por Silvio Meira

Os Velhos Envelopes, Digitais

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Acho que o último envelope que eu recebi e não era um boleto data da década de 1990, salvo uma ou outra exceção, de alguém que resolveu dedicar seu tempo a me escrever umas linhas à mão, em papel “de verdade”, e não num teclado, numa aplicação virtual, e se dar ao trabalho de ir até uma agência de uma das mais antigas empresas do brasil, os Correios, e pagar para me trazerem o conteúdo, analógico, pessoal e guardado com carinho no caos do meu escritório.

Envelopes. Não servem só para esconder cartas. Conspirações. E declarações de amor. Helmuth von Moltke descobriu, no comando do exército da Prússia por 30 anos, que era impossível exercer controle -mesmo que não fosse absoluto- sobre toda uma força armada, dado o tamanho e complexidade que haviam atingido depois de 1850. Descentralização das decisões, iniciativa frente às oportunidades e adaptação para lidar com as dificuldades, no contexto dos desafios reais do dia a dia, era essencial. Era agile devops, em pleno século XIX.

Moltke também concebeu, para os tempos modernos, a teoria do título. O uso de envelopes militares, no espaço-tempo, para cercar e derrotar exércitos. Ao tempo em que uma força fica frente a outra, outras forças, em ações de mobilização, concentração e ataques, cercam o adversário pelos flancos e, criando um envelope ao seu redor, o levam à exaustão. O termo técnico é kesselschlacht, ou batalha do caldeirão. Se der certo, você é o caldeirão. Senão…

Se contássemos ao grande estrategista que plataformas digitais usam a mesma estratégia agora, e ele entendesse o cenário, tenho certeza que acharia a coisa mais normal do mundo.

Há um caminho para disputar a liderança de mercados, entre plataformas digitais, que não depende da inovação: é o envelopamento da plataforma concorrente. Uma plataforma adiciona às suas funções uma funcionalidade de outra e oferece um pacote multiplataforma. Exemplos? No passado, Windows Media Player versus RealAudio: a Microsoft levou tudo, por muito tempo. Mais recentemente? Facebook absorve WhatsApp e elimina [quase] toda a competição em conexão, relacionamento e interação interpessoal no Ocidente.

O preço pago pelo “ataque” de Facebook a WhatsApp foi imenso: US$19 bilhões, por uma plataforma que tinha zero de receita e um imenso custo de infraestrutura e desenvolvimento. Ou foi quase de graça, imaginando o que WhatsApp poderia fazer para “envelopar” Facebook.

Uma das principais razões para o envelopamento de plataformas é consolidar os dados de múltiplas plataformas em uma só e se tornar praticamente monopolista no domínio e tratamento de dados de um ecossistema digital. E isso quase sempre acontece através da fusão de políticas de privacidade, o que Facebook está tentando com WhatsApp, sem sucesso, há algum tempo… mas que mais hora, menos hora, a não ser que os reguladores mudem a magnitude de entendimento do problema e de restrições legais, vai acabar conseguindo.

As [grandes] estratégias de negócios digitais podem ser deliberadas [onde você tenta liderar o mercado] ou emergentes [onde você capta sinais do mercado e tenta envelopar a competição já formada]. A Microsoft já fez isso mais de uma vez, inclusive na grande guerra dos navegadores, quando tentou vingar uma rede própria e fechada que, ao não dar certo, obrigou a empresa a seguir uma estratégia emergente para a Internet, casando Windows e seu browser, Internet Explorer. O que levou a 7 anos de inferno legal e regulatório para a empresa, entre 1995 e 2001.

Mais uma vez, Redmond está no jogo. Depois de uma gestão que pode ser considerada uma das mais desastradas em qualquer grande companhia [de tecnologia] nos últimos 2.000 anos [leia-se Steve Ballmer], a companhia liderada por Satya Nadella anunciou que Windows 11 vai [tentar] envelopar Android, rodando aplicativos desenvolvidos para a plataforma [mais ou menos] aberta de Google de forma nativa na nova versão do seu sistema operacional.

As implicações são imensas; começam por uma convergência [digital] fixo [PCs] e móvel [aplicações para smartphones] e podem levar a um novo espaco competitivo onde não há distinção entre os dois ou entre onde -enquanto plataforma- você roda o que. Se a Microsoft não se perder no caminho, é um passo para mais liberdade e alternativas para os usuários. Por outro lado, muita gente terá toda razão do mundo em por um pé atrás e esperar para ver o que vai acontecer… e se o envelopamento será de Google, ou dos usuários de Android.

Para entender mais sobre envelopamento de plataformas, clique na imagem acima, neste, neste ou neste outro link. O assunto é muito pouco estudado no Brasil, e ainda menos  entre os tantos que, aqui, estão tentando entrar num mercado onde já existe, ou há o potencial de haver, uma plataforma figital quase dominante. Seria muito bom que mais gente, dentro e fora do ambiente de pesquisa econômica, teoria das redes e ecossistemas figitais, soubesse muito mais sobre isso. E seria bom para o país que os reguladores entendessem muito mais do assunto, também. Não só porque, aqui, há muitas tentativas de envelopamento rolando o tempo todo mas porque haverá cada vez mais, daqui pra frente. Boa leitura.

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Uma versão editada deste texto foi publicada no ESTADÃO em 30/06/21.

Sobre o autor

Silvio Meira

silvio meira é cientista-chefe da TDS.company, professor extraordinário da CESAR.school e presidente do conselho do portodigital.org

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por Silvio Meira
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silvio meira é PROFESSOR EXTRAORDINÁRIO da cesar.school, PROFESSOR EMÉRITO do CENTRO DE INFORMÁTICA da UFPE, RECIFE e CIENTISTA-CHEFE, The Digital Strategy Company. é fundador e presidente do conselho de administração do PORTO DIGITAL. silvio é professor titular aposentado do centro de informática da ufpe, fundou [em 1996] e foi cientista-chefe do C.E.S.A.R, centro de estudos e sistemas avançados do recife até 2014. foi fellow e faculty associate do berkman center, harvard university, de 2012 a 2015 e professor associado da escola de direito da FGV-RIO, de 2014 a 2017.

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