesmo vale para o orçamento da escola, para os contratos do resort, para a lista de despejos. O Princípio 10 do livro pede transparência orçamentária radical com participação popular, e o Princípio 2 pede mecanismos de deliberação com consequência real, como orçamentos participativos de resultado vinculante. Jovens que acham que o dinheiro some acreditariam mais se pudessem ver para onde ele vai — e decidir uma parte.

Quatro: Estado em plataforma, cidadão como coautor. No último capítulo, propusemos o Estado-Plataforma-Cidadã: não o Estado que monopoliza e controla, mas o que orquestra e habilita, com infraestrutura pública de informação — identidade digital segura, dados abertos, padrões interoperáveis, algoritmos auditáveis. E, no pilar de regulação algorítmica, auditoria cidadã e responsabilidade de quem opera os sistemas que mediam o espaço público. A Tese 25 acrescenta um detalhe precioso para movimentos como os de agora: garantir portabilidade das mobilizações digitais, para que elas não fiquem reféns de infraestruturas privadas. Hoje, quem organiza um protesto na França ou na Bulgária depende da boa vontade do algoritmo de uma empresa de origem chinesa; quem organizou um governo interino no Nepal dependeu do servidor de uma empresa americana.

Cinco: imaginação como método. A Tese 31 lembra a transição sul-africana, em que lideranças à beira de uma guerra civil usaram cenários para visitar futuros possíveis — alguns catastróficos, outros de reconciliação — e construir o vocabulário comum que lhes permitiu escolher. A proposta é transformar imaginação em disciplina: cenário, hipótese, experimento, evidência, escala. Baixar futuros para o presente como hipóteses a testar. E, em Paredes de Vidro, acrescentei a cadência da Tese 10: hipóteses de vinte semanas, não planos de vinte anos. Um governo que respondesse à Puerta del Sol com três pilotos de moradia de vinte semanas, avaliados em público, faria mais pela confiança do que um plano decenal anunciado em cadeia nacional.

Seis: um método, não um plano. O livro fecha com o AEIOU, um algoritmo iterativo para navegar caos, complexidade e contradição. Aplicado à Europa deste outono, ele diria, em poucas linhas: perceba o Ambiente, e os dezesseis sinais já estão acesos; formule Estratégia, com aspiração e prazo — por exemplo, que nenhum jovem europeu gaste mais de um terço da renda com moradia até 2035, um número que uso aqui só para mostrar a forma; desenhe Interações que produzam narrativas polifônicas, e não um comunicado do governo contra um vídeo do TikTok; entregue em Operações visíveis, em ciclos curtos; e Unifique em rede, porque nenhum país resolve sozinho uma crise de moradia num mercado comum. É o que chamamos, na Tese 11, de glocalização: o problema é local, a resposta precisa ser europeia.

Por que essas propostas são estruturais e sustentáveis, e não paliativas? Porque não tentam resolver de uma vez por todas. Em contextos de complexidade, caos e contradição, escrevi em Paredes de Vidro, não existe saída definitiva, e quem promete uma é ingênuo ou autoritário. A resposta sustentável é a que cria canais permanentes de escuta, decisão e correção — e por isso continua funcionando quando o próximo despejo acontecer. A resposta é mais democracias, no plural, e não menos democracia.

Sustentável não é o que resolve para sempre.
É o que continua resolvendo quando o problema volta.

A sanfona

Em março do ano passado, escrevi O Mundo é uma Sanfona, sobre a oscilação histórica entre períodos de abertura — liberdade, diversidade, inovação, ar enchendo o fole — e períodos de fechamento — repressão, concentração de poder, retrocesso, o fole esvaziando de repente. Identifiquei ali três leis que empurram para o fechamento. As três estão em operação neste outono.

A lei da inércia social: crises agudas empurram sociedades para soluções autoritárias simples. Quem promete ordem rápida diante de prefeituras em chamas tem plateia garantida, e as eleições na França, na Espanha e na Sérvia vão testar o tamanho dessa plateia.

A lei do escapismo coletivo: o medo produz narrativas de culpa contra minorias, dissidentes ou estrangeiros. E repare que, neste outono, ela funciona em todas as direções ao mesmo tempo. Governos culpam a extrema esquerda, antifas e potências estrangeiras. Do outro lado do Atlântico, Donald Trump escreveu numa rede social que os migrantes tomaram a França — quando nem as autoridades nem a polícia francesas atribuíram os distúrbios a imigrantes [o registro está em fortune.com/2026/10/20/europe-france-spain-albania-protests-young-people]. Cada lado encontra um culpado conveniente. Nenhum encontra o aluguel.

A lei da retroalimentação autoritária: regimes repressivos se reforçam, corroem instituições e tornam a recuperação democrática mais difícil. Protesto vira repressão, que vira mais protesto, que justifica mais repressão. A sanfona fecha um pouco a cada volta.

Vamos conseguir evitar o fechamento? O otimista diria que sim, porque os jovens estão na rua. O pessimista, que não, porque a extrema direita cresce e os governos reprimem. O realista esperançoso — e é isso que eu tento ser, emprestando a definição de Ariano Suassuna — olha para os dois lados do fole e vê que o resultado ainda não está escrito.

