por Silvio Meira

pelos celulares [e muito mais]… nas salas de aula

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parece até comemoração do dia da criança [e do adolescente]: o observer, jornal dominical inglês, publicou neste domingo uma entrevista do secretário-geral do principal sindicato de diretores de escola do país, defendendo o fim da proibição de uso de celulares nas salas de aula.

o debate inclui um aluno que teve o celular confiscado e foi expulso da sala ao fotografar o quadro-negro ao invés de copiá-lo no caderno. segundo mick brookes, da national association of head teachers

"He broke the rules, but we need to ask why the ban was put there in the first place. We have to recognise the world that children inhabit, not expect them to leave it at the school gate."

…o garoto quebrou as regras, mas a primeira coisa a fazer é perguntar porque elas foram criadas. temos que reconhecer o mundo em que as crianças vivem, e não esperar que elas o abandonem na porta da escola. afinal de contas, por que mesmo é que se tem que “copiar o quadro”? hoje, principalmente, quando o quadro deveria estar na rede [e nem fotografá-lo com o celular deveria ser o caso]?…

mick brookes vai além, ao comentar a relação entre escola, o sistema e métodos de ensino, as tecnologias da informação e seu uso pelos alunos:

"It is very important that children have an idea of the chronology of historical events, but we expect them to know the precise dates that they happened. Why? Even historians can’t decide among themselves which dates children should learn. If children want the date of the Battle of Hastings, they will google it…" 

em tradução livre… é importante que as crianças tenham uma idéia da cronologia dos eventos históricos, mas nós [o sistema] esperamos que elas saibam as datas precisas em que tais eventos ocorreram. por que? mesmo os historiadores não chegaram a um acordo sobre as datas que as crianças deveriam aprender. e se as crianças quiserem saber a data da batalha de hastings, elas perguntam a google…

isso! brookes comenta e critica uma vasta parte do processo de aprendizado ao qual as crianças são submetidas, ainda hoje, processo este que vem dos tempos em que nem livros havia. sem textos e bibliotecas, cada um tinha que ser sua própria enciclopédia e o período escolar servia para comprimir, no cérebro do aluno, a maior quantidade possível de informação. às vezes, sem qualquer crítica ou reflexão; as coisas eram por que eram.

“aprender” deste jeito, no caso do brasil, significava saber desde a lista dos principais afluentes do amazonas, por margem [você sabe quantos e quais são? e pra que serve isso?], ao que disse goulart no comício da central do brasil e vargas, no dia do trabalho de 1951… e o problema não é só de história e geografia… por que é mesmo que ainda se ensina [como se ensina] tabuada nas escolas?

a tal da tabuada [que está embutida, e muito mais, em qualquer celular, por sinal] é ensinada como se a multiplicação não fosse distributiva. crianças que sabem muito bem quanto é 9×3 e 9×4 fazem um esforço monumental para descobrir quanto é 9×7; vai ver, os professores das primeiras séries nem desconfiam do assunto, provado há milênios.

quando eu era menino, dia da criança era tempo de cantar uma valsa de francisco alves e rené bittencourt, composta em 1952 e tornada ubíqua pelo palhaço carequinha. a canção dizia… Criança feliz, feliz a cantar/ Alegre a embalar/ seu sonho infantil/ Oh! meu bom Jesus,/ que a todos conduz/ Olhai as crianças/ Do nosso Brasil…

pelo que se vê na maior parte do sistema educacional, seus arcaísmos e tecnofobia, parece que, apesar de tão cantada, a música não foi ouvida pelo bom jesus ou nem ele, olhando as crianças de perto, conseguiu mudar o estado de coisas na escola.

ainda bem que há exceções… e uma delas está aqui em pernambuco: a olimpíada de jogos educacionais, uma tentativa em larga escala de aumentar a ludicidade do ensino e estender a escola para muito depois das paredes das salas de aula. tomara que muito mais gente [além das mais de 2.000 equipes que participaram este ano] tenha a oportunidade de, na sua escola, usar mais tecnologia, com mais liberdade, para aprender.

nisso, mick brookes está certo. e mais

"Whatever young people bring into school there is a chance that it is misused in some way… We mustn’t be Luddite about the technology that young people take for granted."

…qualquer coisa que os alunos trouxerem para a escola pode acabar sendo usada de formas não canônicas… [mas] nós não devemos ignorar as tecnologias que fazem parte da vida dos mais jovens.

até porque devemos lembrar que linguagem, qualquer uma, pode ser vista como tecnologia. pela noção e uso serem antigas, não as temos rejeitado no processo educacional, apesar do uso muitas vezes inapropriado na escola. ainda bem.

e tecnologia, no aprendizado, não precisa ser só computação [ou celulares]. que tal usar jogos pervasivos [que podem, mas não necessariamente devem, usar TICs], jogados na cidade inteira, como cryptoZoo e B.U.G.?… as aulas, escola e aprendizado ficariam muito mais interessantes, animados e, sem dúvida, mais eficientes e eficazes.

e as crianças, na escola, poderiam viver realmente mais felizes, a cantar, como na valsinha do rei da voz

Sobre o autor

Silvio Meira

silvio meira é cientista-chefe da TDS.company, professor extraordinário da CESAR.school e presidente do conselho do portodigital.org

por Silvio Meira
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silvio meira é PROFESSOR EXTRAORDINÁRIO da cesar.school, PROFESSOR EMÉRITO do CENTRO DE INFORMÁTICA da UFPE, RECIFE e CIENTISTA-CHEFE, The Digital Strategy Company. é fundador e presidente do conselho de administração do PORTO DIGITAL. silvio é professor titular aposentado do centro de informática da ufpe, fundou [em 1996] e foi cientista-chefe do C.E.S.A.R, centro de estudos e sistemas avançados do recife até 2014. foi fellow e faculty associate do berkman center, harvard university, de 2012 a 2015 e professor associado da escola de direito da FGV-RIO, de 2014 a 2017.

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