por Silvio Meira

Fundações para os Futuros Figitais, #2

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Este é o terceiro de uma série de cinco posts sobre o assunto do título. O primeiro estabelece o contexto para esta conversa e está no link bit.ly/4F5P20L; o segundo trata da primeira fundação para os futuros figitais, a flexibilidade combinatória, e está em bit.ly/3rYYOzo. O quarto, sobre experiências fluidas e suas cinco lógicas, está no link… bit.ly/3CKB6fs. O último post trata de transformação estratégica como uma fundação essencial para futuros figitais, no link… bit.ly/384K210. Para entender este texto, sugiro fortemente a leitura dos textos anteriores, que dão o contexto para a discussão que se segue.

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A série trata de um conjunto de fundações, lógicas e princípios para competir em futuros figitais, e neste capítulo a discussão é sobre  plataformas figitais.

Até aqui, demos conta da já complexa agenda das bases para se ter flexibilidade combinatória em um negócio. Mas liquidificar sua organização e criar uma flexibilidade combinatória internamente não resolve os verdadeiros problemas de competir no mundo figital. Porque o interesse fundamental da instituição não é o que está acontecendo dentro dela e sim, e não de agora, mas há muito tempo, o que está rolando na interface entre o negócio [leia as pessoas, nele] e as pessoas, fora dele, que podem vir a estabelecer conexões, relacionamentos e realizar interações com “você”, negócio… e aí, quem sabe, eventualmente, uma parte das interações pode até se transformar em transações.

É daí que vem a segunda fundação, que habilita a organização a se relacionar com as suas próprias bordas e com o mundo exterior a ela de uma forma muito diferente, e de muito maior potencial de formação de redes, do que era possível antes dela…

Marc Andreesen já havia definido plataformas apropriadamente lá em 2007:

uma plataforma é um sistema que pode ser programado e, portanto, personalizado por desenvolvedores externos – usuários – e, dessa forma, adaptado a inúmeras necessidades e nichos que os desenvolvedores originais da plataforma não poderiam ter contemplado, muito menos tiveram tempo para acomodar.

Pra não deixar nenhuma dúvida, Andreesen adicionou: If you can program it, then it’s a platform. If you can’t, then it’s not. Tá no link bit.ly/2WKNrjh, e não precisa tirar nem por uma só palavra. O problema é que muita gente passou a chamar qualquer coisa feita na nuvem, perto dela, usando recursos dela, e até sistemas com arquitetura monolítica que não têm nada a ver com a nuvem ou software como serviço de… plataforma. Mas não é.  Vamos dizer mais uma vez, pra deixar claro, em português: se não é programável, não é plataforma.

Plataformas figitais são camadas programáveis de infraestruturas e serviços físicos, digitais e sociais, associadas a sistemas de governança que habilitam múltiplos agentes a criar aplicações que fazem parte do ecossistema fomentado pela plataforma. As aplicações habilitadas pela plataforma estendem e aumentam suas infraestruturas e serviços  em múltiplas dimensões, magnificando as redes de valor originadas na plataforma.

Neste ponto da nossa conversa, você já descobriu que plataformas figitais precisam da  flexibilidade combinatória das organizações e estão por trás flexibilidade combinatória dos ecossistemas do futuro figital, onde “programar a rede” é na verdade escrever uma aplicação que usa funcionalidades de [mais de] uma plataforma para criar um valor que não estava ali antes e que, em boa parte -senão fundamentalmente, depende de uma ou mais plataformas para existir.

Ao tratar as plataformas como figitais, ao invés de simplesmente digitais, incluímos as dimensões física e social das infraestruturas e serviços e, aí, as possibilidades e combinações -a flexibilidade combinatória– aumentam significativamente, porque não se trata de usar apenas as interfaces digitais de programação das plataformas, mas de, através delas, acionar agentes nas três dimensões do espaço figital. E eles incluem, para começar, tudo o que faz parte da internet das coisas, objetos físicos, suas propriedades e conexões, dentro do escopo da plataforma.

