por Silvio Meira

o brasil e os crimes "cibernéticos"

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os senadores que integram a cpi da pedofilia vão pedir ao presidente da república a criação de uma divisão especial da polícia federal para investigação de crimes “cibernéticos”. a preocupação é legítima, face ao uso intensivo da rede por pedófilos no mundo inteiro. mas é também uma clara indicação de que ainda não percebemos a intensidade da mudança que está sendo realizada, na sociedade, pela tal da “cibernética”.

isso porque ainda não entendemos que a internet, ou a infra-estrutura, serviços e aplicações [baseadas em tecnologias da informação e comunicação] que conectam o mundo, hoje, e que se costumava chamar de “cibernética”, há alguns anos, é a nova plataforma de programação, de interação, de serviços, de criação e construção de empreendimentos sobre a qual a maior parte da sociedade já está funcionando. inclusive o crime, organizado ou não.

e a internet, no futuro próximo, será ubíqüa e pervasiva; vai estar em todas as coisas, em todas as ações e em todos os lugares e o tempo todo. como eletricidade, hoje. eletricidade está universalizada. informática [provavelmente com o nome de internet, por algum tempo] vai na mesma direção e sentido e não vai levar muito tempo pra chegar lá. e o crime segue junto. já temos, hoje, “investidores” especializados em treinar, financiar e se beneficiar de quadrilhas que roubam bancos somente pela rede. o crime, aí, tem tanto de “cibernético” quanto de “elétrico”: a quadrilha usou os dois para roubar o banco e a polícia federal não precisa de uma divisão especializada em crimes que usam eletricidade para achar os culpados.

o que precisamos é treinar todas as polícias, e não só a federal, e todas as pessoas dentro delas, para viver e trabalhar dentro de um novo contexto, de uma forma de viver e trabalhar em rede, onde todas as coisas, pra melhor ou pior, vão ter algum componente de rede. e a rede vai desaparecer, tornar-se invisível, passar a fazer parte da infra-estrutura da sociedade e tudo, crime ou não, vai ser cometido no “ciber-espaço”. o “espaço”, hoje, já é em boa parte “ciber”, razão pela qual o nome ciber-espaço está em franco desuso. não faz mais sentido. em lugar nenhum. o novo [e velho] nome do ciber-espaço é, pura e simplesmente, espaço.

mas há pelo menos uma razão para que haja uma divisão de hackers na polícia federal. a rede em si é, e vai ser, uma fonte de problemas. uma parte das polícias deveria se preparar para investigar crimes perpetrados na rede, contra a rede, seus provedores, usuários e seus direitos e deveres, ininteligíveis para o cidadão e policial comuns e passíveis de combate e controle apenas pelos experts no assunto. algo similar, em espírito, à investigação de fraudes nas bolsas de valores e no mercado financeiro em geral.

pra começar, bem que uma divisão de hackers da pf, combinada com o ministério público federal, poderia começar a enquadrar as práticas de certos provedores e teles que, apesar de nos venderem X megabit/segundo, sem restrições contratuais, passam a escolher os megabits que devemos ter nas nossas telas, desacelerando sites como youTube, num claro rompimento do contrato com os usuários e cassação de seus direitos líquidos e certos, sem que ninguém tenha feito nada de prático contra tal tipo de assalto até hoje. vai ver, com os federais na jogada, o direito dos usuários começaria a ser restaurado e respeitado.

Sobre o autor

Silvio Meira

silvio meira é cientista-chefe da TDS.company, professor extraordinário da CESAR.school e presidente do conselho do portodigital.org

por Silvio Meira
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Pela Rede

silvio meira é PROFESSOR EXTRAORDINÁRIO da cesar.school, PROFESSOR EMÉRITO do CENTRO DE INFORMÁTICA da UFPE, RECIFE e CIENTISTA-CHEFE, The Digital Strategy Company. é fundador e presidente do conselho de administração do PORTO DIGITAL. silvio é professor titular aposentado do centro de informática da ufpe, fundou [em 1996] e foi cientista-chefe do C.E.S.A.R, centro de estudos e sistemas avançados do recife até 2014. foi fellow e faculty associate do berkman center, harvard university, de 2012 a 2015 e professor associado da escola de direito da FGV-RIO, de 2014 a 2017.

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