“En aquel Imperio, el Arte de la Cartografía logró tal Perfección que el mapa de una sola Provincia ocupaba toda una Ciudad, y el mapa del Imperio, toda una Provincia. Con el tiempo, estos Mapas Desmesurados no satisficieron y los Colegios de Cartógrafos levantaron un Mapa del Imperio, que tenía el tamaño del Imperio y coincidía puntualmente con él.”
Jorge Luis Borges, Del Rigor en la Ciencia, 1946.
0: IA e Simulacros – A Materialização do Hiperreal
Para compreender o impacto de Inteligência Artificial em nossa época, é preciso primeiro retornar ao diagnóstico de Jean Baudrillard em Simulacra and Simulation, onde se argumentava que vivemos uma “precessão dos simulacros”, onde a cópia não apenas precede o original, mas o elimina. O simulacro “nunca é o que esconde a verdade — é a verdade que esconde que não há nenhuma”. O simulacro, portanto, “é verdadeiro“.
IA generativa é a materialização radical dessa profecia. Ela não se limita a criar cópias ou imitações (simulação de primeira e segunda ordem); ela gera um “real sem origem ou realidade: um hiperreal“. É a “geração por modelos de um real sem origem ou realidade” que Baudrillard descreveu. IA é a matriz que produz o real a partir de “células miniaturizadas, matrizes e bancos de memória”, capazes de reproduzi-lo “um número indefinido de vezes”.
Nesse contexto, “fake news” são um sintoma menor e enganador. Focar nelas é acreditar, ainda, na existência de uma “verdade” que poderia ser falsificada.
O problema real não é a falsificação da realidade,
mas a simulação da própria verdade.
IA cria um ecossistema onde não há mais um referencial externo para verificar o que é “real” ou “falso”. Cada deepfake, cada texto sintético, cada avatar não é uma mentira sobre um fato real, mas a criação de um fato paralelo, autônomo, que compete com o real em pé de igualdade.
A distinção entre o verdadeiro e o falso, o real e o imaginário, se dissolve. Estamos, como diz Baudrillard, “abrigados do imaginário, e de qualquer distinção entre o real e o imaginário, deixando espaço apenas para a recorrência orbital dos modelos e para a geração simulada de diferenças”. É nesse hiperreal que o self, os grupos e a própria política devem ser repensados.
1. Nos Indivíduos e no Self: O Eu Governado por Perfis
A lógica do hiperreal descrita por Baudrillard e materializada por IA encontra seu primeiro e mais íntimo campo de atação no indivíduo. O sujeito contemporâneo é o que podemos chamar de selfigital, um self que emerge no espaço figital e é constituído por um eu figital. Esse eu não é uma substância pré-existente, mas uma unidade sociotécnica: um corpo-em-rede atravessado por dados, algoritmos e plataformas. IA não apenas mede este eu; ela o constitui.
A consequência direta é a transformação do indivíduo em simulacro. O eu figital é primeiramente lido como um perfil, um conjunto de dados em um modelo preditivo. Este perfil é o simulacro que precede e molda a experiência do sujeito.
Como Baudrillard e Borges diriam, o mapa (o perfil) agora precede o território (a pessoa).
O selfigital, em sua busca por coerência e reconhecimento, passa a se calibrar, a se performar e a se moldar para corresponder a esse perfil algorítmico. A identidade deixa de ser uma descoberta interna para se tornar uma otimização externa.
Essa dinâmica gera uma crise de autenticidade fundamental. O selfigital vive uma tensão permanente entre sua experiência vivida e o “ideal algorítmico” — a versão de si mesmo que os sistemas de recomendação e as métricas de engajamento esperam e recompensam. IA, ao gerar conteúdo, imagens e até personalidades sintéticas, cria um “outro algorítmico” que serve como espelho e modelo. O resultado é um “vazio existencial figital“: quando o sujeito internaliza a lógica do simulacro, ele se sente vazio não porque falha em alcançar um ideal, mas porque descobre que o próprio ideal era um simulacro. Ele é um “self estendido” que se fragmenta em múltiplas performances, sem um núcleo estável, habitando o “deserto do real” que Baudrillard previu.
