por Silvio Meira

o que aconteceu
no TSE ontem?

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PELA PRIMEIRA VEZ em muitos anos, o BRASIL teve a impressão de que alguma coisa poderia estar errada no seu processo eleitoral, e isso aconteceu ontem. duvidamos da eficiência do TSE, e com razão, porque durante horas, a apuração parecia parada.

DE NADA ADIANTOU, para o grande público e os comentaristas, a explicação oficial de que estava tudo bem e sob controle, só o resultado não podia ser mostrado ainda. foi mais ou menos como se a partida de futebol tivesse terminado e ninguém soubesse quem ganhou, apesar de estar “tudo certo”.

e houve uma época em que o futebol brasileiro era assim: rolava o jogo e, depois, disputava-se a decisão nos tribunais. vamos convir que os campeonatos eram impossíveis, ao ponto de até os cartolas terem chegado à mesma conclusão e organizado as competições de forma mais racional.

HÁ QUEM DIGA que o problema do atraso na divulgação dos resultados se originou há já algum tempo, em gestão passada, quando se tomou a decisão -contra todas as boas práticas de sistemas de informação em tempos de rede digital- de centralizar o processo em brasília.

ainda segundo as mesmas fontes, tal arranjo diminuiria os custos do sistema. ao mesmo tempo em que, diria eu [velho professor de engenharia de software], tiraria uma nota bem baixa se fosse uma prova de sistemas de informação num curso de graduação.

ainda mais se a solução encontrada para centralização estivesse sujeita a pontos singulares de falha, ou seja, se dependesse do funcionamento de 100% de seus componentes para que a contabilidade e divulgação dos resultados ocorresse com a celeridade que o brasil sempre esperou do TSE.

CENTRALIZAR UM PROCESSO informacional E criar -ou deixar que ele tenha- pontos singulares de falha não só leva a notas baixas em disciplinas de arquitetura, organização, performance, confiabilidade e resiliência de sistemas de informação, é reprovação na certa.

MAS FOI ESSA EXPLICAÇÃO que ouvimos ontem. para todos os efeitos, nos foi dito que -por alguma razão- cuidados que deveriam ser elementares -considerando a natureza e criticidade do sistema em pauta- não foram tomados.

sem desacreditar a fonte, é de deixar incrédulo qualquer profissional de software, hardware, tecnologias de informação em geral… porque o histórico de eficiência do sistema eleitoral brasileiro é muito grande, quase perfeito, apesar de outras críticas que se possa fazer ao processo eleitoral como um todo.

COMO SE NÃO BASTASSE, isso aconteceu em um contexto em que dados capturados numa invasão -aparentemente realizada há algum tempo- a propriedades digitais do TSE foram liberados na web, ação articulada a uma campanha de descrédito do sistema eleitoral. e isso ao mesmo tempo em que se realizava uma campanha de ataques de negação de serviço que afetou a performance de facetas digitais do TSE.

noutra dimensão, os usuários do título digital de eleitor reclamavam que havia dificuldades no uso do sistema para justificar a ausência nas urnas. nesse caso, a resposta do tribunal é que foi o resultado de muitas pessoas tentando usar o aplicativo.

bem… se a abstenção nacional é da ordem de 20%… seriam 30 milhões de faltosos… se 10% deles tentasse justificar o voto… seriam 3 milhões de eleitores… que foi o número de pessoas que havia instalado o aplicativo, segundo o próprio TSE… e não havia provisão para que tal público fosse atendido, digitalmente? é de deixar espantado, de novo, quem trabalha com sistemas de informação em rede.

