por Silvio Meira

a internet das máquinas… de café?

a

qualcomm e att acabam de anunciar que, juntas, vão tornar a “internet de tudo” [ou IoE, internet of everything] muito mais fácil para desenvolvedores e usuários. a IoE já foi IoT [a internet of things] e é constantemente tratada como o espaço de transações M2M [ou machine to machine, entre máquinas]. e anúncios como o da qualcomm e att não são novidade; uma miríade de empresas, da intel a google, da motorola a samsung, passando por nokia, microsoft, cisco… e quem mais você quiser já anunciou algo nesta direção.

até, imagine, a nestlé: tá vendo a supercafeteira nespresso AGUILA abaixo? ela tem um sistema de supervisão e controle embutido [termo técnico? “embarcado”] na máquina, conectado a um módulo de comunicação que pode [o usuário tem que autorizar] manter a fábrica informada das condições da máquina, para garantir os padrões de serviço e, eventualmente, solicitar manutenção preventiva e corretiva sem intervenção do operador. o sistema de supervisão local informa temperatura e pressão de operação, vibrações, qualidade da energia sendo usada e o que mais a nestlé resolver programar no “sistema operacional” da cafeteira. e pode, também, pedir mais cápsulas de café, claro, senão o quentinho não rola.

Capture

e isso tinha que funcionar por uma rede em que nada tivesse que ser configurado pelo operador da máquina. nada de firewalls, filtros, qualquer outra coisa. hoje, tinha que ser a rede celular. cada AGUILA tem seu próprio SIM [nosso “chip”] e funciona onde houver cobertura celular. o que pode ser um problema em muitas partes do brasil [por exemplo], mas isso é outro problema.

aliás, máquinas como AGUILA dependem de alguns detalhes para funcionar. água e café a gente até ainda tem, no brasil. eletricidade, tínhamos; como é preciso ter planejamento pra continuar tendo e isso é coisa de longo prazo… estamos com uns problemas aqui e ali e em quase todo lugar. e tem a internet, móvel: cada um sabe o que é, mesmo quando tem e aqui se parece com os modems de 9.600bps lá do começo da internet discada.

falando nisso, aliás, republico abaixo um texto que escrevi para o mundo virtual da agência estado em maio de 1999, tratando exatamente da IoE [sem tal nome, claro…], mencionando tecnologias que hoje estão na cafeteira e do anúncio da att e qualcomm, como java. outra, jini, virou um projeto da apache.org [e não foi muito longe]. leia o texto e imagine, daqui a 15 anos [que é mais ou menos a idade do material abaixo…] o que será a internet das coisas. será que sua lente de contato já vai estar lá? quer saber meu chute? só depende de energia e capacidade de tirar calor da sua córnea. enquanto isso, vá usando seus online glasses

As geladeiras vão acabar na Internet

Por Silvio Lemos Meira, para a Agência Estado, em maio de 1999.

Apesar dos problemas de curto prazo que a Internet tem, particularmente no Brasil, resta pouca dúvida que, em breve, tudo vai estar na rede. Quando digo tudo, quero dizer tudo mesmo e não só todos: além de gente usando computadores, vamos ter -obviamente- rádios e TVs; mas também telefones fixos e celulares, carros, casas, aparelhos de ar-condicionado e, certamente, geladeiras. Uma rede única de redes de todas as coisas.

A tecnologia vai tornar isso possível está começando a aparecer, como Java e Jini. Java possibilita que programas se "movam" dos servidores para seu micro, em casa, de forma transparente, sem precisar de sua intervenção para "ir atrás" do programa. Jini é um ambiente que faz com que dispositivos (como sua nova impressora) não precisem de software adicional para se conectar com outros dispositivos, já existentes na sua configuração.

A informática vai acabar se trivializando ao ponto de podermos comprar PCs e scanners em qualquer barraca de feira. Mas a esta facilidade tem que corresponder uma simplificação gigantesca dos processos associados a, por exemplo, instalar uma nova placa de vídeo na sua máquina. Às vezes, é melhor nem tentar, tal a complexidade e primitivismo do processo. Jini é sobre isso: dispositivos que "rodam" Jini "sabem" achar seus programas de suporte (drivers, em inglês) e estabelecer conexões com o ambiente que os cerca. Você liga e pronto. Tomara que funcione mesmo.

