por Silvio Meira

APRENDER EM VELOCIDADE DE CRISE

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TODOS OS NEGÓCIOS estiveram sob gigantesca pressão para fazer DUAS COISAS nas últimas semanas, quando cinco décadas de um processo de transformação digital que vinha, para muitos, se desenrolando de forma lenta e gradual, de repente se transformou num APOCALIPSE DIGITAL: a primeira, aprender em velocidade de crise, com meses transformados em semanas e estas, em dias ou horas; a segunda, aprender e, ao mesmo tempo, escalar, criando e agregando valor a comunidades que antes não existiam ou eram uma fração do seu tamanho de crise.

A demanda por aprendizado, especialmente sobre e para tudo o que é digital e suas aplicações e usos, cresceu ordens de magnitude, em volume e velocidade. Por uma razão muito simples: sobrevivência. Como todos podem imaginar, há diferenças fundamentais entre estudar e aprender. Digamos, por alto, que estudar nos ajuda a responder questões e aprender nos prepara para resolver problemas. As primeiras, no universo abstrato das teorias; os segundos, no ambiente imediato e prático da realidade.

Nos últimos sessenta e tantos dias a realidade mudou radicalmente em muitos mercados, com a presença física dos negócios desaparecendo, às vezes completamente, em função da quarentena. Havia quem estivesse preparado para “trabalhar de casa”, o que não é a mesma coisa que “home office”, porque a vida toda das pessoas -inclusive filhos, quando foi o caso, se mudou com elas, pra casa. Mas no caso de muitos negócios, o ambiente de trabalho, mesmo que fosse de informação, dependia de infraestuturas físicas que não podiam sair do escritório. No caso de muitos outros, como no varejo, não havia presença virtual, pura e simplesmente, e tudo teve que ser construído em dias, semanas, no máximo.

E isso levou os líderes de muitos negócios a descobrir pelo menos duas coisas que talvez não sejam necessárias em tempos de bonança e estabilidade: primeiro, que a mudança rápida -inclusive para um modo digital de operação- é muito mais possível do que a vasta maioria pensava; segundo, que o domínio do ciclo de vida de dados -mesmo em operações analógicas- é a chave para mitigar e gerenciar mudanças rápidas, digitais ou não. De novo, questão de sobrevivência. E se deu ainda melhor quem era -de verdade- resiliente, essa palavra que tantos pronunciam e tão poucos sabem o que verdadeiramente significa. Porque resiliência vem da cultura, arquitetura, métodos e processos do negócio, e não de sua tecnologia e planos de contingência. Afinal de contas, quem tinha um plano, pronto, para as consequências de algo tão poderoso como COVID-19?

Muito já se disse sobre os efeitos dessa pandemia e um certo novo normal que ela deverá provocar. Mas não será um único normal; serão muitos, e por muito tempo. Mercados inteiros desaparecerão, levando consigo as empresas, hábitos e consumo que lá estavam. Não é novidade, aconteceu muitas vezes na história, acontecerá agora. Outros mercados ficarão iguais, uns devem crescer de forma explosiva, alguns nem tanto. E novos mercados serão criados, sem dúvida. Quais? Quem disser que tem certeza deve ter acabado de chegar do futuro. Quem quiser saber mesmo… tem que ir até lá.

O futuro vem do futuro. Às vezes, lentamente. O primeiro ecommerce é de 1994. Isso mesmo, mais de 25 anos. E tem gente que só agora descobriu que é vital, e aprendeu de uma hora pra outra que precisava de um “site”, o que é um “lead”, como fazer “SEO”… agora. Deram sorte, iriam desaparecer sem notar. Talvez demorem a ter uma plataforma de negócios digitais como parte de um ecossistema em rede… se chegarem lá. Mas o milagre operado pelo apocalipse digital já é mágico: nunca tantos aprenderam tanto em tão pouco tempo sobre um novo sistema operacional para negócios -no modo digital- que já estava aí há tanto tempo.

Um aprendizado essencial, em tempos de crise, deve considerar as empresas que atravessaram muitas delas. A história das organizações mais resilientes do mundo corporativo ensina que elas sobreviveram a transições como COVID-19 investindo em talentos, pesquisa, desenvolvimento e inovação e criando e evoluindo relacionamentos e redes de valor de alta confiabilidade. Além de lideranças coerentes que tratem todas as pessoas, no negócio, como líderes, inclusive de si mesmos. É isso que se aprendeu em crises como essa, no passado.

