SILVIO MEIRA

reescrevendo pessoas em software: episódio final

conjectura: toda civilização evolui até o ponto em que começa a escrever software. consequência: a partir daí, rapidamente, chegará ao ponto em que começará a escrever pessoas em software. será que esta conjectura é uma verdade universal? se for, como e por que acontece? e, do ponto de vista amplo, quais são os efeitos para as pessoas, a economia e a sociedade?

tal discussão começou no episódio #1 onde falamos de como certos tipos de texto, os programas, criam o software por trás dos sistemas de informação, as simulações de mundo que começam a “controlar” o mundo de verdade ao nosso redor. no episódio #2 contamos uma história da informação, que começa em DNA e,  literalmente acaba em software. como DNA pode ser considerado um tipo de código, também, a história da informação começa e termina em software.

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já atingimos o ponto de chegada da conjectura. talvez nunca saibamos se ela vale para todas as civilizações, pelo menos para as que evoluem ao ponto de escrever software antes que seu ambiente as inviabilize. parece que não somos especiais, e o que fizemos e faremos deve ser comum aos que chegarem ao mesmo estágio. a conjectura, assuma, é verdade universal. já  que estamos falando de civilizações e que aqui só há uma [com variações, que devem se resolver nas próximas dezenas de milhares de anos], uma possível consequência para encontros entre civilizações distantes [tipo anos-luz] seria que os visitados [em seu planeta] não o seriam por seres “vivos” de um mundo distante, mas por plataformas programáveis como o curiosity rover, o jipe que a NASA mandou para marte. logo, perca a esperança de ver alienígenas, de qualquer cor, no seu quintal, descendo de um disco voador. porque, se nossa conjectura for verdadeira você vai se encontrar com software. pelo menos pra começar. e [mas…] pode ser que o software “deles” já esteja aqui…

agora, com o pé no chão: assim que começamos a escrever software, ele foi usado para processar texto; programas são um tipo de texto e escrever na linguagem “da máquina” não é econômico, para dizer o mínimo. alguns dos primeiros programas tinham como função traduzir programas em linguagens mais parecidas com as que usamos [como inglês e português], que têm níveis de abstração superiores aos “de máquina”, para linguagem de comandos executáveis pelas máquinas. pois o código executável pelos processadores não passa de sequências de zeros e uns. desde as primeiras tabelas, planilhas, arquivos… até chegar em emeio e a web, com áudio e vídeo no pacote, software trata texto. em 2011 foram 1.8 zettabyte tratados por software, sobre algum hardware [que foi usado como substrato programável].

depois de texto, o próximo e óbvio passo era aplicar sistemas digitais ao controle de ferramentas e dispositivos que já eram  regulados há tempos, como é o caso dos sistemas de realimentação gregos do séc. 3 AC. máquinas, relógios e sistemas de todos os tipos começaram a depender cada vez mais de software na [e a partir da]segunda guerra e as tecnologias de sistemas embarcados, combinação de software e hardware utilizada para resolver problemas no mundo físico são quase ubíquas hoje. sensores capturam sinais, software calcula o que deve ser feito em reação ou estímulo ao que está acontecendo e atuadores causam efeitos no ambiente. o ABS do seu carro é um tal sistema, o air bag idem. e todos os “controles” de todos os seus eletrodomésticos, da máquina de lavar roupas ao ar condicionado, também. no seu prédio, da bomba d’água ao elevador, passando pela porta da garagem, tudo é software. tente viver sem ele…

alan turing, criador do conceito de máquina universal, programável, dizia quea idéia por trás dos computadores digitais pode ser explicada dizendo que estas máquinas têm o propósito de realizar qualquer operação que possa ser feita por um computador humano. desde o princípio, pois, na década de 50, se defendia a tese de que computadores [hardware+software] imitariam humanos no que nos é mais precioso, funções cerebrais associadas a, por exemplo, cálculo matemático.  pode não parecer tão “humano” como a mona lisa ou brennand, mas, mesmo assim, é  uma ideia poderosa, que criou todo um campo da ciência, a inteligência artificial. o debate [ou embate] ao redor do termo rola há décadas, mas há sinais de que resultados significativos começam a aparecer.

e demorou muito tempo pra se descobrir o que havia por trás da vida, de sua complexidade e diversidade. watson e crick chegaram à estrutura do DNA quase 20 anos depois de turing estabelecer os princípios das máquinas universais. e só conseguimos sequenciar o genoma humano 50 anos depois, em parte graças ao software usado para automatizar as ferramentas de sequenciamento e, depois, no processamento de texto [DNA é texto!]. o processo não acabou… e a engenharia reversa, completa, do código da vida, levará décadas. é por isso que ainda vamos levar algum tempo para reescrever DNA a sério, manipulando funções críticas dos corpos que quisermos modificar, como os nossos.

