Estudos ainda limitados[1] sobre política e sociedade mostram que a cisão entre centro [ou equilíbrio] e anarquia [ou caos] é tão relevante quanto a divisão entre esquerda e direita. Mais gente é contra o status quo do que se pensa. E não é contra o status quo estreito, que nos é aparente agora, mas contra o largo, que envolve tudo; há gente, e muita, contra tudo. Contra a normalidade e a favor do caos. Como se a destruição das estruturas sociais fosse a base para uma recriação onde os descontentes de agora se darão bem melhor amanhã, “depois” do caos.

Como se fosse possível criar, controlar o caos e dele tirar proveito, garantidamente, a seu favor e no seu tempo. Estudassem história, perceberiam que tal nunca aconteceu. O caos, em todas suas versões e lugares onde se instalou, só piorou tudo, na quase totalidade das vezes muito, e por muito tempo. Estudassem estratégia, descobririam que nunca foi por falta de capacidade de transformar aspirações [de destruir para recriar] em capacidades [de criar a destruição].

No caos, a entropia social cresce a ponto de tornar tudo muito mais complicado do que em qualquer estágio desejado pelos seus arautos. Tamanha é a energia para retomar alguma normalidade que há o risco de nunca mais haver nada que se pareça com algum normal, muito menos o desejado pelos semeadores de tempestades. Ou pode levar tanto tempo… que parecerá nunca. Bem do lado, temos a Venezuela; e longe, a Síria e Líbia a servir de exemplo.

Há mais de 100 anos, os promotores do caos se articulavam em declarações como o Manifesto Futurista de 1909[2], pregando um futuro a qualquer custo e -imagine- a guerra como higiene do mundo. Era quase inevitável que, estando na Itália, terminassem nos braços do fascismo. Deu no que deu, como sabemos. Um século depois, há risco similar, com o fascismo renascendo no mundo -e tomando ares de força política no Brasil- ao mesmo tempo que gigantescos negócios de tecnologia aceleram os processos e fluxos de informação, transformando o planeta num ponto, em tempo quase real[3]?

Se a temperatura for o comportamento dos negócios de redes sociais no regime Trump, o perigo é iminente: o protoditador só foi silenciado quando já havia um golpe em andamento. A crédito das redes, diga-se que foram elas e seus termos de uso que jogaram água digital no que já tinha se tornado a fervura analógica das provocações golpistas. As instituições estavam serenas, como se tudo fosse só um passeio na praia. Uma das incongruências da democracia é proteger a expressão -física e digital- dos que lutam pelo fim das liberdades democráticas.

No passado, os limites físicos de distribuição de informação restringiam o alcance e sincronia necessários para mobilização de grandes grupos ou populações inteiras. No presente as redes digitais mudaram a escala, no espaço-tempo, do que é possível fazer dispendendo muito menos energia. Redes são orquestrações emergentes de agentes que compartilham informação e ação usando protocolos padrão, articulados e autorizados por [escolhas de] pessoas e algoritmos. Nos últimos 25 anos, pessoas e empresas aprenderam a usar redes sociais para criar currais algorítmicos para onde, qual gado, tangem outras pessoas.

Manipular grupos a favor ou contra os interesses mais diversos se tornou muito mais rápido e, para quem sabe, muito mais fácil. E as pessoas ajudam: segundo The State of Misinformation 2021[4], nove em cada dez pessoas dizem que detectariam notícias falsas quando as vissem, mas um terço já compartilhou informações incorretas.

Para muitos, é impossível reverter tal estado de coisas. Mas não. Há mudanças de curto e de médio prazo que devem ser experimentadas em múltiplas facetas da sociedade e da economia. Há que se tratar as plataformas: segundo pesquisa de Facebook [em 2016[5]], seus sistemas de recomendação respondiam por 64% das inclusões de novos membros em grupos extremistas. E nada foi feito para mudar tal situação, porque era “bom” para o modelo de negócios.

Algo deveria ter sido feito. O sistema regulatório deveria ter evoluído, ou estar evoluindo, tão rápido quanto as plataformas digitais, para entender as mudanças dramáticas que elas estão causando. Ainda é tempo, e autorregulação não parece ser suficiente, dados todos os outros interesses, especialmente de acionistas irresponsáveis.

É preciso tratar outros fronts, como educação. Os dados mostram que idosos espalham até sete vezes mais fakenews do que jovens. Imaginava-se que tal comportamento resultava de declínio cognitivo e da solidão. Mas um estudo[6] mostra que relações interpessoais [efeitos de grupos e de pertencimento, em rede] e analfabetismo digital são parte das causas. Educação resolveria muito, evitando que jovens se tornassem idosos analfabetos e alfabetizando os idosos.

Não só é possível, mas necessário, agir sobre as causas-base que levam tantos para currais algorítmicos de onde é tão difícil sair ileso. Educação e regulação têm papéis muito relevantes, por tudo o que dizem as últimas pesquisas. Mas há que se frear um certo capitalismo digital predador e selvagem de muitas plataformas, que habilita e incentiva comportamentos em rede que a história já nos diz onde leva… e nos leva juntos.

Ou isso ou futuros habilitados por tecnologias podem ser tão ou mais complicados do que o dos futuristas de 1909. E nós, nos currais, não teremos mais como reagir. Até porque parte da agenda do futurismo -como se pode notar abaixo- está em franco andamento  por aqui, como se pode notar  comparando um pequeno trecho do manifesto às notícias correntes na mídia nacional.

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Uma versão editada deste texto foi publicada no ESTADÃO em 07/04/21.

[1] Populism is growing because more people than you think want chaos, RSA, SET/2019: https://bit.ly/3m18x5i.

[2] Fondazione e Manifesto del futurismo, F. T. Marinetti, FIGARO, FEV/1909: http://bit.ly/2DpagMG.

[3] When Futurism Led to Fascism—and Why It Could Happen Again, R. Eleveth, OUT/2019: http://bit.ly/2DpgZ9q.

[4] The State of Misinformation 2021, The Trusted Web, 2021: https://bit.ly/2R2MLCO.

[5] Platforms Must Pay for Their Role in the Insurrection, WIRED, JAN/2021, https://bit.ly/2XmRW0q.

[6] Older users share more misinformation…. MIT Tech. Rev., MAI/2020: https://bit.ly/2XYw4rY