por Silvio Meira

bom senso & saber

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uma pergunta que já deve ter passado pela cabeça de muita gente é… o que é o bom senso, e como é que a gente descobre se tem uma boa dose dele?

não é fácil de responder. primeiro, porque quase todo mundo acha que tem bom senso. uma definição diz que bom senso é a… forma sensata e equilibrada de decidir e julgar… ou a forma de agir que não é afetada pelas paixões, que se pauta na razão e no equilíbrio, de acordo com os padrões e a moral.

outra definição diz que bom senso é… a capacidade média que uma pessoa possui, ou deveria possuir, de adequar regras e costumes a determinadas realidades considerando as consequências, e, assim, poder fazer bons julgamentos e escolhas.

segundo, porque duvido que você conheça uma pessoa que confessa não ter bom senso. e aí é que está; por mais raro que seja, e é, se considerarmos apenas a opinião de cada um sobre si mesmo e somarmos todo mundo sem ponderar [como se isso pudesse ser feito], o bom senso é universal. o que nos põe diante de um paradoxo, pois.

deixando estas preocupações filosóficas para daqui a pouco, que tal a gente tentar chegar numa definição operacional do que é, ou seria, bom senso? como a definição, a princípio, é aplicada a seres humanos, uma pessoa que tem bom senso…

  1. sabe o que sabe;
  2. sabe o que não sabe;
  3. sabe como adquirir [ou já tem] métodos para aprender o que não sabe, e -antes de tentar- consegue determinar se tal aprendizado vale a pena [no contexto];
  4. sabe que os outros podem saber o que ela não sabe, consegue identificar aqueles que sabem e, quando necessário, sabe como escutá-los… e levar seu conhecimento e opiniões em conta nas suas decisões, quando precisa tomá-las e, por fim…
  5. sabe que os outros não precisam saber o que ela sabe, que a ela não precisa saber o que os outros sabem, e que o ponto comum entre as pessoas de bom senso é conseguir se comunicar, relacionar e interagir, levando em conta princípios básicos [no contexto de um argumento, discussão, projeto, aventura… vida] que levem a um consenso mínimo viável para que o esforço conjunto [se é que há ou é necessário um] para responder uma questão ou resolver ou mitigar um problema em pauta seja exequível, criando significados e conhecimento novos, pelo menos naquela situação, que são adicionados ao… bom senso [do] coletivo.

o que é saber? bem… aí pode começar tudo de novo… e você precisa de bom senso pra ir até o dicionário [este é um método para se descobrir o que não se sabe] e procurar,

noutro nível de investigação, deve-se ir à enciclopédia [pelo menos] e procurar e refletir sobre as diversas interpretações de saber, especialmente as que vêm do grego ἐπιστήμη, que poderíamos traduzir por entender, o conhecimento do que, e as oriundas de τέχνη, o conhecimento do como: aqui pra nós, são ciência e tecnologia, que desde a grécia antiga ajudam todo mundo [que quer ser ajudado] a entender como tudo no mundo funciona e a intervir em quase tudo, mudando até o funcionamento do mundo [inclusive para quem não quer que ele mude].

será que deveríamos exigir -de todo mundo- um entendimento mínimo sobre ciência e tecnologia? sim. isso quer dizer que todo mundo deveria estar pronto para discutir ἐπιστήμη e τέχνη, citando desde os originais gregos até thomas kuhn, no original? claro que não. mas um nível  mínimo de conhecimento [saber!] é absolutamente fundamental até para participar, como ser humano e cidadão, de discussões sobre tudo o que nos envolve, desde a origem do universo e da vida, a sustentabilidade da vida na terra [não, ela não é plana…], a existência de deus[es] -ou se eles são criados pelas sociedades… enfim, as discussões que importam nas nossas vidas.

aliás, sobre deuses, um dos pontos de partida da discussão sobre tais entidades é a hipótese de grandes deuses, segundo a qual sociedades complexas e de grande porte precisariam ser criadas por um deus, garantindo que um “povo observado é povo bom”. mas… isso quer dizer que grandes deuses “criam” grandes sociedades? não. por que? um estudo de 414 sociedades mostra que “seus” deuses surgiram [às vezes muito] depois da sociedade, em si, se estruturar. e não há registro de nenhuma sociedade complexa surgindo depois de “seu” deus. isso faria com que a noção de “deus” deixasse de existir? não. que as pessoas deixassem de acreditar num deus? não. que quem não acredita deixasse de respeitar a crença dos que têm a fé? também não.

