SILVIO MEIRA

23 anotações sobre 2023 [viii]

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O Mundo é Figital

O ano de 2023 e os que se seguem vão demandar estratégias ao mesmo tempo mais sofisticadas e mais ágeis, de todos os negócios, para competir em um espaço que era mais ou menos difuso até a pandemia mas que se tornou cristalino nos últimos três anos. Toda competição, em todos os mercados, em todo mundo, começou a se dar no espaço figital, de dimensões física, social e digital. O que é esse espaço, e como foi que ele apareceu e se tornou dominante [mesmo que muitos ainda não percebam sua ubiquidade]? É uma história de um quarto de século de inovação constante…

A chegada da internet comercial em 1995 fez com que comunicação [até então, usada e paga como uma função de distância e tempo] se tornasse conectividade [de custo fixo ao ponto mais próximo onde já existe uma conexão]. Uma mágica que transformou o mundo num ponto e mudou de vez a geografia, de distância para proximidade, adicionando uma dimensão digital [imediatamente] e outra, social [logo depois] ao nosso universo de performances e preocupações. A rede habilitou ecommerce logo na partida. Mas levou mais de uma década para que seus efeitos práticos começassem a ser sentidos em larga escala. No meio da década seguinte, algo tão radical quanto a internet estava pra acontecer, usando a própria internet como fundação.

Surgidos em 2006, três fenômenos únicos causariam boa parte das rupturas das décadas seguintes. Primeiro, nuvem, ou o provimento de infraestutura como serviço e, paulatinamente, de quase tudo que faz parte dos domínios de computação, comunicação e controle como serviço, em rede. Uma das consequências imediatas foi passarmos a tratar software [e funções digitais] como serviço, botando o mercado de soluções digitais de cabeça pra baixo. Na definição do NIST [bit.ly/3Y3ezVQ], Software as a Service, ou SaaS, é “um recurso [digital] fornecido ao consumidor na forma de aplicações do provedor rodando em uma infraestrutura em nuvem, que o consumidor não gerencia nem controla”.

Esse “não gerencia nem controla” esconde vários níveis de mágica, mas o que interessa, aqui, é que o consumidor pode ser qualquer pessoa, inclusive quem queria criar um negócio em rede, antes, mas tinha que cuidar -ela mesma- de toda infraestrutura e serviços de computação, comunicação e controle [sim, controle: a gente vai ouvir falar muito mais disso na internet das coisas] pra empreitada. Estamos falando de servidores, roteadores, conexões… mas não só: prédios, instalações, ar-condicionado, geradores, segurança… tudo. Sem falar que, antes da nuvem, escalar um negócio era um problema sem solução em certas janelas de espaço-tempo: não dava para comprar, ou montar, instalar, configurar… o hardware e software que você precisava enquanto a oportunidade estava lá. Isso se seu negócio tivesse o capital para adquirir o que era necessário para começar ou expandir uma oferta para a rede.

Com a nuvem e sua elasticidade, o CAPEX [CAPital EXpenditure: recursos necessários para adquirir, ampliar e|ou recompor ativos do negócio] para criar um startup caiu pra perto de zero. E software como serviço fez o mesmo com o TEMPEX [TEMPoral EXpenditure: tempo necessário para desenhar, criar e prover ativos do negócio] também foi pra perto de zero, desde que você entenda o que já existe na rede, é apropriado e pode ser usado [diretamente] por você. Aí, computação, comunicação e controle e as funcionalidades das três passaram a ser providas e consumidas como fluxo e pagas por volume, à semelhança da eletricidade. Informática se transformava em informaticidade. Essa já era a comparação lá em 2006, aqui no blog [veja o link bit.ly/3eUZG2J]. As consequências, para os mercados e negócios legados, seriam não triviais.

Como se não bastasse, smartphones também chegaram em 2006 e possibilitaram informatizar pessoas… e suas vidas, em tempo quase real. Surgiu um mercado potencial global de bilhões de consumidores [hoje, 81% da população mundial {imagem acima} tem um smartphone bit.ly/3BjqCom], cheios de problemas a resolver… e sem nenhuma chance de serem treinados para usar os novos dispositivos. Não dava para imprimir manuais, porque a “fábrica” dos smartphones só “fabricaria” uma pequeníssima parte das aplicações que rodariam no dispositivo. Nem o sistema operacional para uma certa versão do hardware seria o mesmo durante toda sua vida útil. Smartphones já surgiam com sua própria nuvem, onde residia [na forma de software como serviço] parte do seu sistema operacional e de onde viriam suas atualizações e, grande novidade, os aplicativos. Quase todos os apps realmente úteis também eram SaaS… providos por qualquer um que escrevesse software e tivesse um cartão de crédito, pra começar.

