SILVIO MEIRA

Rupturas, Inovação, Teatro, Oportunidades, Sobrevivência

1. sob pressão para EVOLUIR e se TRANSFORMAR frente a RUPTURAS que desafiam sua sobrevivência e demandam INOVAÇÃO, especialmente ESTRATÉGICA, para mudar COMPORTAMENTOS e transformar MODELO de NEGÓCIOS… muitas empresas ainda acham que TEATRO é a vida, real. mas NÃO É.

2. há um alerta muito relevante -e até recente- sobre esse cenário em… Why Companies Do “Innovation Theater” Instead of Actual Innovation, partindo de uma experiência real com um grande negócio. a impressão que eu tenho, quando vejo os grupos teatrais em ação em negócios de todos os tipos, é que quase não deve haver ninguém, lá, que saiba ou deveria saber qual é agora, a TEORIA do NEGÓCIO e, se é que ela precisa mudar, por que e para onde deveria ir. peter drucker escreveu um ótimo texto sobre o assunto, há mais de 25 anos, com o singelo título… The Theory of the Business. deveria ser leitura obrigatória a partir do nível de estagiário de qualquer negócio. evitaria muito teatro, especialmente nos grandes negócios.

3. os grandes negócios, aliás, são os que estão mais preparados para o TEATRO da INOVAÇÃO. pra começar têm os meios; um monte de gente e energia, recursos e razão para pensar em mudar. mas, ao mesmo tempo, grandes e estáveis estruturas, núcleos de poder e governança, comitês e conselhos, processos, normas e aversão a risco, a ponto de muitos executivos quererem mudar… inovar, mas só se houver alguma coisa como uma norma ISO para garantir aderência e diminuir -quiçá zerar- risco. e isso causa todas as razões pra não mudar, porque NINGUÉM, num grande negócio que “está dando certo”, quer ter sua carreira associada a risco, a algum esforço que pode dar errado… mesmo que, se der certo, salve o negócio.

4. daí o TEATRO da INOVAÇÃO: bora brincar de inovar, fazer concurso de ideias, nada de nem tentar ter uma ESTRATÉGIA clara e transparente, muito menos de inovação ou [nem pensar!…] de transformação digital de verdade. de resto, tudo isso dá muito trabalho; melhor animar a turma com uns hackathons, fazer um grande barulho nas redes sociais, fazer um app que não precisa ser usado [talvez nem deva, pra não dar trabalho], contratar uma consultoria para criar uma IMAGEM inovadora e digital para o negócio mas… nada de mudar a sério. SE tiver que rolar, vai ser depois da gestão atual, de preferência depois dela garantir que as OTIMIZAÇÕES para o PASSADO cortam ainda mais os custos, diminuem muito o risco de inovar mas aumentam os bônus, porque resultados imediatos… aparecem. se as rupturas no nosso mercado demorarem a acontecer, melhor ainda. mas…

5. num MERCADO qualquer, uma RUPTURA é a CONSEQUÊNCIA de novas TECNOLOGIAS habilitando novos modelos de negócios ASSIMÉTRICOS DEMAIS para os INCUMBENTES, a ponto destes nem tentarem usá-las. os novos modelos de negócios EMERGENTES evoluirão rapidamente e aí, de repente, JÁ É FUTURO.

6. modelos de negócios ASSIMÉTRICOS são aqueles que MIGRAM VALOR entre mercados. para refletir sobre isso, pense como máquinas de busca e redes sociais causaram RUPTURAS nos mercados de mídia, especialmente notícias, em particular JORNAIS.

