Segundo episódio de uma série, aqui no blog [o primeiro está em… bit.ly/360Mwxr], sobre Efeitos de Rede e Ecossistemas Figitais, com a co-autoria de André Neves. Esse texto é o rascunho de um documento que será publicado como um ebook pela TDS.company.

Código -software- cria redes.
E os efeitos habilitados por código mudam tudo.

Texto -tecnologia de pelo menos 5500 anos– serviu de base para os efeitos de expertise ganharem escala no espaço físico, habilitando um mercado global de conhecimento e aprendizado centrado em escolas, bibliotecas e universidades, primeiro, e na sociedade como um todo, depois. Código –tecnologia dos últimos 70 anos, que pode ser vista como texto formal, executável por máquinas- criou a possibilidade, primeiro, e a realidade, logo depois, de estender redes e seus efeitos para o espaço figital. Aí, os efeitos de rede mudaram de alcance e escala. E velocidade.

Neste espaço de dimensões física, digital e social, as duas últimas, virtuais, transformam a primeira; habilitam, aumentam, estendem, articulam e orquestram as dimensões do espaço físico e criam um novo espaço, figital. Código, ao transformar o espaço -até porque pode simular o físico e criar novas realidades[1]modifica as interações entre pessoas [e sistemas], redesenha suas redes e, ao fazer isso, [re]cria [nov]os efeitos de rede aos quais pessoas e sistemas estão sujeitos hoje -e amanhã- em dia.

Em 1996, Castells[2] teorizou que as redes sociais digitais criariam um espaço de fluxos…, de…

…sequências de trocas e interações propositais, repetitivas e programáveis sendo realizadas por atores sociais [as pessoas, organizações, coisas…] situados em posições potencialmente disjuntas [considerando as dimensões do espaço figital][3], sobre as estruturas econômicas, políticas e simbólicas da sociedade.

Se no espaço físico o texto tem a universalidade da literacia como grande efeito de expertise, no espaço figital, o domínio das linguagens em que se escreve código das plataformas que sustentam os ecossistemas figitais e as aplicações que deles fazem parte é o efeito de expertise que torna algumas linguagens digitais mais valiosas do que outras. Quanto mais gente sabe uma linguagem e suas plataformas de suporte, mais demanda pela linguagem[4] –e por pessoas com expertise nela- e mais gente aprendendo… e por aí vai. Mas esse não é o único efeito de rede: eles são muitos…

Efeitos de rede são parte da economia há mais de cem anos; foram a base do argumento da Bell para consolidar a telefonia nos EUA a partir de 1908[5], mas ainda são pouco entendidos no espaço figital, o que faz com que seu uso seja pouco efetivo, quando não caótico. Isso dando um crédito imenso a quem tenta, por exemplo, povoar um ecossistema habilitado por uma plataforma figital sem dar a mínima atenção à matéria, o que os faz gastar fortunas em publicidade [às vezes, digital] para obter resultados quase sempre pífios.

Uma das características distintivas da “nova” economia em relação à “velha” são os efeitos de rede e os processos de evolução dos agentes, na criação de ecossistemas, nos mercados habilitados por plataformas. Aliás, mercados em rede, habilitados por plataformas figitais, deverão ser os ecossistemas e as características da economia do futuro. Agora. Aqui, e agora, tentaremos decodificar efeitos de rede responsáveis por boa parte da dinâmica das redes[6] [inclusive nos negócios e suas redes de valor, como abaixo] começando por entender que eles são… o que, mesmo? Externalidades?…

Plataformas são a base.
Ecossistemas -e mercados em rede- existem sobre plataformas

Segundo Marc Andreesen[7]

plataformas são sistemas [de informação] que podem ser programados e personalizados por desenvolvedores externos -usuários- e adaptados a necessidades e demandas que seus desenvolvedores originais não contemplaram por falta de tempo, recursos, conhecimento ou, talvez até mais apropriadamente, por opção estratégica, de adicionar ou não.

Toda plataforma deve ser programável por agentes externos ao seu grupo de desenvolvedores. Se não é, não é uma plataforma. É um sistema de informação, tal qual a velha folha de pagamentos. As infraestruturas e serviços das plataformas devem ser processos interdependentes, devidamente orquestrados, não podem estar cercadas de burocracia, para que possam ser usadas para realizar outras ações de forma elegante, o que demanda times, ágeis e flexíveis, parte de uma organização em rede, que aprende continuamente com o que percebe dentro e fora dela. O uso das plataformas pelos agentes dos ecossistemas pode catalizar processos de adaptação, evolução e transformação dos ecossistemas e das próprias plataformas.

No contexto deste trabalho, plataformas figitais são as camadas de infraestrutura e serviços que, orquestradas por mecanismos de governança que regulam os usos de suas interfaces para permitir que agentes -indivíduos, negócios, coisas, apps- desenvolvam aplicações e estabeleçam as conexões que são bases para relacionamentos a partir dos quais se formam comunidades, capazes de serem os ambientes onde acontecem interações em redes, que frequentemente levam às transações nos mercados habilitados pelas plataformas.

De mais de uma forma, plataformas são novas fundações para criação, entrega e captura de valor. Plataformas formam mercados, mediando a interação entre clientes e coordenando a demanda em todos os lados do mercado, especialmente quando os ecossistemas habilitados são de trabalho[8]. Mercados figitais dependem de uma plataforma figital que media, integra e distribui informação de ou para usuários e de ou para muitos produtos e serviços, conectando consumidores, fornecedores, complementadores e intermediários de mercado. Plataformas facilitam conexões, relacionamentos, interações e transações entre múltiplos lados que atendem, sempre tentando fazer com que agentes de um lado tenham maior probabilidade de entrar na plataforma quantos mais membros dos outros lados o fizerem.

