SILVIO MEIRA

o passado tem nome, e atende no… seu número de telefone

a coisa mais antiga que você ainda usa, no sistema global de conectividade [e não de comunicações, note bem…] é um número de telefone. além, obviamente, da ideia de “um telefone”, em si, como uma coisa independente e não uma aplicação sobre uma plataforma que tem infraestrutura, serviços e aplicações. “telefone” não passa, há tempos, de uma aplicação. mas ainda é vendido como se fosse um “dispositivo”. uma farsa, na qual muitos ainda querem que acreditemos. as teles vendem tempo e entregam pacotes; em miúdos, vendem canais de comunicação [ou minutos], como se o sistema fosse analógico, e entregam bits, compartilhando a infraestrutura.

nem sempre temos razão quando reclamamos que a infra não dá conta do serviço. o problema é que na maioria das vezes, temos. vender tempo, ou minutos de rede, e não ter cobertura e banda para que os minutos sejam usados, de fato, é roubada. o problema é que as teles, autorizadas pelos agentes reguladores, vendem passado [tempo, para cada usuário]. e a rede digital da tele, no presente, de pacotes IP, é compartilhada e não tem, muitas vezes, como entregar tempo. você já usou skype? pois… skype passa por períodos de degradação de qualidade que chegam ao ponto em que você tem que detonar a conexão e começar de novo. parte da plataforma digital, de pacotes, sobre a qual skype funciona. skype não é um orelhão sobre o digital, é digital.

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a FCC [americana; nosso correspondente é a ANATEL] acha que o telefone, assim como tanta tralha que se foi, deveria ter uma data pra ir pra lata de lixo da história. ali por 2018. a ATT [que foi monopólio e agora é parte do duopólio americano] resolveu levar a história à frente e pedir pro regulador de lá pra ensaiar o fim do telefone. e a coisa já vai tarde. segundo a maior empresa de telefonia dos EUA, "This telephone network we've grown up with is now an obsolete platform, or at least a rapidly obsolescing platform… It will not be sustainable for the indefinite future. Nobody's making this network technology anymore. It's become more and more difficult to find spare parts for it. And it's becoming more and more difficult to find trained technicians and engineers to work on it."

em português, a rede de telefonia está obsoleta [o padrão de qualidade de voz foi definido há 80 anos, e o sistema de numeração, mais de 120] e a obsolescência da plataforma, suas tecnologias, das peças de reposição e da formação de  gente para sua operação tornam impraticável a continuidade da coisa como ela era.

ótimo! agora é ir para o futuro e criar os novos serviços [pense phone://… ] que vão transformar nossa experiência de comunicação via áudio. quando isso rolar, o que vai acontecer? simples: não teremos mais “números” de telefone, que já vão tarde. o que mais que você usa, em comunicação, hoje, que tem 120 anos? pra você ter uma ideia, o código morse começou a ser usado em escala nos anos 20 e se tornou obrigatório, em aviação, nos anos 30. e quase ninguém usa, hoje. se não teremos mais números, como falaremos, pela rede, uns com os outros?

bem… já falamos: skype, gTalk, hangouts e outros são sistemas para conversação na e em rede. e não há números lá, não é? por que? porque eles usam protocolos próprios onde um endereço [tal como um número no velho sistema de telefonia] lhe é atribuído e serve como meio de lhe encontrar. resultado?… quem faz parte da rede fechada de gTalk, skype… conversa, naquela rede, com quem está na mesma rede. pra conversar com quem a gente quer, temos que ter conta em todas as redes onde estão nossas relações. falta alguma coisa, não? o que? uma rede universal de conversações, que possa servir de interface entre todas as redes e onde endereços de qualquer rede possam ser usados para comunicação entre participantes de toda outra rede.

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mas… não era isso que o velho sistema de telefonia fazia? era. só que ele morreu e nós precisamos, agora, da versão digital, em rede, móvel, da mesma coisa. e isso pode ser feito trivialmente. se eu e você podemos trocar emeios independente do nosso provedor para tal serviço, usando um endereço que todos conhecemos… é claro que dá pra fazer a mesma coisa para esta aplicação chamada telefone. e dá pra usar o seu e o meu emeio pra isso. eu seria phone://@meira.com, por exemplo. no domínio meira.com só há um , eu. registro isso no provedor “de voz” e tá feito. a casa? troque por casa, acima. escritório? idem, ibidem.  e a maior mudança vai ser no telefone fixo, cujo funcionamento mais eficaz precisaria de uma tela sensível ao toque ou algo parecido, se quisermos manter um aparelho especial só pra telefonar. duvido.

não há nenhum segredo e todos os padrões e tecnologias para fazer isso estão aí. só falta os agentes deste mercado se sentarem na mesma mesa e tomar a decisão de vir para o presente, de uma vez por todas. pode demorar? pode, muito. porque a qualquer momento, e com pequenas mudanças ao alcance de qualquer um, posso mudar meu provedor de emeio. e poderia mudar o do “novo” telefone, da mesma forma. isso, como você imagina, criaria espaço para inovação, o que certamente pode afetar o status quo e os incumbentes. eles são a favor? não, a menos dos que têm status de mono- ou duopólio como a ATT, nos EUA. em todo outro lugar, vai depender da criatividade, empenho e perseverança do regulador.

dependendo da proposta e dos pilotos que rolarem nos estados unidos [se a FCC for em frente…] a gente vai ver, quando os novos serviços forem padronizados, se a conversa da ATT sobre o fim do velho sistema e as possibilidades do novo é pra valer ou, como sempre, se é pra enrolar o lado de cá, os usuários e, no fim, ficará tudo como está.

no brasil, não há sinal desta mudança e ainda estamos inserindo mais um dígito em cada um dos 250 milhões de celulares, ao invés de partir para um sistema racional de numeração. eu disse numeração?… bem, é o passado, no presente. a gente bem que poderia estar fazendo algo mais simples. nos EUA, por exemplo, os códigos de área têm 3 dígitos. tirante números para emergências e especiais, cabem mais de 900 áreas. e todos –eu disse todos- os telefones, fixos e celulares, têm 7 dígitos. que são irrelevantes, porque lá todo mundo se acostumou a usar um número de telefone com 10 dígitos. isso dá… muito mais de um bilhão de números fixos e móveis. aqui, os celulares de são paulo têm 14 dígitos [0-xx-yy]9.8765.4321, os outros têm 13, e os fixos também. e ainda não saímos do zero quando se trata de resolver o problema que realmente interessa: como fazer para que seu celular não tenha nenhum número?

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Silvio Meira é cientista-chefe da TDS.company, professor extraordinário da CESAR.school e presidente do conselho do PortoDigital.org

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