por Silvio Meira

“geração internet” prefere… o mundo real

“Tudo o que já existia no mundo antes de nascermos é absolutamente normal; tudo o que surge enquanto somos jovens é uma oportunidade e, com sorte, pode até ser uma carreira a seguir; mas o que aparece depois dos 30 é anormal, o fim do mundo como conhecemos… até que tenha estado aí por uma década, quando começa a parecer normal”.

com maiúsculas nos lugares certos e tudo, o parágrafo acima é uma tradução livre [minha, neste texto da superinteressante] de uma frase de douglas adams sobre como o mundo muda e como a percepção e atitude dos mais velhos é diferente dos mais jovens. o artigo é de setembro de 2009 e fala sobre crianças em rede, no tom do trecho abaixo…

…as crianças estão usando a “rede” como parte essencial de suas redes, como extensão da escola, conexão com familiares distantes, diversão, e por aí vai. Segundo, quem nasce em rede vive em rede; é como aprender a ler: tirante raros casos, ninguém desaprende. No futuro, todo mundo estará em rede, em todo lugar, o tempo todo, para todas as coisas.

a idéia geral é que crianças que nasceram “na” rede, nos tempos e com os meios e ferramentas de rede, vão viver em rede; para elas, a rede será sempre parte essencial da infraestrutura de seu mundo e vida, como a atmosfera, água encanada, eletricidade e esgoto.

isso não significa que quem nasce em lugares onde há rede de verdade [ou seja, onde todos, pelo menos os mais jovens, têm acesso à rede] vai viver o tempo todo “na” rede. este “na” quer dizer fazendo coisas “de” rede e, o tempo todo ou boa parte dele, tendo “a” rede como seu principal foco de atenção ou preocupação.

claro que isso vai acontecer com um número de crianças e jovens, que vão se tornar cientistas e engenheiros “de” redes, assim como um número de pessoas que se interessa por eletricidade e os problemas por trás de sua geração e distribuição se torna engenheiro elétrico. nada mais normal, não?

mas a vasta maioria, quase a totalidade das pessoas, vai estar “em” rede e não “na” rede. o que não deveria surpreender ninguém. mas é bom saber que tal percepção sobre a rede vem sendo confirmada, como mostra o  spiegel neste fim de semana, citando estudos variados, inclusive um bastante extenso do hans bredow institut [de 2009; link]. segundo o spiegel, análises de comportamento juvenil em vários países estão descobrindo o que parece óbvio mas que é bom ver confirmado: apesar de passarem o tempo todo conectados, os jovens não acham que a rede “é” a coisa à qual deveriam estar dedicando a maior parte de sua atenção. relevantes, mesmo, são as coisas que a rede possibilita, como melhorar as conexões que levam a passar mais tempo, de melhor qualidade, com os amigos.

mais interessante, de acordo com rolf schulmeister, é que a vasta maioria dos jovens está e se sente “em casa” na rede, mas o nível médio de proficiência no uso das ferramentas da rede é muito baixo… e só uma pequena minoria consegue usar toda a riqueza da rede a seu favor. e olhe estamos falando da alemanha, onde 98% dos jovens entre 12 e 19 anos está “em” rede e online por 134 minutos por dia, em média.

independentemente de idade e lugar, que percentagem da população [ou dos adolescentes] realmente sabe usar google, só pra falar de algo que parece universal? quantos sabem que a busca allintitle: meira retorna somente links que contém as palavras “” e “meira” no título da página? clique aqui para ver parte do que dá para fazer com google, para ter uma idéia do que é preciso aprender para se considerar competente na rede…

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o problema [digital] de verdade, para todos [jovens inclusive] parece ser como usar a rede de forma produtiva; este link tem uma boa revisão da literatura sobre o assunto. um deles é um estudo da british library concluindo que

…the information literacy of young people has not improved with the widening access to technology: in fact, their apparent facility with computers disguises some worrying problems…

…a fluência informacional dos jovens [como um todo] não melhorou com o amplo acesso à tecnologia… e sua aparente familiaridade computacional esconde alguns problemas preocupantes. e isso pode muito bem ser o caso, especialmente no cenário mais específico de aprendizado online tratado pela british library em seu estudo.

seja como for, temos um bom [e velho] problema: os estudos mostram que os mais jovens estão “em” rede e não “na” rede, o que é uma boa notícia; por outro lado, as mesmas análises dizem que, excetuando uns poucos, a vasta maioria tem que estudar e praticar muito para ter a rede como parte de sua infraestrutura essencial de [alta produtividade para] aprendizado.