onde o bom senso e o conhecimento entram na discussão, inserida nesse contexto como um caso extremo, para criar a oportunidade de se fazer exatamente essa pergunta? parte significativa do bom senso vem da busca pelo conhecimento; e parece que teremos que nos contentar, para sempre, em não sabermos tudo, sobre tudo, por maior que seja o esforço, energia e número de pessoas envolvidas no processo de descoberta. se há uma coisa que a filosofia  [vista, ela própria, como um processo que nos conduz ao bom senso, como definido acima] nos garante é que há múltiplas formas de ver e tentar entender o mundo e muitas delas são incoerentes entre si.

o ceticismo “garante” que podemos descartar certas classes hipóteses, mesmo sem ter evidências contra elas. por exemplo, é possível descartar a hipótese de que um deus existe, mesmo sem ter as provas de que ele não exista. ao mesmo tempo, é possível descartar a hipótese de que um deus não existe, ainda que não se tenha as provas de que um, de fato, existiria.

parte do arcabouço filosófico que nos ajudaria a ter bom senso, para que serve o método científico, neste caso? bem… para indicar que a existência de um deus é teoricamente indecidível. o que é ótimo -para terminar nosso argumento-, porque num sistema [formal] que contenha pelo menos a aritmética de peano e seja consistente [onde não é possível provar que 1 = 0, por exemplo]… há proposições que não se pode provar nem verdadeiras… e tampouco falsas.

é o que nos dizem os teoremas de gödel, os resultados mais importantes da lógica moderna… que não podem ser aplicados [diretamente] ao método científico, que não é um sistema formal, mas que muito provavelmente também devem  valer por lá… por tudo o que nos dizem a filosofia, o conhecimento e o bom senso que temos… até aqui.

 

 

Sobre o autor

Silvio Meira

silvio meira é cientista-chefe da TDS.company, professor extraordinário da CESAR.school e presidente do conselho do portodigital.org

7 comentário

  • Muito bom, Silvio, e muito oportuno!
    Creio que o governo que temos é a prova viva do contrário de seus enunciados, ou seja, da mais absoluta falta de bom senso, razoabilidade, sabedoria, conhecimento e desrespeito com os que sabem!

  • Excelente e bem humorada reflexão sobre o bom senso!! Vou retransmitir para um bocado de pessoas que pensam que agem utilizando o bom senso!!

  • Muito bom Silvio!!! Obrigada!! Sábio aquele que descobre sobre esse tal de “bom senso” com 18 anos, porque parece q o danado só insiste em vir c esses 5 eixos quando a gente já está fazendo as últimas curvas da nossa vida. A reflexão é excelente! Talvez um dia no ano pra celebrar o “dia do bom senso “ fosse necessário pra evoluirmos ainda nessa vida. Será?

  • Texto instigante. Um amigo japonês comentou que em japonês e inglês não a mesma expressão como o termo saudade. Disse me que é equivocado o “Common Sense” como tradução .
    Obrigado. Texto excelente e tô compartilhando!!!!

  • Silvio,

    Permita adicionar uma característica que considero essencial para buscar o bom senso, a qual é, humildade.

    Grato pela excelente reflexão.

    Abracos,
    Reginaldo

por Silvio Meira

Pela Rede

silvio meira é PROFESSOR EXTRAORDINÁRIO da cesar.school, PROFESSOR EMÉRITO do CENTRO DE INFORMÁTICA da UFPE, RECIFE e CIENTISTA-CHEFE, The Digital Strategy Company. é fundador e presidente do conselho de administração do PORTO DIGITAL. silvio é professor titular aposentado do centro de informática da ufpe, fundou [em 1996] e foi cientista-chefe do C.E.S.A.R, centro de estudos e sistemas avançados do recife até 2014. foi fellow e faculty associate do berkman center, harvard university, de 2012 a 2015 e professor associado da escola de direito da FGV-RIO, de 2014 a 2017.

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