2. Em Grupos de Pessoas: A Implosão do Social em Bolhas Algorítmicas
Se o indivíduo se torna um simulacro, os grupos que ele forma são ainda mais profundamente afetados, pois a lógica que governa o eu figital se estende e se amplifica nas dinâmicas coletivas. IA não mede apenas o comportamento individual; ela ativa e governa as interações, transformando o social em um campo de simulacros em colapso.
O fenômeno central é a fragmentação da esfera pública em “semi-publicidades” algorítmicas, como diagnosticado por Habermas. As plataformas, usando IA, não conectam pessoas; elas as separam em bolhas de filtro, em “câmaras de eco” que são simulacros de comunidade.
Cada grupo online se torna um espaço autocontido, com suas próprias regras, sua própria “verdade” e seus próprios inimigos, gerido por uma lógica de engajamento que não tem nada a ver com deliberação ou bem comum. O social implode; em vez de uma esfera pública unificada, temos miríades de micro-realidades conflitantes.
Além disso, IA tem a capacidade de simular a própria dinâmica social. Redes de bots podem criar a aparência de apoio massivo a uma causa (simulação de consenso) ou, inversamente, gerar ondas de ódio e polarização (simulação de conflito). Como Baudrillard analisa em Watergate, o sistema não mais dissimula um escândalo; ele simula o próprio escândalo para regenerar a moralidade. Da mesma forma, IA pode simular a “opinião pública” para validar agendas. O grupo deixa de ser um sujeito político para se tornar um objeto de modelagem e modulação, e a sociabilidade se torna uma “solidão em conjunto“, onde interagimos com versões simuladas e previsíveis uns dos outros, eliminando o Outro em sua radical alteridade.
3. Na Sociedade: O Deserto do Real e a Implosão Figital
A agregação de indivíduos simulados e grupos fragmentados resulta em uma sociedade que se tornou o próprio simulacro. A análise de Baudrillard atinge sua máxima relevância aqui: o mapa precedeu o território, e agora o território é o que sobra dos simulacros. IA é a tecnologia que permite a geração de um “real sem origem ou realidade“, um hiperreal onde a distinção entre o físico, o digital e o social se dissolve no conceito de “mundo figital”.
A sociedade não experimenta mais a realidade diretamente, mas através de modelos operacionais que a antecedem e a constituem. As plataformas digitais, movidas por IA, operam como as “matrizes” e “bancos de memória” de que fala Baudrillard. A “precessão dos modelos” é a norma: os modelos de IA (de comportamento de consumo, de engajamento social, de risco) agora geram o comportamento que pretendem apenas descrever. A realidade social torna-se uma “síntese radiante de modelos combinatórios em um hiperespaço sem atmosfera”, onde o evento real é substituído por sua simulação antecipada e perfeitamente descritiva.
O resultado final é a implosão do significado. Na lógica da “refeudalização” da esfera pública, cada bolha algorítmica se torna seu próprio universo de significado, seu próprio simulacro autocontido. A sociedade perde uma base compartilhada para a experiência coletiva, levando-nos ao “deserto do real” de Baudrillard…
um espaço onde as referências comuns se evaporaram e só restam os ecos dos modelos que nos governam.

4. Na Política: A Estratégia do Real e o Fim da Diferença
A política contemporânea é o palco onde a simulação de terceira ordem[1] de Baudrillard se manifesta de forma mais explícita. Ela não se contenta mais em dissimular a verdade;
ela simula a própria existência de uma verdade para ser dissimulada, operando como uma “máquina de dissuasão” para regenerar a crença em um princípio de realidade que já não existe.
O cenário político se tornou um “espetáculo” onde a performance substitui a substância.
IA potencializa isso ao criar avatares políticos, discursos sintéticos e campanhas hiperpersonalizadas que simulam conexão autêntica.
A política deixa de ser um espaço de deliberação sobre o bem comum para se tornar uma performance onde a autenticidade é justamente o que está sendo simulado.
