por Silvio Meira

banda larga: austrália 10×0 brasil

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a área da austrália é da ordem de grandeza do espaço ocupado pelo brasil, aí pelos oito milhões de quilômetros quadrados. o pib de lá é parecido com o nosso, ao redor do trihão de dólares por ano. as populações são muito diferentes: a nossa é nove vezes maior, o que os torna muito mais dispersos. clique na figura abaixo para ver como wolfram alpha nos compara.

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o governo da austrália resolveu que banda larga é uma das infraestruturas essenciais da economia e da sociedade, assim como água, esgoto e energia elétrica. e decidiu investir A$43B [cerca de sessenta e oito bilhões de reais] para construir uma rede nacional de fibra ótica conectando pelo menos 90% de todas as casas e pontos de trabalho do país, com velocidade de download mínima de 100 megabit por segundo. os 10% muito remotos ou em regiões de muito baixa densidade demográfica serão conectados por novas gerações de tecnologias de satélite e sem fio [3G+]. coisa de gente grande. como o brasil. e a austrália, claro.

a diferença é que eles estão fazendo. e nós não. a rede deles, que está sendo implementada e será operada por uma PPP [parceria público-privada] começou a ser implantada na tasmania em julho passado e vai começar a entrar no ar aí pelo meio de 2010.

os principais analistas de tecnologias de informação e comunicação da austrália, consultados sobre a relação entre o custo e os benefícios do projeto, chegaram à conclusão de que os benefícios ultrapassarão, em muito, os custos. óbvio. rede de qualidade é como educação e, cada vez mais, funciona como uma das infraestruturas essenciais para educar: custa caro; mas experimente o custo de não tê-la.

aqui em pindorama, continuamos sem rumo quando o assunto é uma verdadeira política, nacional, de banda larga. já concluimos, há tempos, que precisamos de muito mais banda, para muito mais gente. mas a verdade é que não há uma política pública do porte da australiana para resolver o problema. por causa disso, ficaremos, por ainda muito tempo, neste lero-lero. quando o tema é rede, a austrália tá dando na gente de dez a zero.

rede de bits, no brasil, deveria ser tratada como uma prioridade nacional, aliás, juntamente com rede de esgoto, isso porque só 44% das famílias brasileiras tem seu esgoto coletado. e só 30% do que é coletado é tratado. dos 32 milhões de metros cúbicos de esgoto diários que o país produz, 18 milhões vão direto para os cursos d’água. e o orçamento federal com isso? em 2007, apenas 0,04% do PIB do país foi gasto com isso. e tome dinheiro no SUS, para pagar uma conta que vem, em boa parte, da falta de esgotos… sem falar no impacto ambiental.

e olha que a gente poderia pensar –seriamente- em, a partir da universalização da rede de esgostos, levar banda larga junto, pra todos os lugares pra onde ela ainda não chegou, o que quer dizer, na prática, todos os lugares. quer ver como? leia o texto abaixo, publicado no meu velho blog, há dois anos, exatamente:

image o british medical journal começou a ser publicado em 1840. é o que poderia se chamar um venerando jornal científico. coincidentemente, foi nos anos 1840 que edwin chadwick [e outros] começou a propagar, na inglaterra, a noção de usar canos para trazer água para as casas, e em outros [espera-se, sem vazamentos para os primeiros] levar dali seu esgoto. pois bem: o jornal perguntou a seus leitores, comunidade majoritariamente de médicos, qual foi o maior marco da história da medicina nos 167 anos de sua publicação. não deu outra: esgoto, com antibióticos em segundo lugar.

