SILVIO MEIRA

hologramas + ultrassom = 3D virtual, tátil

tem dias que a gente acorda em um lugar qualquer do planeta [recife, por exemplo], sai disparado de casa pra um aeroporto, pega um avião e voa algumas horas, chega em algum outro aeroporto [como guarulhos], atravessa uma cidade já engarrafada, só pra estar numa reunião. de poucas horas. ao fim do dia, faz o caminho de volta, tanto ou mais apressado, atrasado e engarrafado. e estressado. muito.

vez por outra, e nunca de livre e espontânea vontade, tal conjunto de eventos desaba sobre minha já complicada existência. em tempo corrido, é acordar em recife às quatro e meia da manhã, ir e voltar a são paulo e chegar em casa, de volta, perto ou depois da meia noite, coisa de 20 horas de correria. muitas vezes, por causa de duas, três horas de reunião.

do ponto de vista pessoal, estamos falando de pelo menos um dia de ressaca depois. ambientalmente, é insustentabilidade pura. mover um corpo de ida e volta entre dois lugares distantes tem uma pegada monstruosa. só quando é impossível evitar o movimento é que, no meu caso, aceito tal tipo de viagem. e, tanto quanto posso, ando plantando minhas árvores, muitas, pra compensar minhas andanças.

só que o mundo inteiro funciona assim. uma boa parte da população dos aviões, em qualquer lugar, é de executivos em viagens curtas, tipo bateu-voltou. a pergunta é: há alternativas, agora? a resposta é: de qualidade, não. sabemos do estado da arte [ou do desastre] que é a nossa infraestutura de rede. garantir conectividade, de boa qualidade, numa reunião de gente de vários cantos do país e do planeta… é uma temeridade. isso usando as interfaces que temos hoje, bidimensionais, todo mundo embutido na tela.

mas e no médio prazo? bom, algum dia a rede vai ser resolvida. a internet parece, hoje, com a eletricidade em taperoá-PB, na década de 50, provida pelo que se chamava de um “motor”, na verdade um gerador. agora como na época da “luz e força” de taperoá, a rede tá quase sempre ligada. se podemos ou não usá-la como queremos –ou melhor, como nos é vendida e pela qual pagamos- é outra história.

mas uma coisa é certa: a rede será ubíqua [presente em todos os lugares e o tempo inteiro] e de qualidade. é só uma questão de tempo. foi assim com eletricidade, vai ser assim com a internet. porque tudo o que fazemos, hoje e daqui pra frente, depende destas duas redes funcionarem devidamente. e isso significa que elas irão funcionar.

resolvido [!] este detalhe nem tão pequeno assim, o problema se desloca para as interfaces: será que vamos usar, pra sempre, os modelos e sistemas de interação bidimensionais e limitados que temos hoje? ou evoluções deles?

a resposta é não. quer imaginar por que? clique no vídeo abaixo [vindo deste link], demonstração de um sistema experimental da universidade de tóquio, denominado airborne ultrasound tactile display, um tipo de interface que combina um holograma [projeção em terceira dimensão] e um fenômeno de ultrassom [ultrasound acoustic radiation pressure] capaz de criar uma sensação de pressão no usuário sem diminuição da qualidade do holograma. observe, perto do fim do vídeo, os pingos de chuva virtual “batendo” na mão do observador… muito legal.

 

resultado em potencial? no caso das nossas reuniões de trabalho [ou aulas e o que mais precisar juntar gente no mesmo lugar] cada um fica em sua cidade, cada um é projetado no lugar onde cada outro está, todos e cada um são simulações tridimensionais com grau de verossimilhança muito alto e… poderíamos, por exemplo, apertar as mãos uns dos outros, a distâncias quaisquer. e aí, de fato, teríamos encontros verdadeiramente virtuais e de boa qualidade, sem ir, de verdade, pra lugar nenhum.

isso sem falar nos outros tipos de aplicações óbvias para tais interfaces, como jogos. imagine seu game predileto, de hoje, holográfico, reativo e tátil, dentro de alguns anos. tomara que não seja preciso esperar muito.

vai acontecer? deste jeito? ninguém sabe, claro. ainda estamos bem no começo da pesquisa e do desenvolvimento científico e tecnológico nesse campo. mas a pressão ambiental vai exigir soluções sustentáveis para os encontros de negócios e, mais cedo ou mais tarde, além de reuniões, haverá férias e passeios virtuais. é só uma questão de tempo.

e ninguém precisa se apavorar [como sempre é o caso] e achar que o mundo vai ficar mais frio, que as pessoas irão se isolar cada vez mais quando tais sistemas e serviços estiverem disponíveis. não. mas que ia ser muito legal, a um pequeno custo adicional, dar uma voltinha de alguns minutos, sempre que desse na telha, por londres, lisboa, san francisco, paris e taperoá, sem sair de casa, isso ia.

sem falar, no mais longo prazo [ponha muitas décadas ou séculos na conta], de sistemas com esta inspiração [muito mais capazes e sofisticados] virem a ser a única forma de mortais comuns, como eu e você, leitor, darmos uma voltinha em marte, vênus ou algum planeta em beta canum venaticorum. mesmo porque, numa lata de sardinha espacial, eu não tô muito afim de ir nem um pouco perto disso.

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Silvio Meira é cientista-chefe da TDS.company, professor extraordinário da CESAR.school e presidente do conselho do PortoDigital.org

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