Esta é uma série de textos curtos, de uns poucos parágrafos e alguns links, sobre o que pode acontecer, ou se tornar digno de nota, nos próximos meses e poucos anos. Como há uma tradição de, no fim do ano, pensar sobre as possibilidades do ano que vem, o título fala de… 23 anotações sobre 2023. Que é o que eu vou tentar escrever, uma por dia, a partir de hoje, até o 23/12/2022, no meio de trabalho, reuniões, Copa, festas das firmas, pizzas do fim do mundo, compromissos de família e tudo mais.

A escolha de temas não passsou por nenhum arcabouço particular de relevância ou pesquisa usando qualquer base de dados ou informação. São preferências pessoais, fatos e situações que chamam minha atenção aqui e ali. Nenhum dos textos deve ser tratado como recomendação para adquirir ou investir em nenhum processo, sistema ou tecnologia lá mencionada, se houver alguma. Muito pelo contrário, os textos são… pretextos pra conversas nas mesas de bar, concretas e abstratas, da vida. Vamos lá.

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Guerra. Eterna?

Parece que humanos sempre estiveram em guerra, uns contra os outros, desde sempre. É como se, depois de uma Segunda Guerra mundial, que matou estimados 3,5% da população do planeta à época [bit.ly/3ENyNKm; hoje, seria algo como 300 milhões de humanos], ninguém tivesse aprendido nada e continuado a carnificina, sabendo que, no fim, nas guerras, todos perdem.

Edgar Morin, que lutou na Resistência Francesa na Segunda Guerra, tem algo a dizer sobre o assunto [bit.ly/3wrEHux]: “O objetivo fundamental de uma educação realmente global, que aspira não só o progresso mas a sobrevivência da humanidade, é civilizar e unificar a terra e transformar a espécie humana em uma genuína humanidade”. Em síntese, enquanto não formos uma “genuína humanidade”, continuaremos a nos destruir uns aos outros. E é quase certo que se tornar uma verdadeira humanidade só seja possível através de uma educação também, verdadeiramente, global.

As guerras, aqui e ali em quase todo canto, foram e são ininterruptas, ou quase, há tempos. Quase todas, entre as mais recentes, eram conflitos em que as grandes potências, inclusive as nucleares, estavam envolvidas de uma ou outra forma, mas não uma ou outra contra alguma outra ou outras. Mas uma guerra, agora, mudou o cenário global, criando uma insegurança geopolítica que ameaça não só o status quo de quase-paz ou quase-guerra que tínhamos mais ou menos nos acostumado a aceitar. E esta pode ser uma “guerra eterna”, o tipo de conflito onde quem começou não consegue ganhar, mas também não pode perder.

Ao invadir a Ucrânia, a ditadura russa criou um problema para si própria, primeiro, e depois para o mundo. No começo do conflito, ouvi muitos comentaristas [que não faziam a menor ideia do estado de ruína estrutural e desmoralização coletiva das forças armadas de Putin] darem a vitória “de graça” e “em dias, semanas no máximo” para o imperialismo de Moscow. Essa equação dos “experts” de mesa de bar e grupos de zap levava em conta o “hardware” do invasor, monumental no papel, mas esquecia do “software” dos dois lados [bit.ly/3Y6wb30, bit.ly/3FHBAq4, bit.ly/3iSI1O6, bit.ly/3UN1HQW, brook.gs/3FI4OVK, bit.ly/3YfNvTq]: a qualidade da liderança, sua capacidade de tomada de decisões e governança da execução, o moral e motivação das tropas e engajamento da sociedade. Em suma, muitos não levaram em conta os ucranianos e o apoio que vieram a ter do ocidente, em especial dos países da Europa, que ainda têm viva, dura e letal lembrança da presença soviética em seu território depois da Segunda Guerra.

Putin começou uma guerra que, se a Ucânia não pode ganhar -não porque não queira-, a Rússia não pode perder, porque isso pode ser o fim do regime de Moscow, da “federação” russa e do próprio Putin. Que já não parece tão forte, hoje, como parecia ser há dez anos ou mesmo há dez meses, quando deu o passo em falso que muito provavelmente selou seu destino para muito pior. Regimes autoritários e ditaduras parecem inabaláveis e capazes de sufocar pressão infinita sobre seu topo e bases, até que… colapsam de repente. Já aconteceu mais de uma vez. Em Moscow, por sinal.

Por ordens superiores, a simulação de parlamento em Moscow mudou a constituição do lugar e lá inscreveu, como partes “eternas” e indivisíveis da Rússia, áreas invadidas da Ucrânia que… já foram retomadas pela… Ucrânia. O que torna as fronteiras da própria Rússia parte da imaginação de Putin [bit.ly/3FjXIH6]. Vai ver, qualquer hora, ele manda escrever por lá que Fernando de Noronha é território de seu uso particular. Nunca. Mas lá, muito mais perto, quem foi outrora incluído nas “fronteiras” está olhando de perto a situação na Ucrânia e pensando… que talvez fosse uma boa ideia, ótima, aliás, se livrar do jugo de quem mais espolia do que protege, mais limita do que habilita.

É quase certo que a invasão da Ucrânia não vai acabar em 2023. É ainda mais certo que continuará tendo impacto muito além da região imediata da guerra. É certo que mexeu com cadeias de valor globais e isso afetou, afeta e afetará da agricultura e indústria ao movimento de pessoas entre fronteiras, sistemas educacionais, investimento em quase tudo e principalmente em defesa. É absolutamente certo que deu uma nova razão de viver à OTAN, que de repente enfrenta, por trás dos panos, seu velho inimigo da Guerra Fria. Infelizmente, também parece certo que a invasão da Ucrânia é só mais um passo -de muitos- a nos distanciar do caminho da transformação de bandos de seres humanos em uma verdadeira humanidade. Cabe-nos lutar para que a guerra não seja eterna, agir contra o distanciamento e encontrar não só razões para viver, mas para lutar por um mundo não só mais humano para cada um, mas por uma humanidade que inclua todos.