HÁ MUITA COISA para se investigar, depois de ontem. quem invadiu as propriedades digitais do TSE, por onde passou… e o que levou? capturou só o que publicou na web, ontem? deixou algum malware na rede do TSE e, se esse não foi o caso… como garantimos que não?

quem invadiu estava articulado com quem usou a invasão -e a lentidão- para tentar desacreditar o processo digital de escolha de representantes do povo do qual depende a democracia?… os invasores do TSE estavam associados ou são o mesmo grupo que invadiu o STJ e outros órgãos de governo?… estas são só algumas das poucas e óbvias perguntas que se pode fazer. além delas…

…SERÁ QUE NÃO HÁ uma demanda para revisar a arquitetura, implementação, operação e defesa de toda -ou parte da- plataforma que vimos funcionar de forma tão diferente da norma, ontem?… será que não seria muito melhor, para o país e todos diretamente envolvidos no processo eleitoral se o sistema digital do qual a eleição depende, como um todo, fosse mais transparente, como muitos acadêmicos, políticos e observadores vêm arguindo há décadas?

HISTORICAMENTE, o TSE é uma operação completamente vertical. talvez a única de tal tipo no país. define, regula, desenha, constrói, opera os sistemas [de informação, também] que realizam o processo eleitoral e, se houver alguma dúvida ou conflito em qualquer estágio do processo…. é só recorrer ao próprio TSE.

o TSE estaria muito melhor se assim não fosse: houvesse uma separação entre quem realiza os processos eleitorais e quem os define, avalia e dirime dúvidas… e resolve pendências, o TSE não teria tido que exercer todas essas funções ao mesmo tempo, ontem.

ainda bem que, por tudo que sabemos e imaginamos, não se tratou de algo que afetou as escolhas dos eleitores. mas poderia ter sido. e, sabendo das opiniões e versões que correm nas veias conspiratórias de alguns… mais horizontalidade, mas abertura, mais transparência, em todo o processo, é A vacina para evitar que boatos não se sobreponham a fatos entre os que, de verdade, querem que a plataforma digital do sistema eleitoral do brasil seja a melhor. do mundo.

Sobre o autor

Silvio Meira

silvio meira é cientista-chefe da TDS.company, professor extraordinário da CESAR.school e presidente do conselho do portodigital.org

6 comentário

  • Silvio, me parece que fazemos muitas vezes bem o DEV e deixamos o OPS relegado. Mesmo agora com novas abordagens como DEVOPS isso pode acontecer (presenciei isso muito no passado). O caso do aplicativo CAIXA Tem me parece outro exemplo a ser estudado. Acrescentaria, além dos aspectos que você mencionou, como (re)modelagem arquitetural, disciplinas como planejamento (muito pensado e intensivo em todos os níveis) e teste de software sistêmico e operacional (incluindo infraestrutura). Vamos aprendendo…

  • Mais interessante é que o presidente do TSE atribui a culpa para a Polícia Federal e que o prazo de entrega do resultado era assunto jornalístico!

  • Na minha visão, não se pode garantir a imparcialidade das urnas eletrônicas.
    O código de programação que é executado nas urnas está disponível para, qualquer um, a qualquer momento, poder analisá-lo? Quantas pessoas tem acesso e conhecem estes códigos?
    Se o código não está aberto, não se pode garantir que este software seja confiável!
    Quem tem acesso a este software pode colocar mecanismos para mudar os resultados e como o software não pode ser amplamente analisado, não há como identificar estes mecanismos.

    • Sim, o código é aberto. Universidades, partidos políticos, PF, MP e mais alguns. Tem acesso integral ao código fonte.

    • Nao ha meio de GARANTIR que um software seja confiavel, seja ele aberto ou fechado.
      A unica coisa que se pode garantir é quando nao é, quando um bug ou falha é encontrado, conhecido.

por Silvio Meira

Pela Rede

silvio meira é PROFESSOR EXTRAORDINÁRIO da cesar.school, PROFESSOR EMÉRITO do CENTRO DE INFORMÁTICA da UFPE, RECIFE e CIENTISTA-CHEFE, The Digital Strategy Company. é fundador e presidente do conselho de administração do PORTO DIGITAL. silvio é professor titular aposentado do centro de informática da ufpe, fundou [em 1996] e foi cientista-chefe do C.E.S.A.R, centro de estudos e sistemas avançados do recife até 2014. foi fellow e faculty associate do berkman center, harvard university, de 2012 a 2015 e professor associado da escola de direito da FGV-RIO, de 2014 a 2017.

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