O metaverso vai começar “discado”. E isso é bom. Porque significa que vai ser criado e acontecer paulatinamente. Não vai rolar um big bang vindo de algum laboratório, ou empresa e… presto!… chegou o metaverso. Vai ser como a internet, ou qualquer outra plataforma complexa e distribuída que o mundo já viu, desde sempre.

Quando os carros chegaram, não foram como e tampouco se pareciam com os que temos e usamos hoje. O primeiro, de 1885, o Benz Patent-Motorwagen [bit.ly/3yxKAJv] era um triciclo, com transmissão a corrente, sem capota e de um só banco. A direção e freios… só vendo. Não foi por isso que Bertha Benz deixou de fazer a primeira viagem entre cidades na terceira versão da invenção: em 1888, com os dois filhos, dirigiu os 106km de Mannheim a Pforzheim, uma excursão de beta-teste e marketing, que rendeu evolução e adaptação ao veículo e, como Bertha havia pensado, vendas.

O carro, “discado”, de Bertha era um MVP -um produto minimamente viável- e não um protótipo dos veículos atuais… que tinha quase nada a ver com o que temos nas ruas, hoje, mas fez o papel de demonstrar que era possível -e com muitas vantagens- sunstituir os veículos a tração animal. É importante notar que o carro dos Benz não propunha nada radicalmente diferente em termos de possibilidades. A versão 3 do MVP levou do nascer ao pôr do sol, num agosto, para percorrer 106km; um coche puxado por uma parelha de cavalos faria a mesma viagem, no mesmo tempo… sem que parte dos ocupantes tivessem que descer do veículo para empurrá-lo nas subidas.

Mas hoje são quase século e meio depois do começo do “carro” Bertha e Carl, e o sobrenome deles é história da indústria automotiva mundial. E já é mais de um quarto de século depois do começo da internet “discada”, que herdou o modo de conexão via modem de baixa velocidade dos BBS [Bulletin Board Systems, bit.ly/3RlPAts] dos anos 1970, por sua vez oriundos dos modems da década de 1950, que funcionavam [como o Bell 101, bit.ly/3yQbUTN] na fantástica velocidade de 110 bit/s.

Mas e o metaverso, “discado”? O que está sendo proposto como experiência, ainda nem como fluxos, lá, é o equivalente ao emeio como “caso de uso” no começo da internet: fazer com o novo, uma nova plataforma, uma coisa velha, “mandar cartas”. Para o metaverso, não estamos nem seguindo a Lei de Amara [bit.ly/3AHWgfA]: “tendemos a superestimar o efeito das novas tecnologias no curto prazo, e subestimar o mesmo efeito no longo prazo”. Isso porque tá cheio de gente por aí anunciando que já estamos no metaverso, não o “discado”, mas a coisa mesmo, pronta de verdade.

Mas será que faz sentido pensar num metaverso do qual nos participamos com apenas dois sentidos [visão e audição] associados a teclado e mouse? Claro que não. Mesmo só com dois sentidos, é um óculos de realidade virtual de meio quilo que será nossa interface com o mundo visual de um metaverso? Claro que não.

Acontece que um mundo de gente que está falando do metaverso parece estar deixando de lado que os “óculos” -uma invenção do séc. XIII- são parte do “discado” do metaverso… até porque quase certamente iremos ver [e interagir com] o mundo virtual usando lentes de contato [antes de implantes cerebrais, claro, lá quando o metaverso deixar de ser “discado”]. A lente [bit.ly/3yxB9Ka] da imagem abaixo tem um ARM M0 e um display de micro LEDs de14.000 pixels por polegada… monocromático, e verde. Na época da internet discada, quase todas as telas eram… monocromáticas. Verdes!… Será que essa é a lente do futuro do metaverso? Se for, ainda é “discada”…

Essa série continua. O próximo episódio, “O que é?… E onde fica o metaverso?” está no link… bit.ly/3IFX5aU.

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Eu vou dar um mini-curso sobre o METAVERSO na academy.TDS.company começando no dia 3 de agosto. Muito mais conceito do que hype, muito mais hipóteses do que certezas, mas muito mais realidade do que virtual, pra gente discutir como chegar de verdade, MVP a MVP lá no metaverso, a partir de agora. Vá ver; não há pré-requisitos, todos são bem vindos.