por Silvio Meira

pesquisa, desenvolvimento e resultados: conexões?…

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este post é uma espécie de intervalo técnico para a série sobre educação empreendedora aqui do blog. antes deste texto, já foram publicados os "capítulos" 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10, 11, 12, 13, 14, 15,16, 17, 18 e 19; depois, nenhum, ainda. simbora.

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somando os recursos públicos com os da iniciativa privada, o brasil gastou 1,57% de seu produto interno bruto de 2009 em ciência e tecnologia, segundo dados do governo. em reais de 2009, os gastos da década são mostrados abaixo.

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como se vê, tanto os gastos privados como públicos cresceram em valor de forma acentuada desde 2005, e isso correspondeu a um aumento, em termos de percentual de PIB, de mais de 20%.

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ainda não temos os dados para 2010, que pode ter sido tão bom quanto 2009, mas já sabemos que –pelo menos do lado dos financiamentos públicos- 2011 será pior, pois o orçamento do ministério de ciência e tecnologia sofreu um corte de R$1,7 bilhões e não se sabe de onde poderiam vir as compensações que manteriam o investimento nacional em pesquisa e desenvolvimento pelo menos igual ao de 2010, que podemos supor ser da mesma ordem de 2009.

quando se diminui o investimento público em ciência e tecnologia, vem à tona a idéia de que as empresas deveriam investir mais em "pesquisa", como se diz na linguagem dos cientistas.

mas, mesmo em países em que as empresas têm tradição em investir em seus laboratórios, os cortes federais em tempos de crise [como é o caso do desencontro entre compromissos e receitas do governo federal, que tem causa conhecida…] a coisa não é tão simples: na crise européia, o governo inglês detonou parte do orçamento nacional para pesquisa e as empresas e fundações disseram que

The private sector spends around £13bn a year on R&D in the UK, and a significant portion is spent in partnership with universities to fund basic science or to turn ideas into commercial products. But all that investment is dependent on a strong, publicly funded university system…

…boa parte da produtividade dos recursos empresariais destinados a C&T depende do vigor de um sistema universitário de qualidade como eles têm por lá, financiado por recursos públicos. o que as empresas querem dizer, talvez, é o mesmo que constata esta notícia sobre os investimentos das empresas de tecnologias de informação e comunicação nos seus laboratórios.

se o brasil investe menos de 2% do PIB em C&T, sabe quanto investe a microsoft em pesquisa e desenvolvimento? 13,9% de seu faturamento. a nokia? ainda mais: 14,4%. e google? 12,8%. o que os investimentos da microsoft e nokia têm em comum? nenhuma conexão com a participação das empresas no mercado; as duas vêm perdendo compradores, clientes e usuários há anos, mais notadamente a nokia. e google? não há nenhum resultado prático dos bilhões de dólares que a empresa investe anualmente em pesquisa que esteja, hoje, em qualquer linha de receita.

enquanto isso, sabe quanto a apple investe? 2,9% de sua receita. em ciência e tecnologia? nenhum centavo. a apple investe em inovação e desenvolvimento de produtos. comparando, a microsoft gastou mais em pesquisa em 2010 do que a apple em inovação toda a década passada. agora compare as ações de AAPL, MSFT e GOOG no gráfico abaixo e se pergunte em posse de qual delas você queria estar…

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empresas podem fazer ciência, pensada como o avanço do conhecimento, sem restrições? sim, em certos casos talvez até devam, se isso estiver alinhado com sua estratégia de inovação [no caso, de longo prazo].

empresas têm que desenvolver tecnologia? sim, se forem intensivas em tecnologia [e não só de informação e comunicação], é muito provável que não haja como levar certos produtos ao mercado a não ser com um boa dose de investimento próprio em desenvolvimento tecnológico.

mas o que empresas têm mesmo que fazer para sobreviver e, fazendo isso, agregar valor à sua rede de compradores, clientes e usuários e, por causa disso, ao acionista, é desenvolver produtos e serviços que atendam, de forma competitiva e sustentada, demandas do mercado. às vezes demandas que o mercado –e cada indivíduo- nem sabe que tem. afinal de contas, quantos dos milhões de usuários de hoje usuários estavam na porta da apple pedindo, exigindo que ela desenvolvesse um iPad?… bem antes dele aparecer?…

CEOs must be designers, já dizia muito apropriadamente bruce nussbaum, numa escola de design em londres:

I think managers have to BECOME designers, not just hire them. I think CEOs have to embrace design thinking, not just hire someone who gets it. I think many business schools have to merge with design schools, not just play poke and tickle with them.

vá ler o texto de nussbaum. faz todo o sentido do mundo e se aplica, linha por linha, à nossa discussão.

microsoft, nokia e google parecem não ter aprendido nada com o palo alto research center, ou PARC, um dos maiores, mais criativos e mais caros laboratórios de todos os tempos. muitas das tecnologias desenvolvidas no PARC só chegaram ao mercado através de empreendedores que deixaram a empresa e criaram seus próprios startups, como descrito neste artigo.

qual era o problema, no PARC? um monte de gente muito competente, uma montanha –quase infinita- de recursos, oriundos de uma companhia à época muito lucrativa, muito pouca agenda e quase nenhum design de que tipos de problemas e nichos de mercado deveriam ser atacados, explorados ou resolvidos. resultado? PARC deu uma contribuição muito menor do que poderia dar à empresa e, em último caso, muito do que foi investido por lá serviu de semente para a criação de muitas das empresas que tornaram a própria xerox obsoleta.