Plataformas, por outro lado, reduzem dois custos: os de busca, pelos quais passam agentes de todos os lados antes de qualquer transação, o que é feito reduzindo a assimetria de informação entre as partes; e custos compartilhados, incorridos durante as próprias transações, como os de pagamento.

O valor das plataformas depende de poucos elementos: a rede de usuários finais, de facilitadores e complementadores, o escopo e arquitetura da plataforma. Isso não quer dizer que plataformas são simples de analisar e entender, muito menos de desenvolver, evoluir e popular. À medida que quase tudo o que está associado a valor, em rede, deixa de ser um produto autônomo e passa a depender de plataformas, definições e limites dos mercados de produtos deixam de ser relevantes para definir o tipo e a intensidade da concorrência e identificar os concorrentes relevantes[9].

Quando plataformas habilitam ecossistemas, a competição se dá entre mercados. Produtos criados e negociados em [ou por meio de] plataformas não se limitam a um ou poucos setores, e mercados habilitados por plataformas podem abranger múltiplos mercados [clássicos] de produtos. Tratar tais mercados [de produtos] de forma separada deixaria de lado o ponto-chave dos mercados figitais: a interconexão e interdependência entre produtos em muitos mercados e setores que podem formar um sistema integrado de produtos e serviços para os clientes finais.

Plataformas e, em particular, mercados multilaterais habilitados por plataformas, capturam tal nível de agregação e interdependência. Na teoria da concorrência [de antes das plataformas], mercados são estáticos; empresas competem em mercados definidos, tomando a estrutura de mercado como fixa, onde o foco das análises está em como as ações competitivas entre empresas rivais afetam sua capacidade de capturar uma parte maior do valor total disponível em um determinado mercado.

Na competição de, ou entre, plataformas, a ênfase muda para criação de valor, com as plataformas redesenhando mercados ao tentar maximizá-los. Os vetores do comportamento competitivo entre provedores rivais podem diferir, com alguns agindo para criar mais valor para seus usuários, mesmo quando podem desencadear retaliação de rivais, em contraste com o comportamento em mercados tradicionais.

Plataformas são o principal esteio de sustentação de modelos de negócios digitais ou intensivos em efeitos ou performances digitais. Como há quase tantas definições de modelos de negócios quanto modelos de negócios propriamente ditos, podemos definir, para efeito de nossa discussão a seguir, que um modelo de negócios é o conjunto de respostas à pergunta…

“…quem paga o que, para quem, por que e como, para quem fazer o que, para quem, onde, quando, por que e como?…”

Em mais detalhe, um modelo de negócios é[10]uma representação abstrata de uma organização, de seus principais arranjos arquitetônicos, cooperativos e financeiros, inter-relacionados, projetados e desenvolvidos para o presente e futuro, bem como como os principais produtos e/ou serviços que a organização oferece, ou oferecerá, com base nesses arranjos, necessários para atingir suas metas e objetivos estratégicos”. Daí, um modelo de negócios figital é[11] uma “extensão conceitual de modelos de negócios, habilitada por tecnologias figitais e dados para transformação digital do negócio, com foco na entrega de ofertas e experiências figitais aos clientes através de plataformas figitais e no objetivo de criar soluções escaláveis em ecossistemas habilitados por tecnologias da informação e comunicação.”

Negócios escaláveis em ecossistemas de plataformas. É disso que se fala quando se discute efeitos de rede. É para isso que eles servem. É por isso que devem ser tratados como parte das fundações para os negócios que verdadeiramente dependem de plataformas, dos negócios que são figitais por desenho, construção, execução e evolução.

Breve, mais um episódio [o primeiro está em… bit.ly/360Mwxr] da série Efeitos de Rede e Ecossistemas Figitais, com a co-autoria de André Neves, que também responde pela criação dos desenhos abstratos da série, usando Stable Diffusion.


[1] Vindenes, J., “Virtual Reality as a Catalyst for Thought”, Phil. NOW, 2020, bit.ly/3JOIyds.

[2] Castells, M., G. Cardoso, “The network society”. Oxford:Blackwell, 1996.

[3] Castells não menciona o espaço figital em lugar nenhum; isso é por nossa conta.

[4] O código da imagem acima está escrito em Ballerina, uma linguagem nativa da e para a rede e nuvens: bit.ly/3AnnoQD.

[5] Wikipedia, “Network Effect: Origins”, bit.ly/3QHubcW.

[6] Hsin-Hui, C., J. Zolkievski, “Decoding network dynamics”, Ind Mkt Mngmt, 2012, bit.ly/3PoNk2y.

[7] Andreesen, M., “The three kinds of platforms you meet on the Internet”, 2007, bit.ly/2WKNrjh.

[8] Drahokoupil, J., “The business models of labour platforms: creating an uncertain future”, EEP, 2021, bit.ly/3DZGFtE.

[9] Cennamo, C., “Competing in digital markets: A platform-based perspective”, AMP, 2021, bit.ly/3Ujv7He.

[10] Al-Debei, M. et al., “Towards a business model for cellular network…”, UKAIS, 2008, bit.ly/3fW33tW.

[11] Guggenberger, T., et al., “Towards a Unifying Understanding of Digital Business Models.” PACIS, 2020, bit.ly/3SHABKC.