por Silvio Meira

UM ANTIVÍRUS para a HUMANIDADE

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SARS-COV-2 é só um dos milhares de coronavírus que a ciência estima existir, ínfima parte dos 1,7 milhões de vírus desconhecidos que os modelos matemáticos calculam viver em animais[1]. A destruição sistemática e agressiva do ambiente está causando uma explosão viral sem igual na história, o que poderá levar nosso tempo a ser conhecido como o SÉCULO das PANDEMIAS[2].

É quase certo que COVID19 se originou de animais silvestres de origem ilegal, o que cria um novo senso de urgência para acabar com crimes contra a vida selvagem. Incrivelmente, não há um acordo global que trate tal ataque à natureza e, por conseguinte, à vida humana[3]. Aqui é onde começa a nossa conversa sobre um antivírus para a humanidade. E se inicia longe, na distância e tempo: Çatalhöyük é uma das mais antigas comunidades protourbanas, data de 7100AC; bioarqueólogos que a estudam há 25 anos descobriram que três dos problemas que a levaram ao colapso foram aglomeração excessiva, degradação ambiental e… epidemias[4]. Mais de 9000 anos depois ainda estamos na mesma situação, e piorando.

Vivemos nossa maior crise desde a Segunda Guerra. Muitos a previram, em especial os virologistas, epidemiologistas e economistas, alertando que não havia como nos defendermos de uma grande pandemia ou de lidar com uma, caso acontecesse. Aconteceu.

Este vírus não é o último e quase certamente não é o mais agressivo e duradouro. Até aqui, tratamos epidemias e pandemias num ciclo interminável de pânico ~ negligência ~ pânico. E não podemos continuar assim. Para mudar, é preciso repensar tudo que está associado ao risco biológico da e para a humanidade, começando por encontrar um equilíbrio entre humanos e o ambiente. Sem isso, o risco biológico só crescerá e seu custo poderá se tornar insustentável.

Uma parte não trivial da mudança é que precisamos instalar um antivírus no sistema operacional da humanidade. Esse antivírus não está pronto, é preciso um esforço gigantesco para desenvolvê-lo. Assim como antivírus de computadores, nunca ficará pronto, terá que evoluir continuamente e, não é apenas um artefato tecnológico, mas um sistema ambiental, social, econômico, tecnológico… que envolve e lida com tudo o que há no planeta. Inclusive o poder. Não vai ser fácil.

Mas alguma hora os dados, analisados, vão mostrar que falta de um sistema antivírus global que teria custado “só” dezenas de bilhões de por ano… custou a vida de centenas de milhares de pessoas e causou um prejuízo de dezenas de trilhões de dólares nas economias globais. E isso no curto prazo.

Essa crise, que foi “apenas” um colapso parcial do sistema operacional da humanidade, terá que acelerar, aprofundar e universalizar um conjunto de mudanças que já estavam acontecendo em alguns países, cidades e organizações. Ao sair dela, não voltaremos ao normal, como muitos querem. Vamos realizar uma transição para num novo normal, que começou a ser criado agora e terá que ser muito diferente do que tínhamos até agora, para diminuir radicalmente o risco do planeta seguir Çatalhöyük e entrar em colapso, de verdade, na próxima grande pandemia.

REFERÊNCIAS

[1] Coronavirus: One virus caused Covid-19. Scientists say thousands more are in waiting, SCMP, 06/ABRIL/2020, bit.ly/3aNGjEZ.

[2] Belgian virus hunter warns of looming ‘age of pandemics’, POLITICO, politi.co/309EVsM.

[3] The Imperative of Ending Wildlife Crime, IISD, 14/MARÇO/2020, bit.ly/2Jvi3LK.

[4] First communities experienced overcrowding, infection and violence, BBC, 25/JUNHO/2019, bit.ly/2FFDO9Z.


Uma versão editada deste texto foi publicada no ESTADÃO em 08/04/20.

Sobre o autor

Silvio Meira

silvio meira é cientista-chefe da TDS.company, professor extraordinário da CESAR.school e presidente do conselho do portodigital.org

por Silvio Meira
por Silvio Meira

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silvio meira é PROFESSOR EXTRAORDINÁRIO da cesar.school, PROFESSOR EMÉRITO do CENTRO DE INFORMÁTICA da UFPE, RECIFE e CIENTISTA-CHEFE, The Digital Strategy Company. é fundador e presidente do conselho de administração do PORTO DIGITAL. silvio é professor titular aposentado do centro de informática da ufpe, fundou [em 1996] e foi cientista-chefe do C.E.S.A.R, centro de estudos e sistemas avançados do recife até 2014. foi fellow e faculty associate do berkman center, harvard university, de 2012 a 2015 e professor associado da escola de direito da FGV-RIO, de 2014 a 2017.

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