Mesmo antes [e depois] da internet das coisas de verdade… dá para tratar as coisas em conjunto com pessoas que são seus conectores, sensores e atuadores [COSA]: enquanto ainda não é possível, em geral, requisitar um robô de logística para entregar uma pizza, pode-se programar um serviço equivalente, requisitando uma entrega por moto, que é recebida, processada e atendida por um humano, pilotando uma moto, assumindo o papel de uma COSA. Mas tratar as plataformas como figitais terá outras implicações, como veremos quando discutirmos, lá na frente, experiências

As infraestruturas e serviços que formam a plataforma devem ser processos interdependentes, devidamente orquestrados, não podem estar cercadas de burocracia, para que possam ser usadas para realizar outras ações de forma elegante, o que demanda times, ágeis e flexíveis, parte de uma organização em rede, que aprende continuamente com o que percebe dentro e fora dela. O uso da plataforma pelo ecossistema deve, o tempo todo, causar processos de adaptação, evolução e transformação da própria plataforma. Ah, você diria… estes são os princípios 1-5 [veja o segundo post da série, em bit.ly/3rYYOzo], ditos em um só parágrafo, recontextualizados para discutir plataformas digitais. E são mesmo. Bem que eu disse que os princípios valiam para todas as fundações. E valem, mesmo…

Plataformas não são um novo tipo de silo. Nem uma torre de castelo figital, no centro da organização, onde o poder incumbente se protege do mundo ao redor e tenta se defender da influência e da contaminação do que está rolando “lá fora”. Muito pelo contrário. A velha noção de propriedade dos equipamentos digitais da empresa, lá dos porões dos velhos CPDs, não tem lugar no espaço-tempo das plataformas, onde CTO quer dizer muito mais chief transformation officer do que chief technology officer. Porque tudo é software, e a transformação do negócio começa pela transformação das competências e habilidades para [re]escrever o negócio em código, e de fora pra dentro, ao invés do histórico de dentro para dentro ou, no máximo, de dentro para fora.

O que acontece nas plataformas é fundamental para a estratégia do negócio e, entre o muito que se desenrola nelas, toda a informação relevante para criação, entrega e captura de valor de qualquer tipo de organização passa por lá. Aí, se o nome de quem “toma conta” da plataforma, no seu negócio, é CIO, é sempre bom lembrar que o “I“, aí, tem duas interpretações quando falamos de plataformas figitais. Primeiro, é I de informação, pois a plataforma é o hub onde se [re]desenha, continuamente, não só a informação, mas toda a estratégia para o ciclo de vida de informação no negócio. Este não é um problema trivial, precisa de atenção estruturada e contínua, o que não acontece em quase nenhum negócio; agora, passou a ser vital [veja o link bit.ly/2HAOpH6, sobre porque chegou a hora das estratégias de informação] e, ainda por cima, regulado, em parte, por lei.

A segunda interpretação do “I” depende da primeira, sem a qual pouca coisa vai rolar num negócio, por menor que seja: é CIO como chief innovation officer. Porque pra vir de um futuro figital para qualquer presente que você queira é fazer uma transformação figital, que é a combinação de transformação estratégica [inclusive da arquitetura do negócio, e dos poderes, lá] e inovação figital, que é nada mais, nada menos do que tratar da mudança no comportamento de agentes, no mercado, como fornecedores e consumidores usando plataformas figitais para habilitar e fomentar novos comportamentos das pessoas dentro e fora do negócio. Pense numa agenda gigante.

E se fosse só isso, era muito mais fácil porque, para criar uma plataforma que é um hub de uma rede que forma um ecossistema, você ainda terá que sair de controle para colaboração, criando plataformas abertas; sair de otimização do seu, só para você, e do que você só faz mais ou menos, para interação com os outros e para usar o que eles fazem muito melhor do que você, para que você se concentre no que pode ser único entre todos ou no que você pode ser um dos melhores do ecossistema; e por fim, sair de valor para cada um para valor para o ecossistema. Afinal, plataformas habilitam ecossistemas e é lá que todos vamos coopetir. Essa é a agenda dos CTOs e CIOs. Ou essa ou CIO, quase certamente, pode passar a significar career is over.

E as lógicas das plataformas figitais, quais são?… É disso mesmo que iremos falar depois da imagem.

  1. A programabilidade das plataformas figitais depende da existência de interfaces simples e estáveis, que podem ser usadas para fazer solicitações e obter respostas, da mesma forma que elementos computacionais básicos, como CPUs, realizam operações. Interações entre plataformas e|ou aplicações dependem de interfaces e protocolos abertos, entendidos por todas as partes envolvidas.