Como aponta Baudrillard, o sistema opera através de uma “negatividade espiralada“. Escândalos são simulados para regenerar a moralidade; crises são encenadas para provar a resiliência do sistema. IA, com sua capacidade de gerar narrativas em escala e simular apoio ou oposição popular, torna essa espiral infinita. Cada ato político é simultaneamente verdadeiro e falso, real e simulado, em um “inferno da simulação” onde toda determinação evapora. A transgressão perde seu poder, pois não há mais um “real” a ser transgredido.
5. Nas Eleições: A Simulação do Voto e da Vontade Popular
O processo eleitoral, como ritual democrático por excelência, é particularmente vulnerável à lógica dos simulacros. IA o transforma de um mecanismo de expressão da vontade popular para um campo de simulação dessa mesma vontade.
O microtargeting psicológico, alimentado por IA, é a tecnologia-chave aqui. Ele não apenas persuade; ele simula uma conexão personalizada, criando a ilusão de que o candidato “entende” o eleitor de forma única, quando na verdade é um sistema automatizado explorando vulnerabilidades psicológicas. Paralelamente, a simulação de apoio popular através de redes de bots e conteúdo sintético pode fabricar a aparência de viabilidade eleitoral ou de consenso, influenciando a percepção pública e o comportamento real dos eleitores.
O resultado é uma crise da representação.
As eleições se tornam um jogo de simulações concorrentes, onde a vontade do eleitorado é constantemente antecipada, moldada e, por fim, substituída por sua própria simulação.
O ato de votar perde seu peso simbólico, pois se torna impossível distinguir se uma tendência é uma expressão autêntica ou o resultado de uma operação de simulação algorítmica.
6. Na Democracia: A Deterrence Machine e a Necessidade de Refundação
A democracia, como concebida na modernidade, baseava-se na promessa de representação, deliberação e verdade. IA, ao materializar a lógica dos simulacros, ataca seus próprios fundamentos, tornando a “próxima democracia” uma necessidade imperativa.
A democracia se torna o que Baudrillard chamou de uma “deterrence machine“. Como Disneyland, é apresentada como imaginária (o espaço da deliberação racional) para nos fazer crer que o resto (o mercado, as redes, a tecnologia) é real. Os rituais democráticos (eleições, debates) se tornam enclaves imaginários que servem para esconder que todo o sistema social já não opera segundo princípios democráticos, mas segundo a lógica das redes e algoritmos. A democracia se torna uma “máquina de regeneração do imaginário” para “rejuvenescer a ficção do real”.
A crise final é epistemológica. A democracia moderna dependia de uma crença na possibilidade de acessar uma realidade comum. IA, com os deepfakes e a geração massiva de conteúdo sintético, destrói essa possibilidade. Vivemos a era da hiperrealidade: não há mais uma “verdade” a ser escondida, mas sim a ausência de uma realidade referencial.
A luta não é mais entre verdade e mentira, mas entre diferentes simulacros competindo por dominância.
Diante desse cenário, não se trata de “consertar” a democracia antiga, mas de uma refundação radical que reconheça o mundo figital, afirme a autenticidade como prática consciente e cultive a democracia como um ecossistema vivo.
A democracia só sobreviverá se deixar de ser uma representação do povo para se tornar uma cocriação contínua e consciente da realidade social em um mundo onde o mapa e o território são, finalmente, a mesma coisa.

*.*.*.*.*
[1] 1: A imagem como máscara que perverte e desnatura uma realidade profunda; 2: A imagem como máscara que oculta a ausência de uma realidade profunda; 3: A imagem sem relação com nenhuma realidade; ela é seu próprio simulacro puro: Esta é a fase final, a do hiperreal. O simulacro não se refere mais a nenhum original, nem mesmo para negá-lo. Ele é um modelo que gera o real. A imagem não esconde nada, pois não há nada para esconder.





































