Se e quando funcionar em larga escala, a geladeira de Dona Zuila vai se ligar à Internet. Como, e pra quê? Primeiro, assuma que as casas vão ter redes internas baseadas na fiação elétrica, como está sendo instalado na Inglaterra, por exemplo. Fazer a rede de comunicação usar a rede elétrica economiza fio e simplifica muito a história: para ligar a geladeira na rede, é só ligá-la na tomada. Como cada casa vai acabar tendo um endereço eletrônico, a geladeira de Dona Zuila, ao ser ligada na tomada, "entra" na rede e, a seguir, em contato com seu fabricante, dizendo quem é (seu endereço eletrônico!) e onde está (o endereço eletrônico da casa de Dona Zuila…).

Depois deste pequeno diálogo inicial, a geladeira poderá responder perguntas sobre a temperatura (sua e do local onde está instalada), sobre a qualidade da energia elétrica que a está alimentando e, digamos, sobre o funcionamento do seu compressor, passando ao fabricante dados vitais como temperatura e pressão do gás refrigerante que, vamos esperar, será livre de CFC, aquele que destrói a camada de ozônio.

Para a geladeira fazer isso é bom que Dona Zuila não tenha que deixar de lado suas preocupações de mãe para ter que instalar um "driver" ou procurar versões que seriam compatíveis com a revisão 5.03.187a do sistema operacional de sua casa. Se for assim, nunca vai funcionar. Aliás, a casa não deve ter um sistema operacional: ela deve funcionar na base do "é só ligar que eu estou funcionando". Uma casa Jini, inteligente.

Se a geladeira, ou qualquer outro eletrodoméstico, conseguir fazer o milagre de falar com a sua fábrica ou assistência técnica sem que tenhamos que intervir, os micros instalados na dita e a fábrica poderão tratar de tudo o que estiver associado à sua manutenção. A geladeira poderá, no caso de detecção, pelos seus sensores,  de possibilidade de pane no compressor, solicitar a presença de um técnico, que já viria com boa parte do diagnóstico pronto e, óbvio, com as peças de reposição.

Mas ele (o técnico) não ia simplesmente chegar assim sem mais nem menos na casa de Dona Zuila: antes disso, ela ia receber, por email, telefone ou o meio de comunicação que escolhesse, o aviso de que há algo errado na sua geladeira e que alguém está a caminho para consertá-la, dependendo de sua autorização. Mas isso é parte da história: imagine as possibilidades da sua geladeira vir a fazer compras por você, diretamente nos supermercados, usando agentes inteligentes para descobrir os melhores produtos e os menores preços… E vamos ver isso acontecer, estou certo.

Parece fácil, não? Mas vai ser muito difícil fazer se a informática não conseguir simplificar, radicalmente, os métodos e técnicas hoje usados para ligar coisas quaisquer e fazer com que elas se comuniquem. Java e Jini são somente o começo da solução.

Sobre o autor

Silvio Meira

silvio meira é cientista-chefe da TDS.company, professor extraordinário da CESAR.school e presidente do conselho do portodigital.org

por Silvio Meira
por Silvio Meira

Pela Rede

silvio meira é PROFESSOR EXTRAORDINÁRIO da cesar.school, PROFESSOR EMÉRITO do CENTRO DE INFORMÁTICA da UFPE, RECIFE e CIENTISTA-CHEFE, The Digital Strategy Company. é fundador e presidente do conselho de administração do PORTO DIGITAL. silvio é professor titular aposentado do centro de informática da ufpe, fundou [em 1996] e foi cientista-chefe do C.E.S.A.R, centro de estudos e sistemas avançados do recife até 2014. foi fellow e faculty associate do berkman center, harvard university, de 2012 a 2015 e professor associado da escola de direito da FGV-RIO, de 2014 a 2017.

Silvio no Twitter

Arquivo