por Silvio Meira

google: agindo como monopólio

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os resultados do crescimento de audiência na web, a ponto de começar a se tornar o monopólio, de fato, de busca na rede, estão começando a afetar o comportamento de google e a por, em sério risco, o motto [don´t do evil] da companhia. o new york times publicou no último fim de semana uma reportagem de joe nocera [grátis, aqui, no iht] sobre uma pequena companhia [sourcetool.com] que estava faturando [em 2006] cerca de 600 mil dólares por mês [500 mil pagos a google por uso de adSense, 100 mil de lucro] e está indo pro espaço porque google resolveu mudar os lances mínimos para os anúncios que a sourcetool usava… para algo entre 20 a 200 vezes mais do que o valor usual.

a razão, explícita? gente de google disse a dan savage, o carinha por trás de sourceTool, que sua página tinha uma má "landing page quality", ou seja, que as páginas de seu site, um diretório de 700 mil empresas destinado a buscas de negócios, eram, digamos, ruins. savage passou os últimos dois anos tentando rever as decisões de google sobre lhe cobrar mais porque sua página era "ruim" e, ao receber a resposta final, de que deveria "parar de importunar nosso pessoal", resolveu seguir o caminho padrão para lidar com monopólios.

o que significa que a sourceTool entrou com uma carta-queixa no departamento da justiça americano. segundo savage e seu advogado… "Google can use AdWords to pick winners in every category… Google’s conduct is plainly consistent with acts of monopolization and attempted monopolization… Google has achieved and maintained its market share through anticompetitive exclusionary conduct…" ou seja, o gigante de busca na rede pode decidir a quem promover como resultado de sua máquina de publicação de anúncios, está agindo como monopólio ao fazer isso e está mantendo seu mercado "às custas de práticas que excluem a competição".

tal tipo de acusação, no brasil, teria muito pouco resultado. nos estados unidos, onde a at&t, ibm e microsoft, só pra falar de três empresas do setor de tecnologias da informação que já comeram o pão que o diabo amassou nas mãos dos reguladores de mercado de lá, é bom google botar as barbas de molho. mais cedo do que tarde, neste ritmo, o bicho vai pegar.

googleisevil.jpge esta história de "don’t do evil" sempre foi um conto da carochinha para ingênuos. companhias abertas, sob demandas de um mercado voraz como o americano, tentando criar o que os analistas chamam de "shareholder value", quase sempre terão uma atitude monopolista, de eliminação da competição e conseqüente [na opinião de seus gestores] maximização de lucros. pelo menos até que os órgãos reguladores intervenham.

e o clamor por uma intervenção começa a aparecer: a association of national advertisers, que reúne companhia que gastam, juntas, mais de US$100B por ano em anúncios, acaba de escrever uma carta-queixa, também endereçada ao departamento de justiça, solicitando que o acordo google-yahoo para gerenciar anúncios em conjunto seja pura e simplesmente rejeitado. e a razão é cristalina: os dois, hoje, dominam 90% do mercado de anúncios de busca. o mundo pode até ter conseguido uma microsoft monopolista, por falta de atenção, no passado. mas parece que não está muito afim de uma segunda, desta vez na web.

Sobre o autor

Silvio Meira

silvio meira é cientista-chefe da TDS.company, professor extraordinário da CESAR.school e presidente do conselho do portodigital.org

por Silvio Meira
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Pela Rede

silvio meira é PROFESSOR EXTRAORDINÁRIO da cesar.school, PROFESSOR EMÉRITO do CENTRO DE INFORMÁTICA da UFPE, RECIFE e CIENTISTA-CHEFE, The Digital Strategy Company. é fundador e presidente do conselho de administração do PORTO DIGITAL. silvio é professor titular aposentado do centro de informática da ufpe, fundou [em 1996] e foi cientista-chefe do C.E.S.A.R, centro de estudos e sistemas avançados do recife até 2014. foi fellow e faculty associate do berkman center, harvard university, de 2012 a 2015 e professor associado da escola de direito da FGV-RIO, de 2014 a 2017.

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