por Silvio Meira

promoção na operadora: [uma] música a R$18

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o mercado de entretentimento móvel, no brasil, quase não existe. um amigo resolveu tentar entender porque. no país, 81.5% dos celulares são pré-pagos; o extremo é o pará, que tem 90.8% de pré-pagos. de acordo com a anatel, o país tem [não necessariamente em operação] 151 milhões de celulares. em números redondos, são 120 milhões de pré-pagos e 30 milhões de pós-pagos. nesta conversa, estamos falando da vasta maioria, os 120 milhões de pré-pagos, que poderiam ser um grande mercado. mas não são. por causa deles, o ARPU [renda média das operadoras, por mês, por usuário, incluindo os pós-pagos] é menos de quarenta reais.

pois bem. o amigo pega um pré-pago e carrega com R$25, pra fazer um teste. poderia ter lido um texto do ti inside –celular no brasil é o mais caro do mundo– e não precisaria testar nada. mas é um cabra prático e vai atrás de ver como as coisas funcionam na vida real. assume que quase todo mundo que tem pré-pago não tem banda larga em casa e, se quiser uma música tocando no celular, vai trazê-la pelo próprio celular.

isso se não souber das consequências… quais? bem, no site da operadora há um grande sucesso à venda por módicos R$3,99. meu amigo assume que o bom cidadão, cumpridor das leis, não vai copiar a música do celular ao lado. gente boa, ele entra no site da operadora e paga 75% mais caro do que se estivesse comprando a canção no iTunes [US$0.99], bota fé na transação e confirma o dá-o-loud.

algum tempo depois, o tal sucesso está carregado no pré-pago [emprestado, pro experimento]. vai rolar a festa. antes, pra saber o que mais pode fazer com o celular, meu amigo verifica quanto sobrou de crédito. a surpresa? sobraram R$7. como sabemos,  a música custou R$3,99. quanto devemos somar a R$3,99 para, ao subtrairmos o resultado de R$25, termos R$7 como resultado?… QUATORZE REAIS. a música custou quatro reais e o download custou quatorze, dos quais mais de cinco reais vão para o governo como imposto e a operadora fica “apenas” com uns nove reais, ou pouco mais de duas vezes o preço da música, pra enviá-la pra seu celular.

feitas [e entendidas] as contas não é nenhuma surpresa que, primeiro, o ARPU do brasil seja um dos mais baixos das américas. afinal de contas, ninguém é doido o suficiente pra correr tal tipo de risco com alguma frequência, tipo umas duas vezes na vida inteira. eu mesmo –nem pra testar- nunca comprei nada do site de nenhuma operadora. eu e quase toda a população móvel do país, pelo visto.

segundo, enquanto o modelo de negócios das operadoras não mudar, radicalmente, para limitação de banda [enquanto houver limitação de infraestutura] combinado com volume ilimitado [em potencial] de dados, a coisa vai continuar exatamente como está. nem nós participamos dos negócios móveis, nem elas ganham, conosco, o que poderiam estar ganhando. garanto que, com um modelo de negócios que faça sentido para os usuários, todos nós ganharíamos muito mais. simples assim…

Sobre o autor

Silvio Meira

silvio meira é cientista-chefe da TDS.company, professor extraordinário da CESAR.school e presidente do conselho do portodigital.org

por Silvio Meira
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silvio meira é PROFESSOR EXTRAORDINÁRIO da cesar.school, PROFESSOR EMÉRITO do CENTRO DE INFORMÁTICA da UFPE, RECIFE e CIENTISTA-CHEFE, The Digital Strategy Company. é fundador e presidente do conselho de administração do PORTO DIGITAL. silvio é professor titular aposentado do centro de informática da ufpe, fundou [em 1996] e foi cientista-chefe do C.E.S.A.R, centro de estudos e sistemas avançados do recife até 2014. foi fellow e faculty associate do berkman center, harvard university, de 2012 a 2015 e professor associado da escola de direito da FGV-RIO, de 2014 a 2017.

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