Há sinais de fechamento, e eles são sérios. E há sinais de aterrissagem, que quase ninguém nota. Na Espanha, um governo que perdeu uma votação devolveu a decisão ao eleitor. Na Bulgária, o governo caiu e o país entrou na zona do euro no prazo previsto, com as instituições funcionando. No Nepal, a revolta virou eleição. Na Sérvia, dois anos de plenários viraram uma lista eleitoral que será testada neste domingo. Em todos esses casos, a onda encontrou uma pista e pousou. Pode dar errado depois — pode, e muitas vezes dá —, mas pousou.

Em A Longa Derrota, escrevi que, desta vez, a contração é votada. O inverso também é verdade. A expansão também é votada, e também é construída, plenário por plenário, porta de escuta por porta de escuta.

A sanfona não fecha sozinha.
Fecha quando as ondas não encontram onde aterrissar.

E daí?… Por que isso importa?…

Porque o Condado não é a Europa. O Condado é qualquer lugar.

No fim de O Senhor dos Anéis — o fim que o cinema cortou —, os hobbits vencem a guerra longe de casa e voltam para encontrar o Condado arrasado: árvores derrubadas, regras idiotas, um moinho cuspindo fumaça e um operador pequeno mandando em tudo, que foi ocupando o lugar devagarinho enquanto eles salvavam o mundo. Nenhuma vitória geral protege o seu lugar, escrevi. O Condado teve de ser retomado rua por rua, por quem morava nele.

A geração que está nas ruas da Europa é a primeira a voltar para casa e descobrir que a casa não é mais dela. Que o apartamento virou ativo; que a escola caiu; que o primeiro emprego foi para uma máquina; que a ilha dos flamingos virou resort; que as decisões são tomadas por quem nunca vai morar ali. O que ela está fazendo, com barricadas e com memes, com plenários e com violência também, é tentar retomar o Condado rua por rua. Não há garantia de que consiga. Há a certeza de que, se as instituições não abrirem pista para ela pousar, alguém vai oferecer um atalho — e o atalho sempre fecha a sanfona.

O livro tem uma frase sobre isso, no último capítulo: o político-engenheiro, que projeta a sociedade a partir de uma planta-mestra, precisa ceder lugar ao político-jardineiro, que prepara o solo, nutre a diversidade e zela pelas condições que permitem à vida florescer. No fim do livro de Tolkien, Sam planta árvores que não vai ver crescer. É a mesma ideia, com setenta anos de diferença.

Neste domingo, 25 de outubro, a Sérvia vota. O Brasil também, no segundo turno de uma eleição presidencial que chegou a ele com Flávio Bolsonaro à frente de Lula por pouco menos de dois pontos no primeiro turno [veja no link congressoemfoco.com.br/…/flavio-e-lula-vao-ao-segundo-turno…]. Não é sobre quem vai ganhar, em lugar nenhum. É sobre o que vem na segunda-feira. Porque, em Belgrado, em Madri, em Paris ou em qualquer cidade brasileira, os sinais são parecidos, e a pergunta é a mesma: quem ganhar vai abrir canais para ouvir, decidir e corrigir no tempo das pessoas, ou vai governar a próxima onda com os métodos de Saruman?

A pergunta não é se as ondas vão continuar chegando.
Elas vão.
A pergunta é se, quando chegarem, vão encontrar onde aterrissar.

As obras de referência deste texto

Todas as fontes jornalísticas e documentais estão linkadas ao longo do texto, no ponto exato em que são usadas. As obras de fundo, que sustentam o argumento inteiro, são estas:

Silvio Meira e Rosário Pompéia, A Próxima Democracia: 32 Teses para o Futuro da Política no Mundo Figital, Porto Digital, 2025 [em a.co/d/0jjSJI84; apresentação em silvio.meira.com/a-proxima-democracia].

Zeynep Tufekci, Twitter and Tear Gas: The Power and Fragility of Networked Protest, Yale University Press, 2017 — a distinção entre força de sinalização e capacidade, e os três déficits dos movimentos em rede.

Erik Brynjolfsson, Bharat Chandar e Ruyu Chen, “Canaries in the Coal Mine? Six Facts About the Recent Employment Effects of Artificial Intelligence”, Stanford Digital Economy Lab, revisão de agosto de 2026 [em digitaleconomy.stanford.edu/news/canariesaug26].

Reuters Institute, Digital News Report 2026 [resumo em gijn.org/stories/2026-reuters-institute-digital-news-report].

Silvio Meira, André Neves, Rui Belfort, Filipe Calegario, Vinicius Garcia e Courtnay Guimarães, As Três Inteligências, Revisitadas, TDS.company, 2026 [em biblioteca.tds.company/ebook-as-tres-inteligencias-revisitadas].

E, neste blog: A Longa Derrota (setembro de 2026), Paredes de Vidro, Relógio Visível (setembro de 2026), Quando a Plataforma “Faz” Campanha (outubro de 2026), PIPOCO DE INTELIGÊNCIA, ENCHENTE DE INFORMAÇÃO (setembro de 2026), O Gráfico, Março de 2026, O Mundo é uma Sanfona (março de 2025) e Narrativas, Distopias, Extremismo: Soluções? (janeiro de 2023).