por Silvio Meira

a justiça e os limites para novos modelos de negócios

a

a justiça francesa condenou google a pagar danos de €500,000 à bottin carto, que está no negócio de mapas, mais uma uma multa de €15,000 por práticas anticompetitivas. o cerne da questão é que a bottin vende mapas e google "dá" mapas. pelo menos segundo o advogado da empresa francesa e o juiz que lhe deu ganho de causa, interpretando o tratado de funcionamento da união européia e atacando google [maps] direto no modelo de negócios.

curioso é que estudos sobre inovação mostram [há tempos] que o modelo de negócios é locus importante de inovação e fonte crucial de criação de valor. novas tecnologias, se não tocam nos modelos de negócios, mudam o cenário em muito menor escala do que quando reescrevem parte do mercado.

google, claro, não "dá" nada a ninguém. tudo lá é pago, a empresa não é uma casa de caridade, tem acionistas e lhes deve rendas. o modelo de negócio da maioria dos serviços de google é capturar a atenção dos usuários e usá-la para fazer com que terceiros, que têm um ou mais interesses em nossos comportamentos, paguem a conta. simples assim. google [e faceBook, twitter…] tem um modelo de negócio multifacetado, onde quem está usando um serviço nem sempre está pagando por ele. ou sempre está: em  quase todos os serviços de google, com informação. e há limites: se você "pedir" mais de 25.000 mapas por dia, a companhia já avisou que vai cobrar por uso, e de você.

bottin vende mapas. de certa forma, como google. só que não tem a opção grátis. não tenta vender anúncios a terceiros para fornecer, de graça, mapas a ninguém. talvez por causa disso, eu e você nunca tenhamos ouvido falar deles. o modelo de negócios associado a "mapas" está em evolução há uns 8.000 anos. o mais antigo ainda legível é um mapa-mundi centrado na babilônia, datado do séc. VI AC. na antiguidade, a posse de mapas era poder, que obviamente não se vendia. você já viu isso em tantos filmes que nem dá pra contar. como todos sabem, mapas eram impressos em papel. imagine o efeito que a internet teve nos negócios de todos que viviam disso. eu mesmo não ponho os olhos num guia de estradas impresso há anos. pela ótica da bottin, a internet não deveria ter sido permitida… pelo menos sem que, antes, se indenizasse as casas de cartografia, como as que fizeram a tabula peutingeriana abaixo, único mapa que restou dos cursus publicus do império romano.

image

se todas as inovações que rompem com modelos de negócio do passado [ou seja, quase todas de grande impacto] tivessem que indenizar o tal "passado" e seus donos, teria havido haveria dinheiro e energia suficientes, no planeta, pra ter saído da idade da pedra?

faça sua lista pessoal, do fogo e primeiras ferramentas pra cá, e pense o que haveria de novo se cada inovação tivesse que acertar as contas com o passado, qual quer a justiça francesa neste caso.

em terra pátria, tramitou durante 11 anos na câmara o projeto de lei 4502 do então deputado aldo rebelo, que tinha por fim "proibir a adoção, pelos órgãos públicos, de inovação tecnológica poupadora de mão-de-obra". ainda bem que foi detonado numa comissão. tivesse sido aprovado à época do correio a cavalo… até hoje não haveria sedex. nem correio aéreo. internet, então, nem pensar. e ninguém poderia teclar [ou tocar] seus próprios textos, estaríamos à mercê de um exército de esteno-datilógrafas para tal.

pense: fosse você juiz lá na frança, remuneraria a bottin pela "incompetência competitiva" ou os mandaria plantar batatas, talvez usando google maps? google, aliás, vai recorrer da sentença. e tomara que ganhe. se perder, é capaz de explicar de vez porque não vemos muita coisa inovadora vinda da europa: ao invés de criar o ambiente [inclusive legal] para construir o futuro, cada vez mais se reforça as muralhas que tentam, o tempo todo proteger um passado que não dá mais conta do presente.

image

Sobre o autor

Silvio Meira

silvio meira é cientista-chefe da TDS.company, professor extraordinário da CESAR.school e presidente do conselho do portodigital.org

por Silvio Meira
por Silvio Meira

Pela Rede

silvio meira é PROFESSOR EXTRAORDINÁRIO da cesar.school, PROFESSOR EMÉRITO do CENTRO DE INFORMÁTICA da UFPE, RECIFE e CIENTISTA-CHEFE, The Digital Strategy Company. é fundador e presidente do conselho de administração do PORTO DIGITAL. silvio é professor titular aposentado do centro de informática da ufpe, fundou [em 1996] e foi cientista-chefe do C.E.S.A.R, centro de estudos e sistemas avançados do recife até 2014. foi fellow e faculty associate do berkman center, harvard university, de 2012 a 2015 e professor associado da escola de direito da FGV-RIO, de 2014 a 2017.

Silvio no Twitter

Arquivo