mãe de todas as tecnologias que criaram as interfaces que usamos na informática mundial, a xerox vale 1/14 da microsoft e 1/21 da apple. aliás, foi numa visita a PARC, em 1979, que steve jobs descobriu o mouse, ícones, janelas e muitas outras das coisas que o laboratório havia inventado a para os quais a xerox não tinha nada em mente. steve, hoje sabemos, tinha.

antes que você vá lá nos comentários dizer que empresas não são países, não é isso que estamos dizendo neste artigo. estamos tentando fazer ver que são as visões, os grandes desenhos de cenários competitivos [ou de resolução de problemas] que criam as agendas de sucesso para o desenvolvimento científico e tecnológico. nos negócios e nos países. parte da indústria de informática que conhecemos hoje surgiu da do desejo americano de ir à  lua; outra parte, do desejo de –e consequente desenho para- criar uma rede de comunicação de dados resistente a tentativas de aniquilação nuclear.

estes desejos eram desenhos –designs, como pode e deve ser o caso de qualquer esforço, nacional ou empresarial, que vá resultar em investimento de unidades, dezenas ou centenas de bilhões de qualquer moeda mundial em conhecimento e suas aplicações.

tais desenhos são passíveis de serem tratados em termos de processos, como o mostrado na figura abaixo. e tal tratamento cria, na maioria das vezes deliberadamente, problemas que levam à descoberta de conhecimento novo, ao avanço da ciência [que às vezes se convenciona chamar de básica], dentro de um contexto que, no caso das nações, está ligado às grandes estratégias nacionais e, no caso das empresas de todos os portes, à sobrevivência.

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mas você é um cientista [no jargão da academia, você faz "pesquisa básica"] e perguntaria: "e a minha liberdade de fazer o que quiser, para descobrir novas fronteiras… e a quantidade de coisas, a partir de tais buscas pessoais por novas fronteiras e fundamentos, que acabou no mercado, revolucionando o mundo e a vida"?…

fique tranquilo, sua liberdade está garantida. se você trabalha mesmo com fundamentos, saiba que só uns poucos por cento de todos os cientistas do planeta são como você e que qualquer sistema de financiamento à ciência, tecnologia e inovação do porte do brasileiro vai levar suas competências e características em conta e nunca lhe irão faltar os meios para realizar seu trabalho.

o danado é que, sob uma capa de estar trabalhando em "ciência", há um grande número de acadêmicos trabalhando em "tecnologia sem cliente", fugindo à sua responsabilidade de atacar problemas de mercado talvez porque complexos ou talvez porque, no recôndito do laboratório, seja mais fácil e efetivo manter aquele fluxo de publicação de trabalhos científicos que lhe garante os galardões e mais acesso a financiamentos para fazer ainda mais "tecnologia sem cliente".

se sua empresa está tentando interagir com a universidade e está achando muito difícil, talvez a principal razão seja a dificuldade de mudar as agendas de pesquisadores que estão [re]descobrindo "tecnologias sem cliente", em função de um sistema de reconhecimento e mérito que quase só mede, como performance acadêmica, publicações por unidade de tempo.

o que nos falta, como país? seria um design? talvez o mesmo design que falte a empresas como nokia, microsoft e google, do ponto de vista da interação entre o que se gasta em ciência e tecnologia e o resultado no mercado?

olhe só o que aconteceu nos últimos dez anos das exportações brasileiras, segundo dados oficiais. a exportação de manufaturados caiu 30% na década. e isso na década em que aumentamos 60% os recursos para ciência e tecnologia… o que, pelo menos em parte, deveria resultar em mais e melhores resultados de pesquisa e desenvolvimento tecnológico que deveriam se tornar inovação, no mercado. internacional, inclusive.

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mas não foi isso que aconteceu… muito pelo contrário. somos cada vez mais exportadores de commodities e, mesmo nos setores industriais, diminuiu a intensidade de média e alta tecnologia nas exportações.

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e o número de empresas que exportaram em 2010 é só marginalmente superior ao de 2001, e mais de 2.500 empresas abaixo do pico de 2004.

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ah… você diria, isso não tem nada a ver com C&T e suas consequências para inovação, estamos falando de câmbio e das mais variadas facetas do custo brasil. sim, estamos falando de câmbio e custos do brasil, e isso é parte do grande design.

o que quer dizer que mesmo havendo muito mais foco [na forma de uma agenda bem definida, como a inglaterra está tentando] no investimento em ciência e tecnologia e um conjunto simples e efetivo de incentivos para inovar, se não houver num posicionamento de mercado que demande tais resultados como parte de uma plataforma [de empresa, região, país] de diferenciação e competitividade no mercado… mais recursos em C&T não irão resultar, necessariamente, em mais receitas, resultados e lucros.

ou, no caso de um país, e no nosso foco em educação empreendedora, na criação e desenvolvimento sustentado de um número bem maior de novos negócios inovadores de crescimento empreendedor que tenham presença significativa no mercado nacional e internacional.

Sobre o autor

Silvio Meira

silvio meira é cientista-chefe da TDS.company, professor extraordinário da CESAR.school e presidente do conselho do portodigital.org

por Silvio Meira
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Pela Rede

silvio meira é PROFESSOR EXTRAORDINÁRIO da cesar.school, PROFESSOR EMÉRITO do CENTRO DE INFORMÁTICA da UFPE, RECIFE e CIENTISTA-CHEFE, The Digital Strategy Company. é fundador e presidente do conselho de administração do PORTO DIGITAL. silvio é professor titular aposentado do centro de informática da ufpe, fundou [em 1996] e foi cientista-chefe do C.E.S.A.R, centro de estudos e sistemas avançados do recife até 2014. foi fellow e faculty associate do berkman center, harvard university, de 2012 a 2015 e professor associado da escola de direito da FGV-RIO, de 2014 a 2017.

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