reescrever o software dos humanos não vai rolar nos próximos poucos anos. e é o que dá a semântica do título da série: [ainda] não estamos prontos para reescrever humanos. mas já estamos reescrevendo, agora, o papel que exercem na economia e sociedade. estamos fazendo isso há tempos, processando texto e informatizando ferramentas. como estes dois [e cérebros e DNA] codificam informação, nada mais natural do que usar software para tratar do que eles fazem. daí, a sequência de uso de software na sociedade se escreve ao contrário do seu aparecimento…

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como “reescreveremos humanos”?… do ponto de vista de seu papel na sociedade? pode parecer complexo, mas não é. veja o exemplo a seguir.

agora que estamos quase no fim do ciclo de vida do carro urbano, talvez valha a pena lembrar dois momentos memoráveis da história do automóvel: al pacino, como colonel slade em perfume de mulher, pilotando [completamente cego] uma ferrari mondial t em nova iorque com o auxílio de charlie simms, vivido por chris o’donnell… a cena é inesquecível, especialmente a curva de 90 graus à esquerda [veja no link… bit.ly/3LLcKXQ].

compare, 20 anos depois [scent of a woman é de 1992], o google driverless car levando, sem piloto, steve mahan [cego, no lugar do motorista], pela cidade… [no link… bit.ly/3BOUlEL].

no segundo vídeo, fica clara a tese: google reescreveu o motorista. em 20 anos, o colonel slade entrará numa ferrari, sem charlie, e irá onde quiser. até pra taperoá, onde o carro do google street view já foi duas vezes. uma das razões, quero crer, é preparar o google driverless car para venda em todo mundo. afinal, como é  que eu vou até taperoá dormindo, de madrugada, se o sistema não conseguir chegar lá? será que ele vai parar à beira da estrada e esperar que eu acorde? de jeito nenhum.

a comparação entre os dois filmes, seus tempos, a história contada nos episódios, até aqui, e nossa conjectura, diz o que vai acontecer:  toda função humana para a qual 1. humanos não tenham vocação inata e/ou 2. haja perigo, para o humano que a exerce ou outros, que estão sob sua influência, e/ou 3. toda atividade que não faça uso de funções mentais superiores para ser exercida será reescrita em software. assim que for possível. ou seja, dentro das próximas décadas…

foi assim que digitador sumiu, como trabalho e profissão. é assim que o motorista vai desaparecer. junto com caixa de supermercado ou banco. e mineiro de carvão, assim como montador de equipamentos eletrônicos. viu a confusão que envolveu 2.000 empregados de uma fábrica da foxConn na china? nada menos de 5.000 policiais para controlar distúrbios numa fábrica de 79.000 empregados. sabendo do trabalho robotizado e desumanizante que fazem, nenhuma surpresa, talvez só que não aconteça mais vezes.

mas não é só o trabalho chapliniano, que será transformado em software.

o astronauta e o neurocirurgião também serão reescritos. os primeiros não fazem sentido. é mais econômico, seguro e simples… software explorar o cosmo, pois só precisamos sair daqui [e talvez, de vez…] quando soubermos para onde ir. no caso dos segundos, a precisão de qualquer um, por treinado e seguro que seja, é muito abaixo do que robôs podem fazer. é apenas questão de tempo para que muitos países comecem a proibir neurocirurgias não mediadas por robôs. ou software. e robôs já reescrevem as práticas cirúrgicas, ao ampliar competências, reduzir riscos e tempo de recuperação. e custos [mas não, ainda, preços].

um corolário imediato da conjectura deste texto é… se você só realiza, no seu trabalho, atividades simples e que não exigem, agora ou no curto prazo, grande esforço cerebral, tranquilize-se: você será reescrito em/por software. é só uma questão de tempo. tomara que seja antes da aposentadoria. eu não confiaria nisso… e começaria a correr atrás de oportunidades para aprender mais, acima do que software pode e vai fazer no ambiente de trabalho, no tal do curto prazo.

entre o presente e o futuro, claro que você pode escolher ser a favor ou contra o que vem por aí. não se esqueça de ler machado de assis: segundo ele, o futuro nunca se engana. e nunca falha. e, com ele, vem software. em todo lugar. até lá.

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Silvio Meira é cientista-chefe da TDS.company, professor extraordinário da CESAR.school e presidente do conselho do PortoDigital.org

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