este blog publicou ontem o primeiro texto sobre um tipo radicalmente novo de empresa que está sendo prototipado no brasil, um negócio completamente em rede, sem centro, sem sede, sem dono… um treco tão diferente que vale a pena um conjunto de explicações e reflexões sobre novos modos de empreender e trabalhar. oswaldo oliveira [que ganhou o codinome O2 aqui no blog], um dos líderes do processo de criação da empresa teia, começou a conversa neste texto e terminamos o assunto, temporariamente, hoje.

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digo temporariamente porque o trabalho em rede estará mudando tanto, nas duas próximas décadas, que voltaremos muitas vezes para esta conversa. por enquanto, abaixo, o resto da conversa com oswaldo oliveira, O2:

SM: como a empresa teia gera valor? como captura valor?

O2: Mesmo sendo apenas um dos nós da rede a Empresa Teia gera valor para os atores da rede multiplicando os poucos caminhos de desenvolvimento sustentável que eles conheciam antes por fazer parte de processos hierárquicos e centralizados que se caracterizam pela escassez de caminhos. Em uma organização distribuída, em rede, cada conexão (pessoa, empresa ou instituição) é uma nova possibilidade para a malha toda. E isto é exponencial pois cada um que entra é atraído pelo que já está lá e ao entrar adensa a malha que fica mais atraente para quem não tinha entrado ainda e por ai vai….

SM:  já há casos e/ou exemplos onde se pode ver a empresa teia competindo com empresas, digamos, "normais"?

O2: Não diria nem competindo, nem “normais”. Não é para ser político não, mas é que o entendimento comum sobre o que significam estas palavras não batem com o que vemos no dia a dia em rede. Primeiro porque trabalhando em rede a multiplicidade de caminhos é tão gigantesca e abundante que até acontecem embates entre concorrentes no primeiro momento mas depois a coisa tende mais para a coopetição. Mas para não parecer que fugimos da resposta, olhando pela ótica tradicional, já existem sim vários casos de “vitória” de atores que estão conectados à Empresa Teia sobre atores que não estão. Quanto ao segundo termo, alguém já disse: de perto, ninguém é normal!…

SM:  você acha que é possível criar "teias" eficazes e eficientes para que mercados? quais seriam as dificuldades fundamentais?

O2: A TEIA é a rede. A rede é a sociedade. A sociedade é para todo mundo e todo mundo é a sociedade. Portanto, por definição, esta iniciativa tem que atender a qualquer um. As dificuldades são culturais. Não é comum encontrar quem entenda as diferenças entre a sociedade do conhecimento e a sociedade industrial sem fazer comparações ou juízo de valor. Normalmente as pessoas ficam inseguras em função do desconhecido. Na verdade, a inovação é um processo muito duro e difícil e gera inseguranças enormes. Isto atrasa a entrada das pessoas em um mundo que se reorganiza em rede numa velocidade exponencial e pode significar um  grande risco de exclusão econômica no futuro. É aí que atuamos. tentando dar a segurança que as pessoas precisam para seguir adiante.

SM: como poderíamos fomentar mais "empresas teia"?

O2: Bom, depende. Nós quem cara pálida? Do ponto de vista do desenvolvimento sustentável seria um grande avanço se os gestores públicos começassem a fomentar a criação de redes pela sociedade em vez de querer colocar a sociedade dentro de suas redes. A experiência do TEIA em Minas Gerais deveria ser melhor compreendida por outras instâncias de governo no próprio estado e também em outros estados. O mais difícil já foi feito por lá, pois o investimento foi amortizado e o conhecimento adquirido é público. Quanto a outras instâncias da sociedade que não o governo é necessário investir no entendimento do que são redes, suas características distribuídas e os impactos disto em seus objetivos. Qualquer empresa pode se tornar uma empresa Teia, ou seja, uma empresa que é uma rede.

