por Silvio Meira

a internet das coisas, 2: everyware

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aqui no c.e.s.a.r a gente tem um ditado sobre idéias, propostas e soluções: sempre que você está pensando em alguma coisa inovadora, um monte de gente, mundo afora, está pensando na mesma coisa. a experiência do c.e.s.a.r mostra que esta máxima vale pra quase tudo, de nomes de domínio a complexas arquiteturas de software.

estamos no mesmo mundo, ele está cada vez mais conectado, cada vez mais gente tem acesso aos mesmos dados, informação e conhecimento. e o resultado é que quase todos acabamos vivendo dentro do mesmo contexto, observando os mesmos problemas e oportunidades e, por conseguinte, usando o mesmo repertório de idéias, designs, projetos e soluções. todo “mundo” [de pelo menos uma certa parte do mundo todo] detém, ao mesmo tempo, boa parte dos meios -os mesmos “meios”- para realizar o que quiser.

o que nos torna diferentes? v-e-l-o-c-i-d-a-d-e. com todo mundo “sabendo” de tudo e de tudo o que é preciso fazer, ao mesmo tempo, e de posse dos meios para tal, o único diferencial é a velocidade com que se faz. ou se tenta propor ou fazer. isso vai acabar sendo assunto deste blog quando voltarmos aos temas de criatividade, inovação e empreendedorismo. mas hoje, sendo a conversa sobre everyware, porque começamos desta forma?

porque um certo conjunto de idéias-força que sustenta a internet das coisas como é pensada, desenhada e marqueteada hoje nasceu ao mesmo tempo, ao redor do fim de 2005 e começo de 2006. dias depois de bruce sterling publicar shaping things, em setembro de 2005, peter morville saía com ambient findability; digital ground, de malcom mccullough, saiu em outubro e, pra encerrar uma curta bibliografia de idéias sobre a rede das coisas, adam greenfield publicava everyware em março de 2006.

image no subtítulo, the dawning age of ubiquitous computing, greenfield, head of design da nokia, diz o que vê: uma era onde todos os objetos são capazes de capturar, receber, transmitir, armazenar, processar e mostrar informação e, se for o caso, agir [em contexto] em função da informação que detêm e sua capacidade de processá-la. por todos os objetos entenda todos os objetos: de latas de sardinha a botões de camisa, da camisa ao carro, do pneu ao sinal de trânsito, ao sapato do pedestre… em suma, tudo.

everyware é um manifesto em forma de teses, 81 delas; e a número 81 declara que as oitenta teses anteriores são necessárias mas não suficientes; e não são o fim, mas o princípio desta história. correndo o risco de errar por muito, vou resumir a cinco pontos “operacionais” as primeiras oitenta teses de greenfield, pois isso vai nos ajudar a fundir o que estamos discutindo neste texto com o que foi apresentado no anterior, onde discutimos a idéia de spimes.

olhando de longe e sem tratar diretamente o que everyware é ou faz, everyware é… 1. sem fio; 2. embarcado; 3. imperceptível; 4.múltiplo e 5. “invisível”. explico: para estar em tudo e em todo lugar, everyware não pode ter fio, deve poder ser embutido na “coisa”, passando a fazer parte “dela”, tem que ser imperceptível, de modo a não modificar a coisa à qual adiciona capacidades computacionais, de computação e de controle, deve existir em quantidade [potencialmente massiva], pois estamos falando de elementos informacionais que possam ser [eventualmente] inseridos e descartados no ambiente e, finalmente, nada de interface tipo WIMP ou “touch” ou o que parecido for: everyware tem que funcionar de forma transparente.

quando fala everyware estar em tudo e em todo lugar, greenfield chega bem perto dos conceitos essenciais de computação ubíqua e quer dizer, de fato, em todos os lugares e em todas as coisas. ainda por cima, nós poderíamos adicionar um “o tempo todo”. a consequência disso? tal ubiquidade de computação, comunicação e controle, em que há sensores e atuadores em todo canto, criaria um campo informacional no planeta. claro que isso tem a ver com computação ubíqua na concepção original de mark weiser e, mais recentemente, com a visão que temos de realidade aumentada, especialmente de sua evolução nos próximos 10, 20 anos.

segundo o próprio greenfield, everyware é informática dissolvida em comportamento, ou no ambiente, ou nos objetos. isso não significa que uma banana vai ser um computador, muito pelo contrário; mas que haverá capacidades informacionais, ou seja, de computação, comunicação e controle, associadas a bananas. por que? por que seria muito legal se você pudesse questionar uma banana num supermercado e perguntar… quem é você? ainda mais porque, em função disso, a banana provavelmente contaria toda sua história… como vamos ver no nosso próximo texto sobre este assunto, ligando spimes e everyware.

até lá, e pensando em bananas, digamos, informatizadas, reflita sobre a tese 16 do livro de greenfield: nós nos relacionaremos com everyware sem advertência, sem sabermos [que estamos nos relacionando com ele] e, vez por outra, mesmo que não queiramos… será que isso quer dizer que bananas informatizadas vão “querer” conversar conosco no supermercado? de certa forma, sim.

você não perde por esperar o próximo texto… e, enquanto isso, pode clicar na imagem abaixo para vê-la [maior] em contexto numa discussão sobre um tipo particular de everyware chamado smart dust ou poeira inteligente.

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Sobre o autor

Silvio Meira

silvio meira é cientista-chefe da TDS.company, professor extraordinário da CESAR.school e presidente do conselho do portodigital.org

por Silvio Meira
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Pela Rede

silvio meira é PROFESSOR EXTRAORDINÁRIO da cesar.school, PROFESSOR EMÉRITO do CENTRO DE INFORMÁTICA da UFPE, RECIFE e CIENTISTA-CHEFE, The Digital Strategy Company. é fundador e presidente do conselho de administração do PORTO DIGITAL. silvio é professor titular aposentado do centro de informática da ufpe, fundou [em 1996] e foi cientista-chefe do C.E.S.A.R, centro de estudos e sistemas avançados do recife até 2014. foi fellow e faculty associate do berkman center, harvard university, de 2012 a 2015 e professor associado da escola de direito da FGV-RIO, de 2014 a 2017.

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