O resultado? A partir de 2006, a possibilidade de criar negócios digitais sem investimento em estrutura física, em pouco tempo, para servir um mercado potencial de bilhões de clientes, originou uma “explosão cambriana” de startups. E os novos negócios digitais que “davam certo” tinham algumas características comuns. Primeiro, era impossível descobrir a priori que problemas os usuários tinham, assim como resolvê-los e treiná-los para usar os sistemas resultantes. Isso levou a  uma nova [bem, velha: veja W. Royce, Managing the development of large software systems, 1970, no link bit.ly/3BDtI51] forma de resolver problemas que exigiam a criação de software: o desenvolvimento iterativo, interativo e incremental de soluções, com o usuário participando do processo de desenvolvimento, mesmo que não soubesse disso. Segundo, e por muitas razões, ter o mínimo de funcionalidade possível nas primeiras versões de qualquer solução, para qualquer pessoa, em qualquer mercado. Para não investir no que não era necessário [para o consumidor] e para fazer o mais rápido possível [para o provedor]. Ah, e terceiro, algo ainda mais básico: sem poder educar o usuário [lembre-se… quem fazia software para empresas podia fazer isso…] tudo, absolutamente tudo, tinha que ser tão simples e intuitivo de usar que qualquer, literalmente qualquer pessoa deveria ser capaz de usar sem qualquer instrução.

O ano de 2006 é o marco zero de um novo espaço competitivo e de performance humana e das instituições como um todo: de lá pra cá, o mundo se tornou figital. As novas dimensões da competição, em todos os espaços e mercados passaram a ser a física [onde estavam e ainda estão os negócios analógicos], a digital [ela própria de dimensões computacional, de comunicação, de controle -de sensores e atuadores] e a social [das conexões, relacionamentos e interações], onde ficam as redes das pessoas, organizações e coisas. Este é o espaço dos novos normais.

Escrevi umas 50 páginas sobre este tema, descrevendo as Fundações para os Futuros Figitais [em bit.ly/futurosfigitais]; cada fundação tem 5 lógicas [talvez pudesse ser menos…] e o arcabouço todo tem 5 princípios universais. As fundações [leis…], lógicas e princípios podem não ser exatamente os mesmos que escolhi e descrevi no link acima. Mas as evidências, vindas de todos os quadrantes, são de que o espaço competitivo de performances de todos os agentes é muito similar ao da imagem, regido por um conjunto de normas como as que descrevi, e onde tudo são fluxos de Castells, descritos no quarto episódio desta série [bit.ly/3FrM50P].

Tudo, no mundo figital, são… sequências de trocas e interações propositais, repetitivas e programáveis realizadas por atores sociais [pessoas, organizações, coisas…] situados em posições potencialmente disjuntas, sobre as estruturas econômicas, políticas e simbólicas da sociedade.

Tudo, quando a gente pensa em plataformas, mercados, ecossistemas, competição, produtos, serviços… mas tudo mesmo… são fluxos no espaço figital. Mesmo que seu negócio seja completamente analógico, na sua opinião, tipo um bar da praia, e numa beira-mar bem distante, boa parte da existência dele se deve, hoje, aos fluxos de Castells.

Pra entender o que está acontecendo agora e vai acontecer em 2023 e depois, vá ler o texto sobre as 3F [bit.ly/futurosfigitais]. Não reclame que é longo. O tempo investido por lá pode economizar muito do tempo -e recursos, e gente- do seu negócio. Muito mais que isso, pode ser essencial para sua estratégia e sobrevivência nos mercados -figitais, há algum tempo-, especialmente se você ainda tem pessoas, no seu negócio, sem saber exatamente o que são plataformas, ecossistemas e como elas estão mudando o mundo tão rapidamente. Aliás, vá ver um dos episódios desta série… também, exatamente o Plataformas & Ecossistemas, em bit.ly/3VEcxK3.

Até porque, para competir em 2023 e depois… no mundo figital, ou seu negócio é uma plataforma que habilita um ecossistema ou seu negócio faz parte de um ecossistema habilitado por uma plataforma. Os outros negócios? Não existem, ou ainda existem, mas não existirão mais, em pouco tempo. Simples assim.

Se eu fosse você, começaria 2023 com um problema bem definido: como [re]desenhar a estratégia do meu negócio para competir no espaço figital? O que já fazemos, que pode ser tratado como fluxo neste espaço, que podemos fazer muito mais e melhor? O que fazemos que temos que deixar de fazer, porque não faz mais sentido? E o que ainda não fazemos, que poderíamos fazer, e como, com quem, pra quem, e quando, investindo quanto e por que… pra entregar resultados pra quem? Um ambiente de colaboração criativa pra fazer este trabalho com seu time, parceiros, fornecedores e até clientes é strateegia.digital [aviso: eu sou parte da tds.company, que provê a plataforma strateegia]. Dê uma olhada. Pode fazer muito sentido pro seu negócio.

Eu lembraria, ao tentar fazer isso, que tudo, no espaço figital, são ecossistemas e quase nada do que pode ser feito, lá, dá pra ser feito por agentes isolados, tentando fazer tudo sozinhos. O mundo figital é uma rede; nele, seu valor é criado em rede, por redes, para redes.

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Silvio Meira é cientista-chefe da TDS.company, professor extraordinário da CESAR.school e presidente do conselho do PortoDigital.org

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