Sobre o autor

Silvio Meira

silvio meira é cientista-chefe da TDS.company, professor extraordinário da CESAR.school e presidente do conselho do portodigital.org

2 comentário

  • Prof. Silvio,
    Parabéns pelo Artigo. Nele o Sr. mostra a dura realidade e o quanto estamos atrasados na transformação digital.
    Se o setor privado sofreu com esse Apocalipse Digital, como o Sr. mesmo disse, imagina o setor público.
    Estamos apenas engatinhando nessa jornada. Cabe ressaltar que o SEI ( sistema Eletrônico de Informações) que foi desenvolvido pelo Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF4), apesar de todos os problemas, salvou a Administração Pública Federal de um apagão processual.

    Concordo plenamente quando o Sr. diz: que toda crise trás aprendizado, e que as organizações mais resilientes, nunca mais voltaram ao patamar que estavam antes COVID. E se me permite completo, sejam elas públicas ou privadas.

  • Retomo um passado não tão longo, quando em 1995 meu pai perdeu o seu emprego para si mesmo ao negar se capacitar em computação gráfica (ele era o Chefe do Setor de cartazes de uma gramde rede de hipermercados). Ali, meio a crise, vi na insatisfação de meu pai, uma oportunidade, e busquei de tudo para saber que tal computação gráfica era essa. Conhecendo e significando, ali com meus 15 anos de idade, o que era ser autodidata que fui conhecendo os programas que mais a frente significaram muito para mim. Foi quando entrei na universidade em 2002 e na nossa calourada fomos recebidos pelos veteranos com algumas frases de impacto e estímulo ( se puder, desista deste curso. professor licenciado em educação artística ganha R$ 4,50 hora/aula etc). Me vi de frente para o caos e sabia que ali haviam oportunidades, foi quando comecei a me envolver cada vez mais com a tecnologia, li PIERRE LEVY, DIANA DOMINGUES, MICHEL MAFESOLLI, LUCIA GOUVEIA PIMENTEL, RESIGNIFICAÇÃO DE DUCHAMP, entre tantos outros. Para a minha não surpresa eu envolvia a tecnologia em absolutamente todas as unidades curriculares da universidade e assim fui remodelando minha formação. De imediato eu já estava ensinando computação gráfica para os colegas que visionavam uma educação intermediada pela tecnologia e já não fazia mais sentido o valor hora que há menos de um ano eu fui informado pelos veteranos da universidade. Feliz como quem descobre que estaá no caminho, iniciei cobrando R$ hora aula por aluno e não por turma e assim foi crescendo a autoridade e o valor da hora aula. Há um ano e 10 dias, decidi mudar minha missão como educador, quando estive em um evento de marketing, empreendedorismo e alí presenciei quase 5.000 pessoas tratando de INFOPRODUTOS em educação e todos rumo a monetizar com seus produtos de auto valor e impacto na vida das pessoas. Foi aí que me demiti de meu chefe em fevereiro deste ano para me dedicar a impulsionar especialistas que não são professores e que ganham autoridade e notoriedade com as suas entregas e a grande maioria 100% online. Aqui estou, perte desse ecosistema, me reinventando e deixando que a natureza e a fé creditem minhas perspectivas de mundos rápidos, humanos, amorosos, skills e de alta potência.
    Um forte abraço do Prof. Tdeu Silva @prof.tadeusilva

por Silvio Meira

Pela Rede

silvio meira é PROFESSOR EXTRAORDINÁRIO da cesar.school, PROFESSOR EMÉRITO do CENTRO DE INFORMÁTICA da UFPE, RECIFE e CIENTISTA-CHEFE, The Digital Strategy Company. é fundador e presidente do conselho de administração do PORTO DIGITAL. silvio é professor titular aposentado do centro de informática da ufpe, fundou [em 1996] e foi cientista-chefe do C.E.S.A.R, centro de estudos e sistemas avançados do recife até 2014. foi fellow e faculty associate do berkman center, harvard university, de 2012 a 2015 e professor associado da escola de direito da FGV-RIO, de 2014 a 2017.

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