Trabalho e emprego globais estão sob grande impacto da pandemia e da transformação digital da economia, em que a primeira é o contexto indesejado que acelera a segunda, há muito tempo inevitável. DESaprender, APRENDER e REaprender serão fundamentais para todos os que ainda vão chegar ao mercado e os que já estão lá -ou de lá saíram por variadas razões, inclusive forçados pela pandemia.

A escola tradicional, suas salas de aula, seu conteúdo, métodos e processos de criação de oportunidades de aprendizado têm pouca chance de sucesso no necessário redesenho das competências e habilidades que já estão em demanda em mercados de trabalho cada vez mais habilitados por plataformas digitais. Vamos precisar de uma escola transformadora, figital[1], como os mercados. Até porque seria muito estranho se a escola do passado conseguisse criar as performances do presente e, principalmente, do futuro, agora.

No futuro, que já começou há algum tempo, algoritmos e robôs realizarão atividades, mais do que suprimirão empregos diretamente. Estima-se que metade das tarefas hoje realizadas por pessoas, na economia, será automatizada no próximo quarto de século, causando a perda de muitos postos de trabalho. Quantos? Não se sabe ao certo; estimativas de 2019 apontavam para até metade dos empregos sendo deslocada[2].

Mas COVID19 está aumentando o volume, variedade e velocidade das transições para novas ocupações ainda nesta década. Muitos empregos cortados na pandemia não serão recriados, porque o vírus catalisou [grandes] redesenhos nos arranjos produtivos[3]. E mudanças que muitos esperavam para um futuro distante já estão acontecendo agora.

Como se não bastasse, o grande impacto de inteligência artificial [IA] no trabalho e emprego não será causado por um big bang de sistemas de informação com “inteligência humana”, mas por tecnologias “mais ou menos”, que cuidam de tarefas repetitivas e podem ser implantados com baixo atrito e custo[4], até em organizações de médio e pequeno porte.

COVID19 acelerou tal desenvolvimento e RPA [ou automação “robotizada” de processos] é uma das famílias de ferramentas de baixo atrito e custo cuja penetração tem se acelerado muito nos últimos meses.

E não é necessário o concurso de IA para se ter um bom RPA; basta substituir -por software- parte da atividade recorrente que humanos, usando scripts que muito se assemelham a programas de computador, já executam para interagir com outros humanos ou sistemas.

A presença e acesso ao espaço físico, o escritório, a inércia e a necessidade de investimento eram barreiras que diminuiam a velocidade de adoção de soluções que, como essa, tornam ainda mais veloz o deslocamento do trabalho e do emprego, principalmente o que envolve manipulação simbólica. E não era isso o que todos esperavam…

O imaginário da ficção sempre foi de robôs humanóides assumindo papéis variados nas nossas vidas e trabalho, do assistente em casa ao policial na rua, passando por tudo ao redor.

A realidade, e já hoje, é de sistemas de informação -bem mais simples do que se pode imaginar- escondidos em servidores na nuvem, a capturar dados, preencher formulários e realizar cálculos nem tão simples, enquanto “conversam” com você no WhatsApp e “deslocam” o trabalho de humanos que faziam, até há pouco, as mesmas operações… simples e repetivivas. Se o seu trabalho parece com isso, se cuide: um robô está se candidatando à sua vaga.

[1] A escola figital; strateegia.blog, DEZ/2020: https://bit.ly/2McD7eH.

[2] Um futuro de empregos em colapso, VALOR, NOV/2019: http://glo.bo/2Oy5S2M.

[3] The future of work after COVID‑19, McKinsey Global Institute, FEV/2021: https://mck.co/3qplbMf.

[4] The robots are coming for Phil in accounting, NYTIMES, MAR/2021: https://nyti.ms/38hqr4w.

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Uma versão editada deste texto foi publicada no ESTADÃO em 10/03/21.