7. quase TODOS os mercados já estavam passando por RUPTURAS habilitadas por tecnologias DIGITAIS, alguns -como mídia, entretenimento e notícias- desde o começo dos anos 2000. COVID19 acelerou alguns destes mercados por 3, 5… ou mais anos. para meu assombro, uma pesquisa global mostra 46% de executivos no nível C afirmando que seus mercados foram acelerados de 5 a 14 anos. volte três casas e leia o item 4, de novo. as rupturas vão acontecer ainda mais rapidamente, porque são um exemplo de inovação radical, e um dos lados da equação, os consumidores, tiveram um crash course aplicado de comportamento digital por 90. 120… 150 dias ou mais… e parece que o tempo mediano para se instalar um novo hábito é de 66 dias [min 18, max 254]. quem já tinha pouco tempo para inovar tem, de repente, muito menos tempo para inovar.

8. inovação é a MUDANÇA de COMPORTAMENTO de AGENTES, no MERCADO, como FORNECEDORES e CONSUMIDORES de qualquer coisa. velha e boa definição de peter drucker [e a melhor de todas, quase uma LEI universal, na minha opinião]. ninguém inova porque gosta, é bonito ou porque outros estão inovando e é preciso imitá-los, nem ninguém põe o foco de nenhum negócio em inovação, pois ela é meio, e não um fim em si. empresas inovam para SOBREVIVER. inovação, continuada, com pessoas e recursos permanentes, em qualquer negócio, deveria ser um dos RITOS mais bem estabelecidos de qualquer negócio, parte fundamental de seu repertório.

9. o foco de 100% dos negócios deveria ser SOBREVIVÊNCIA. certas horas, é preciso cortar custos para sobreviver. noutras, aumentar riscos. ou tomar mais empréstimos. fazer alianças. ou desfazer. comprar competidores. ou vender assets para a competição. crescer e muito ou, certas horas, diminuir de tamanho e/ou de escopo e talvez mudar de mercado. falando em mudança, inovação é mudança; sem disposição permanente para mudança, sempre que necessária -e é sempre necessária- vai ser muito difícil sobreviver, especialmente agora, em tempos de RUPTURA, quando o tempo da mudança não é determinado nem por situações internas ao negócio nem pelo que está acontecendo no seu [principal] mercado, mas pelo que está acontecendo em todos os outros mercados, alguns dos quais a gente nem imagina quais são.

10. em tempos de RUPTURA, sobrevivência exige TRANSFORMAÇÃO, que por sua vez demanda ESTRATÉGIA. mas o que é isso, mesmo? quase todo mundo tem sua definição, mas pouquíssima gente sabe do que se trata. estratégia é o processo que transforma aspirações em capacidades, levando em conta o tempo [para executar, e o timing onde tudo acontece], o espaço [a ser ocupado, e o contexto onde a ação se desenrola] e a escala [o escopo da ação, e o volume do espaço-tempo a ser tratado e ocupado no desenrolar da estratégia]. estratégia, em qualquer organização, articulada no contexto de seus princípios e valores, levando em conta seus limites e recursos, é o que tem o potencial de mudar o contexto e todos os processos de criação, entrega e captura de valor no negócio. se isso já era urgente antes de COVID19, imagine agora.


na terminologia dos conflitos, há uma noção bem clara de TEATRO, por sinal: o teatro de GUERRA, fração do qual é o teatro de OPERAÇÕES, a parte do todo onde se travam as batalhas. a definição é de otto von clausewitz [no início do séc XIX], atualizando a noção romana de theatrum belli, e quase certamente não vale para guerras assimétricas, elas próprias representantes de uma RUPTURA nos conflitos, onde [até] os territórios são drasticamente modificados, fronteiras deixam de existir, pode não haver declaração formal de intenções… tudo muito parecido com o novo estado da competição nos mercados [habilitados por plataformas] digitais. onde todos competem e cooperam  com todos, em todos os mercados, o tempo todo. ou seja, mesmo de onde veio o TEATRO, em parte, para os negócios, ele já é incerto, ou na prática, não existe mais, como concebido. parece que vamos ter mesmo que mudar, para sobreviver.

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Silvio Meira é cientista-chefe da TDS.company, professor extraordinário da CESAR.school e presidente do conselho do PortoDigital.org

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