por Silvio Meira

Efeitos não biológicos de COVID19

E

A PARTIR do que já sabemos, quais os impactos e efeitos de médio e longo prazo da pandemia?… O que dizem as pesquisas, não sobre o vírus ou seu impacto biológico, mas sobre alguns de seus efeitos colaterais, nas pessoas, na economia?

Um efeito que já está conosco e tende a ser pouco notado e minimizado… é que COVID19 terá um efeito psicológico imenso e duradouro; pesquisadores já documentam sentimentos de tristeza e tédio ligados a uma sensação de desaceleração; para 50% das pessoas, o tempo está passando mais lentamente, e só 24% acham que está mais rápido[1]. Antes de COVID19, entre 5 a 7% da população dos EUA atendia aos critérios para ter um diagnóstico de depressão. Dependendo de como se define a condição, cerca de 50% da população já se encontrava deprimida antes dos protestos violentos dos últimos dias[2]. Será que o aumento significativo da depressão é um dos invariantes dos Novos Normais?…

Em pesquisa recente realizada no Japão, 90% dos consultados disseram estar preocupados com sua saúde; para 14%, a vida humana está acima de tudo e a economia não importa; para 42%, o dano econômico é aceitável para salvar vidas; para 31%, salvar vidas e economia devem se equilibrar e só 4% põem a economia à frente de tudo[3]. Mas… e se, ouvindo só os 4%, shoppings e lojas e tudo mais reabrisse em breve, os clientes voltariam? Uma pesquisa realizada nos EUA diz que 58% não iriam ao cinema e teatro por semanas, 57% não iriam a eventos esportivos, 50% não voltariam às academias, 48% não iriam a bares e restaurantes nem tão cedo[4]. Apesar de uma minoria acreditar que as pessoas querem estar “lá fora” a qualquer risco e custo, pesquisas realizadas no mundo inteiro, das quais as citadas neste parágrafo são um pequeno exemplo, parecem mostrar que COVID19 não afeta o instinto de sobrevivência dos humanos. Ainda bem.

Mas, por outro lado, nem tanto: nos EUA, uma pesquisa descobriu que 44% dos republicanos acredita numa teoria da conspiração segundo a qual Bill Gates planeja uma vacinação contra COVID19 pra implantar microchips em bilhões de pessoas e monitorá-las[5]. Incrível… a não ser pelo fato de que é tanta gente e está acontecendo no país de maior PIB do mundo. Já no Brasil, saiu o microchip, com um “apóstolo” vendendo algo bem mais pé no chão, um broto de feijão “milagroso” por até R$1.000, para curar os males do coronavírus. Ainda bem que o MPF estava atento.

Voltando à teorias da conspiração, boa parte delas é DESinformação [informação falsa, criada para atacar], MISinformação [também falsa, mas sem intenção de causar dano] e MALinformação [baseada na realidade e usada para atacar], coletivamente chamadas de “fake news”, normalmente em disputas pelo poder, algo tão antigo quanto o próprio poder[6]. A infodemia [também] causada por COVID19 dá mais uma mostra que adultos mais idosos espalham mais fake news -até sete vezes mais- do que suas contrapartes mais jovens. O estereótipo dizia que tal comportamento vinha de declínio cognitivo e solidão. Mas um estudo recente mostra que relações interpessoais na terceira idade e analfabetismo digital têm um papel muito relevante na predisposição a acreditar em e espalhar fake news[7]. Boa notícia, em parte, pelo menos. Talvez os mais novos, que nasceram na rede, sejam menos ingênuos no futuro, quando ficarem mais, muito mais velhos. Será?…

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Uma versão editada deste texto foi publicada no ESTADÃO em 03/06/20.


[1] A Monday Is a Tuesday Is a Sunday as COVID-19 Disrupts Internal Clocks, Sci. AM., 27/MAI/20, bit.ly/3guDcF3.

[2] Is Everyone Depressed?, The Atlantic, 22/MAI/20,  bit.ly/3e8n3TN.

[3] It's time to face the real risks posed by COVID-19, The Japan Times, 24/MAI/20, bit.ly/2ZKx2ef.

[4] AP-NORC poll: Many in US won’t return to gym or dining out, AP, 22/MAI/20, bit.ly/2XujGjp.

[5] New Yahoo News/YouGov poll shows coronavirus conspiracy theories spreading…, Yahoo! News, 22/MAI/20, yhoo.it/2ARRTlb.

[6] A short guide to the history of ’fake news’ and disinformation, ICFJ, JUL/18, bit.ly/2EAfsjQ.

[7] Older users share more misinformation. Your guess why might be wrong. MIT TECH REVIEW, 26/MAI/20: bit.ly/2XYw4rY.

 

 

 

 

Sobre o autor

Silvio Meira

silvio meira é cientista-chefe da TDS.company, professor extraordinário da CESAR.school e presidente do conselho do portodigital.org

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silvio meira é PROFESSOR EXTRAORDINÁRIO da cesar.school, PROFESSOR EMÉRITO do CENTRO DE INFORMÁTICA da UFPE, RECIFE e CIENTISTA-CHEFE, The Digital Strategy Company. é fundador e presidente do conselho de administração do PORTO DIGITAL. silvio é professor titular aposentado do centro de informática da ufpe, fundou [em 1996] e foi cientista-chefe do C.E.S.A.R, centro de estudos e sistemas avançados do recife até 2014. foi fellow e faculty associate do berkman center, harvard university, de 2012 a 2015 e professor associado da escola de direito da FGV-RIO, de 2014 a 2017.

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