Protocolos são conjuntos de regras para comunicação entre sistemas [digitais] e são uma das bases para a desintegração de uma organização e seu redesenho ao redor de processos.

  1. Plataformas figitais devem possibilitar conexões efêmeras e se baseiam nelas: ativar conexões, provocar relacionamentos e realizar interações e transações deve ser possível a custo total negligenciável, para tornar a plataforma um hub de habilitação dos processos de criação, entrega e captura de valor no ecossistema por ela habilitado.

Processos de criação, entrega e captura de valor, nesse contexto, são figitais, e incluem todas operações do negócio e os agentes que as realizam, humanos inclusive.

  1. Um ecossistema figital habilitado por uma plataforma é fundamentado em conhecimento distribuído: os processos de desintegração distribuem conhecimento na instituição e no seu ecossistema, e a reintegração de tal conhecimento permite a elaboração de entendimentos holísticos sobre o ecossistema “da” plataforma.

A gestão do ciclo de vida de conhecimento no negócio, e não do negócio, deve conectar educação e experiência a pesquisa e desenvolvimento e deve tratar o ecossistema como uma escola de fazer.

  1. A sustentabilidade de um ecossistema figital depende da quantidadequalidade e intensidade dos relacionamentos e interações provocados e habilitados pela sua plataforma, tratando todos agentes como produtores em potencial.

A plataforma deve ter provisões para reduzir conflitos de interesse e aumentar interações, através de intermediação, ao mesmo tempo em que fomenta e aumenta o valor das interações, auxiliando agentes a criar mais valor contextual.

  1. Promover e|ou defender a rede de um ecossistemas figital é muito mais complexo do que no mundo analógico, onde exclusividade, escassez, localização, tarifas e outros legados eram a base da proteção. Os efeitos de rede são uma das poucas defesas dos ecossistemas figitais; a plataforma deve criar e manter as condições de programabilidade, conectividade, confiabilidade e escalabilidade que habilitam e maximizam os efeitos de rede.

Efeitos de rede acontecem quando um usuário torna o produto ou serviço mais valioso para todos os outros, atraindo cada vez mais usuários a partir de mais uso por cada vez mais usuários.

Os princípios de organização em processos [associados a interfaces e protocolos], desburocratização [que possibilita conexões efêmeras], organização em times [onde o conhecimento está distribuído], organização em rede [de relacionamentos e interações] e organização que aprende [criada e que evolui com efeitos de rede, o tempo todo] valem, da mesma forma e intensidade, para o ciclo de vida das plataformas figitais e para as lógicas que as sustentam, como aliás já havíamos afirmado lá atrás.

Acontece que desmontar e remontar organizações, ou criar novos negócios, tendo flexibilidade combinatória e plataformas figitais como bases, não pode, tampouco deve, ser um fim em si. Negócios sustentáveis são os que servem a comunidades, e a criação e evolução de comunidades depende das experiências às quais seus membros têm acesso como indivíduos e grupos. A experiência relacionada a interações e transações já é, há algum tempo, um diferenciador tão relevante para qualquer negócio quanto o produto em si e seu preço.

No próximo episódio, tratamos da terceira fundação, experiências fluidas, e suas cinco lógicas, no link… bit.ly/3CKB6fs. Vá ver; a saga continua.

Sobre o autor

Silvio Meira

silvio meira é cientista-chefe da TDS.company, professor extraordinário da CESAR.school e presidente do conselho do portodigital.org

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por Silvio Meira

Pela Rede

silvio meira é PROFESSOR EXTRAORDINÁRIO da cesar.school, PROFESSOR EMÉRITO do CENTRO DE INFORMÁTICA da UFPE, RECIFE e CIENTISTA-CHEFE, The Digital Strategy Company. é fundador e presidente do conselho de administração do PORTO DIGITAL. silvio é professor titular aposentado do centro de informática da ufpe, fundou [em 1996] e foi cientista-chefe do C.E.S.A.R, centro de estudos e sistemas avançados do recife até 2014. foi fellow e faculty associate do berkman center, harvard university, de 2012 a 2015 e professor associado da escola de direito da FGV-RIO, de 2014 a 2017.

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