aproveitando a decisão do supremo sobre a inexigibilidade de diploma para exercício das profissões de jornalismo, este blog está publicando uma série de textos sobre o tema, tratando o problema mais geral: que profissões deveriam ser regulamentadas? e que outras, especialmente no caso brasileiro, deveriam ser desregulamentadas? o primeiro texto da série está neste link; o segundo está aqui, clicando aqui você chega no terceiro e, hoje, publicamos o penúltimo; a série termina na quarta-feira que vem: sintonize.

já que estamos falando de regulamentação de profissões e que isso, no brasil, se liga quase que diretamente à reserva de mercado para portadores de diploma de curso superior, que tal ver de perto o caso da estatística, que conseguiu sua carta de acesso ao rol das profissões com reserva de mercado há 45 anos? vamos compará-la com a matemática –que não é regulamentada, em um item fundamental para qualquer área, a atração de alunos para os cursos universitários [de graduação].

há 42 cursos de graduação em estatística no brasil, segundo os últimos dados oficiais publicados pelo inep, relativos a 2007 [clique no link para pegar um .xls sobre todos os cursos]. matemática, pelo mesmo relatório oficial, tem 82 cursos. em 2007, estatística ofereceu 2.276 vagas no país inteiro, para 5.674 candidatos, mas apenas 1.407 se matricularam no primeiro ano. o número de matriculados em todos os anos do curso, em 2007, era 6.172.

em 2007, os cursos de matemática ofereciam 5.984 vagas para 13.338 candidatos, dos quais 3.571 se matricularam no primeiro ano. o número total de matriculados, em 2007, era 14.529.

ainda em 2007, estatística graduou 719 alunos, ao tempo em que 2.217 se formaram em matemática. a razão formados/matriculados, em estatística, é 11.6%. esta taxa é uma medida essencial da atratividade do curso e do diploma em profissões reguladas e, num curso de quatro anos, o ideal seria 25%: a cada ano, 1/4 dos alunos se forma. em matemática, também um curso de quatro anos, a razão f/m é 15.3%, 32% superior à de estatística.

a conclusão [parcial] dos dados e cálculos acima é que depois de 45 anos de profissão de estatística regulada e exigindo diploma, a área 1] tem a metade do número de cursos de matemática; 2] estes cursos têm 42% do número de alunos de matemática e, mesmo com estatística regulamentada, 3] matemática, não regulamentada, tem uma performance de diplomação, sobre o corpo de alunos, 32% maior.

parte da explicação é que estatística é uma linguagem, assim como matemática. e tá cheio de gente fazendo estatística, em todo canto, sem “ser” estatístico. entre os que “estão” estatísticos ora sim, ora não, aqui e ali, há engenheiros, sociólogos, médicos, nutricionistas, economistas , personal trainers… em suma, todo mundo que precisa fazer [por exemplo]experimentos e análise de dados [entre muitos outros usos das habilidades da área]. o general castelo branco regulou a profissão de estatístico mas a lei 4.738/65, na prática, “não pegou”.

estatística, como já se disse, é uma formação-meio, assim como matemática. mas isso não quer dizer que não deva haver profissões diretamente associadas à formação de estatístico ou matemático. muito ao contrário. quer dizer que estatística teria muito mais a ganhar se, da mesma forma que matemática, deixasse de exigir diploma para o exercício da profissão. e o mesmo é verdade para todas as formações-meio.

agora pense: se isso tudo faz sentido, porque é que a câmara federal acabou de aprovar [e enviou para o senado] a profissão de repentista? se a coisa vingarcantadores e violeiros improvisadores, os emboladores e cantadores de coco, os poetas repentistas e os contadores e declamadores de causos da cultura popular, e, finalmente, os escritores da literatura de cordel… terão que se registrar num órgão de classe e estar sujeitos a regras similares aos músicos. como estes têm que fazer exames… é capaz de haver vestibular de rima para os cantadores, com taxas a pagar e tudo, porque haverá uma “entidade” a ser sustentada.

o brasil, do ponto de vista das profissões e do trabalho, está preso a princípios, conceitos, práticas e legislação que parecem estar fundeados no séc. XIX, ao invés de preparados para nos tornar mais competititivos no séc. XXI. e isso faz com que a lógica de regulamentar profissões funcione assim: mas… a profissão de fulano não é regulamentada?… então a minha também tem que ser!.. sem que se pense, antes, que a profissão de fulano, pra começar, talvez devesse ser desregulamentada, como foi o caso de jornalismo.

ocorre que há um grande número de parlamentares à procura de projetos [e votos] e a regulamentação de uma nova profissão não passa pelo plenário, mas por apenas duas comissões. isso faz com que as casas legislativas se tornem um terreno fértil para plantar e colher profissões como a de repentista ou [entre muitas outras, em andamento na câmara] grafólogo, ecólogo, capoeirista, cuidador de pessoa, garçom, sommelier, cerimonialista, depilador, modelo, fotógrafo, pedagogo, psicopedagogo, instrutor de trânsito, geofísico e… astrólogo. esta última, se aprovada, precisará de diploma e registro sindical pra exercer o ofício [definido aqui]. próxima vez que consultar uma mãe dinah, o leitor deve lembrar de pedir diploma, carteirinha e anuidade em dia.

muito bem. este blog é relacionado a tecnologia; e esta discussão, o que tem a ver com informática? muito. e é exatamente isso que vamos discutir, pelas nossas previsões, no último capítulo da série, na próxima quarta-feira, aqui neste espaço-tempo.

até lá. aguarde. e assine nosso RSS pra estar a par do que vai acontecer aqui.