“Tudo o que já existia no mundo antes de nascermos é absolutamente normal; tudo o que surge enquanto somos jovens é uma oportunidade e, com sorte, pode até ser uma carreira a seguir; mas o que aparece depois dos 30 é anormal, o fim do mundo como conhecemos… até que tenha estado aí por uma década, quando começa a parecer normal”.

com maiúsculas nos lugares certos e tudo, o parágrafo acima é uma tradução livre [minha, neste texto da superinteressante] de uma frase de douglas adams sobre como o mundo muda e como a percepção e atitude dos mais velhos é diferente dos mais jovens. o artigo é de setembro de 2009 e fala sobre crianças em rede, no tom do trecho abaixo…

…as crianças estão usando a “rede” como parte essencial de suas redes, como extensão da escola, conexão com familiares distantes, diversão, e por aí vai. Segundo, quem nasce em rede vive em rede; é como aprender a ler: tirante raros casos, ninguém desaprende. No futuro, todo mundo estará em rede, em todo lugar, o tempo todo, para todas as coisas.

a idéia geral é que crianças que nasceram “na” rede, nos tempos e com os meios e ferramentas de rede, vão viver em rede; para elas, a rede será sempre parte essencial da infraestrutura de seu mundo e vida, como a atmosfera, água encanada, eletricidade e esgoto.

isso não significa que quem nasce em lugares onde há rede de verdade [ou seja, onde todos, pelo menos os mais jovens, têm acesso à rede] vai viver o tempo todo “na” rede. este “na” quer dizer fazendo coisas “de” rede e, o tempo todo ou boa parte dele, tendo “a” rede como seu principal foco de atenção ou preocupação.

claro que isso vai acontecer com um número de crianças e jovens, que vão se tornar cientistas e engenheiros “de” redes, assim como um número de pessoas que se interessa por eletricidade e os problemas por trás de sua geração e distribuição se torna engenheiro elétrico. nada mais normal, não?

mas a vasta maioria, quase a totalidade das pessoas, vai estar “em” rede e não “na” rede. o que não deveria surpreender ninguém. mas é bom saber que tal percepção sobre a rede vem sendo confirmada, como mostra o  spiegel neste fim de semana, citando estudos variados, inclusive um bastante extenso do hans bredow institut [de 2009; link]. segundo o spiegel, análises de comportamento juvenil em vários países estão descobrindo o que parece óbvio mas que é bom ver confirmado: apesar de passarem o tempo todo conectados, os jovens não acham que a rede “é” a coisa à qual deveriam estar dedicando a maior parte de sua atenção. relevantes, mesmo, são as coisas que a rede possibilita, como melhorar as conexões que levam a passar mais tempo, de melhor qualidade, com os amigos.

mais interessante, de acordo com rolf schulmeister, é que a vasta maioria dos jovens está e se sente “em casa” na rede, mas o nível médio de proficiência no uso das ferramentas da rede é muito baixo… e só uma pequena minoria consegue usar toda a riqueza da rede a seu favor. e olhe estamos falando da alemanha, onde 98% dos jovens entre 12 e 19 anos está “em” rede e online por 134 minutos por dia, em média.

independentemente de idade e lugar, que percentagem da população [ou dos adolescentes] realmente sabe usar google, só pra falar de algo que parece universal? quantos sabem que a busca allintitle: meira retorna somente links que contém as palavras “” e “meira” no título da página? clique aqui para ver parte do que dá para fazer com google, para ter uma idéia do que é preciso aprender para se considerar competente na rede…

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o problema [digital] de verdade, para todos [jovens inclusive] parece ser como usar a rede de forma produtiva; este link tem uma boa revisão da literatura sobre o assunto. um deles é um estudo da british library concluindo que

…the information literacy of young people has not improved with the widening access to technology: in fact, their apparent facility with computers disguises some worrying problems…

…a fluência informacional dos jovens [como um todo] não melhorou com o amplo acesso à tecnologia… e sua aparente familiaridade computacional esconde alguns problemas preocupantes. e isso pode muito bem ser o caso, especialmente no cenário mais específico de aprendizado online tratado pela british library em seu estudo.

seja como for, temos um bom [e velho] problema: os estudos mostram que os mais jovens estão “em” rede e não “na” rede, o que é uma boa notícia; por outro lado, as mesmas análises dizem que, excetuando uns poucos, a vasta maioria tem que estudar e praticar muito para ter a rede como parte de sua infraestrutura essencial de [alta produtividade para] aprendizado.

o bom e velho problema, no caso, é que sempre foi assim. se não fosse, todo mundo que nasceu depois de 1927 saberia tudo de mecânica quântica simplesmente por existir. como sabemos, a vida é um pouco mais complicada do que isso. é preciso tentar, errar e aprender, em teoria e na prática, para saber das coisas. quando funcionam de forma efetiva, os mecanismos sociais para tentar, errar e aprender estão consolidados ao redor do que costumamos chamar de sistema educacional.

na alemanha, na inglaterra e aqui, o que está faltando, no mundo real da escola [“em” rede], em larga escala, são processos estruturantes [e nem tão estruturados…], em larga escala, para as pessoas [jovens e nem tanto] aprenderem “em” rede, “com” e “na” rede. como a olimpíada de jogos e educação, por exemplo, parte do sistema educacional [em pernambuco e no rio de janeiro] que sai da sala de aula para casas e lanhouses, alargando a criação de oportunidades de aprendizado para todas as horas, em todos os lugares. se cada vez mais coisas com essa ocorrerem, a rede, que já é o maior ambiente de aprendizado que já existiu, vai ser muito mais importante e maior que isso.

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