SM: da sua experiência até aqui, o que você recomendaria para outros empreendedores que pensassem em criar uma empresa como a teia?…

O2: 3 coisas: 1. Comece já; 2. Comece já e… 3. Comece já. E não tenha medo do erro. Não é filosofia de vida. É matemática. Na sociedade industrial desenvolveu-se um preconceito contra o erro pois ele custava muito caro. Da forma como as coisas eram feitas a mobilização de recursos humanos, tecnológicos e financeiros para se iniciar qualquer empreendimento eram muito grandes e portanto qualquer erro detectado tinha que ser corrigido a um custo muito grande. Na sociedade do conhecimento o erro não tem custo (ou tem custo muito mais baixo do que na economia industrial) e, sendo assim, se torna matéria prima do aprendizado que é o verdadeiro ativo do processo. Não existem barreiras de entrada e errando é que se constrói o patrimônio… que é o conhecimento. Portanto comece ontem e não tenha medo de errar.

SM: como você compara a empresa teia com negócios como zooppa.com e rentacoder.com? elas são especializações da "teia" ou nem isso dá pra dizer?

O2: Sim, apesar de achar que o termo não é exatamente este concordo com a idéia de especializações da "teia". São comunidades de especialistas  trabalhando (crowdsourcing) em rede globalmente, não são? Tanto os profissionais quanto empresas e instituições que estão nas redes que conectamos ainda não desenvolveram o hábito de se relacionar desta maneira. Também aqueles que já são iniciados não conseguem acompanhar a evolução quantitativa e qualitativa destes serviços e suas possibilidades. Me passaram a imagem abaixo outro dia. É uma tentativa de conseguir visualizar de forma categorizada as opções de crowdsourcing no mundo. Este monte de informação é só o início do projeto. [ao leitor: clique na imagem para ver com maior resolução].

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Agora olha que legal a imagem abaixo:

jequiteia

É uma iniciativa espontânea de jovens ligados à teia do Vale do Jequitinhonha, Minas Gerais. Levam conhecimento sobre ferramentas, processos e culturas da sociedade do conhecimento para localidades remotas no norte do estado. Fazem isto ajudando as pessoas a montar redes locais (veja algumas neste mapa). A empresa Teia os apóia neste desafio e as redes que nascem vão sendo conectadas na malha. Aí aparece a oportunidade de conectar estas redes a mecanismos de crowdsourcing já existentes no mundo todo e desta forma criamos novas possibilidades nas relações de trabalho desta comunidade.Fazemos esta conexão de várias formas. Uma delas é o ROTEIA (www.roteia.com.br) que permite que a evolução destes contatos tenha cara de chamados em um helpdesk e, em função da nossa mediação (e não intermediação), as diferenças de cultura, língua e conhecimento são atenuadas e aí a coisa anda para todo mundo.

SM: que outros casos nacionais e mundiais perecidos com a "teia" você citaria?…

O2: Infelizmente não conheço. Não fiz nenhuma pesquisa estruturada mas temos contato cotidiano com vários players globais e todos se mostram surpresos com a nossa forma de trabalhar e comentam que não conheciam nada assim. Falo com a maior humildade do mundo e sem achar que isto seja vantagem. Não é bom ser o único em nada.Se tivéssemos outros atuando desta forma, o nosso negócio seria potencializado com mais conexões e poderíamos ser mais úteis ainda para os nossos clientes. Na vida em rede pra valer a visão sobre concorrência é outra. Acho que isto é assim porque o entendimento sobre redes, fluxos e modelos de negócio atrelados a eles ainda não estão totalmente absorvidos. A boa notícia é que avança aceleradamente.

agora, pense: que partes de sua empresa, ou da empresa em que você trabalha poderiam se tornar "teias"? agora, dentro de 5, 10, 15 anos? como? com quem? pra quem? e, talvez mais importante, por que?…

pra ajudar na reflexão, pense que o inglês network pode significar rede, as redes das quais dependem a empresa teia para funcionar, ela própria, como uma rede. mas, tanto quanto, network quer dizer trabalho em rede ou, na forma net work, significa trabalho líquido, o resultado do trabalho depois que tiramos tudo o que foi feito pra realizar as funções que entregamos, na ponta, como resultado.