o bom e velho problema, no caso, é que sempre foi assim. se não fosse, todo mundo que nasceu depois de 1927 saberia tudo de mecânica quântica simplesmente por existir. como sabemos, a vida é um pouco mais complicada do que isso. é preciso tentar, errar e aprender, em teoria e na prática, para saber das coisas. quando funcionam de forma efetiva, os mecanismos sociais para tentar, errar e aprender estão consolidados ao redor do que costumamos chamar de sistema educacional.

na alemanha, na inglaterra e aqui, o que está faltando, no mundo real da escola [“em” rede], em larga escala, são processos estruturantes [e nem tão estruturados…], em larga escala, para as pessoas [jovens e nem tanto] aprenderem “em” rede, “com” e “na” rede. como a olimpíada de jogos e educação, por exemplo, parte do sistema educacional [em pernambuco e no rio de janeiro] que sai da sala de aula para casas e lanhouses, alargando a criação de oportunidades de aprendizado para todas as horas, em todos os lugares. se cada vez mais coisas com essa ocorrerem, a rede, que já é o maior ambiente de aprendizado que já existiu, vai ser muito mais importante e maior que isso.

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Sobre o autor

Silvio Meira

silvio meira é cientista-chefe da TDS.company, professor extraordinário da CESAR.school e presidente do conselho do portodigital.org

16 comentário

  • Espere, por que para estar “em” rede não é necessário estar “na” rede?

    Interessante que esse texto veio bem a calhar na primeira discussão das aulas que estou participando sobre letramento digital.

    Acho que essencialmente a grande vantagem dos nativos tecnológicos é a capacidade de uso que eu entendo como o conhecimento da lógica de funcionamento. Veja, todo mundo que nasceu depois de 1927 pode não saber tudo de mecânica quântica por não aplicar, mas as pessoas desde 1856 sabem tudo de geladeira, por conhecer sua lógica de funcionamento (não deixe aberta, não acumule gelo, etc)

    Então, acho que os nascidos no século XXI entenderão a lógica de funcionamento da rede e saberão operá-la, com a mesma facilidade do uso da geladeira.

  • Espere, por que para estar “em” rede não é necessário estar “na” rede?

    Interessante que esse texto veio bem a calhar na primeira discussão das aulas que estou participando sobre letramento digital.

    Acho que essencialmente a grande vantagem dos nativos tecnológicos é a capacidade de uso que eu entendo como o conhecimento da lógica de funcionamento. Veja, todo mundo que nasceu depois de 1927 pode não saber tudo de mecânica quântica por não aplicar, mas as pessoas desde 1856 sabem tudo de geladeira, por conhecer sua lógica de funcionamento (não deixe aberta, não acumule gelo, etc)

    Então, acho que os nascidos no século XXI entenderão a lógica de funcionamento da rede e saberão operá-la, com a mesma facilidade do uso da geladeira.

  • A produtividade das pessoas na utilização da rede enquanto infraestrutura natural, livre e descentralizada de comunicação depende muito de quão bem ela está integrada com os outros serviços de infraestrutura já estabelecidos.

    Me parece que a tendência não é tornar serviços na Internet síncronos com o usuário, a não ser que ele queira. Mobilidade ajuda, na medida em que eventos relevantes são disparados nos clientes interessados. Me parece que esse modelo assíncrono, baseado em eventos, se encaixa melhor na nossa infra estabelecida.

  • A produtividade das pessoas na utilização da rede enquanto infraestrutura natural, livre e descentralizada de comunicação depende muito de quão bem ela está integrada com os outros serviços de infraestrutura já estabelecidos.

    Me parece que a tendência não é tornar serviços na Internet síncronos com o usuário, a não ser que ele queira. Mobilidade ajuda, na medida em que eventos relevantes são disparados nos clientes interessados. Me parece que esse modelo assíncrono, baseado em eventos, se encaixa melhor na nossa infra estabelecida.

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por Silvio Meira

Pela Rede

silvio meira é PROFESSOR EXTRAORDINÁRIO da cesar.school, PROFESSOR EMÉRITO do CENTRO DE INFORMÁTICA da UFPE, RECIFE e CIENTISTA-CHEFE, The Digital Strategy Company. é fundador e presidente do conselho de administração do PORTO DIGITAL. silvio é professor titular aposentado do centro de informática da ufpe, fundou [em 1996] e foi cientista-chefe do C.E.S.A.R, centro de estudos e sistemas avançados do recife até 2014. foi fellow e faculty associate do berkman center, harvard university, de 2012 a 2015 e professor associado da escola de direito da FGV-RIO, de 2014 a 2017.

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