no brasil, apenas a metade dos municípios tem "algum tipo" de tratamento sanitário; no nordeste, 30% coletam o esgoto  e uns 13% coletam e tratam. esta é uma das razões pelas quais temos que gastar verdadeiras fortunas em "saúde", sem os resultados esperados, porque a maioria das doenças continua aí. imagine na amazônia, onde menos de 7% dos municípios tem algum tipo de coleta e/ou tratamento. se a população aumentar, você já sabe o que vai [o]correr no rio amazonas…

e o que esta história está fazendo aqui? saneamento é uma rede de infra-estrutura básica da sociedade, como água, eletricidade, telefone. esgoto é assunto de interesse social há milhares de anos. os primeiros têm mais de 5.000 anos. vez por outra este blog dá uma dura na falta de políticas públicas reais, do tamanho do brasil, para incluir o povo inteiro na internet, que representa numa só infra as bibliotecas, enciclopédias, os jornais, diários, arquivos, TVs… do presente e do futuro, muitos deles escritos por nós mesmos. mas internet é, no máximo, tão importante como… saneamento. se não conseguimos controlar o fluxo de efluentes danosos à saude e ao ambiente em terrenos, lagos, rios e mares, de pouco adiantará termos internet. pois o mundo não vai estar aí mesmo pra gente -e, principalmente, as gerações depois da  nossa- viver nele.

a mega-crise de água que o planeta vai atravessar por causa do aquecimento global certamente aumentará a pressão, em países como o brasil, para o aumento da penetração da rede de saneamento, principalmente de esgoto tratado. não seria demais pensar que qualquer governo minimamente interessado no real futuro [e não em votos] estaria, nos estados e municípios, instalando esgotos a mil por hora. questão de saúde, de segurança pública, pois de sobrevivência.

que tal, pra aumentar nossas chances de futuro, universalizar o esgoto em todos os domicílios em 10 anos? considerando que eletricidade já chegou em quase todos os domicílios, assim como água, e isso aconteceu antes da possibilidade [e baixo custo] de levarmos, juntamente com alguma outra infra, a internet [e de fibra ótica?], a hora de universalizar a internet nas casas brasileiras [ou a possibilidade dela] é quando tomarmos a decisão de universalizar o esgoto…

o custo de instalação cairia pra perto de zero, pois já temos que levar o esgotamento sanitário para o país inteiro mesmo. e o problema seria localizado, cidade a cidade, cada uma decidindo o que fazer no seu espaço e com seu dinheiro. claro que muitos vão optar por redes aéreas como wi-max. mas isso não é banda larga de verdade… banda larga mesmo, por casa, no futuro, é algo na região de 100 megabit por segundo. instalando a fibra certa, agora, é só trocar as pontas, depois.

sonho? pode ser. mas que parece razoável, aqui no blog, como idéia, parece. só falta os prefeitos entenderem que banda larga é tão necessária como esgoto e um insumo fundamental para o desenvolvimento econômico. pensando bem, ainda falta mesmo é os prefeitos chegarem em 1840 e entenderem que esgoto universal é um item essencial da cidadania e até da humaninade como a entendemos hoje.

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enquanto tal racionalidade e planejamento não chegam, pelo menos podemos contemplar as fotos da mega rede de esgotos de águas pluviais de tokyo [rios naka, ayase, edogawa], onde enchentes, tufões, furacões, maremotos e banda larga são levados muito a sério. clique na foto; há um monte na seqüência. sim, elas parecem tiradas de um vídeo game. mas são absolutamente reais…

Sobre o autor

Silvio Meira

silvio meira é cientista-chefe da TDS.company, professor extraordinário da CESAR.school e presidente do conselho do portodigital.org

por Silvio Meira
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Pela Rede

silvio meira é PROFESSOR EXTRAORDINÁRIO da cesar.school, PROFESSOR EMÉRITO do CENTRO DE INFORMÁTICA da UFPE, RECIFE e CIENTISTA-CHEFE, The Digital Strategy Company. é fundador e presidente do conselho de administração do PORTO DIGITAL. silvio é professor titular aposentado do centro de informática da ufpe, fundou [em 1996] e foi cientista-chefe do C.E.S.A.R, centro de estudos e sistemas avançados do recife até 2014. foi fellow e faculty associate do berkman center, harvard university, de 2012 a 2015 e professor associado da escola de direito da FGV-RIO, de 2014 a 2017.

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