por Silvio Meira

Sem Pasárgada, Resta o Aeroporto?

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Lá se vai um ano e meio de pandemia e pelo menos em um ponto todos concordam: muita coisa não será como antes. Nem em casa e nem no escritório. Na verdade, em lugar nenhum. Na semana passada, no programa Opinião Pernambuco (TVU Recife), discutimos um pouco sobre essas mudanças. Do ponto de vista das pessoas, das empresas, das instituições, dos governos. O fio condutor foram as novas relações de trabalho num mercado global. Um mercado no qual fomos [muitos de nós] forçados a antecipar processos que talvez só viessem a acontecer, na prática, daqui a pelo menos cinco anos. De uma hora para outra, ficou tudo para ontem.

O escritório, se pensarmos bem, é uma ferramenta que resolve [ou resolvia] um certo problema de escassez de meios de trabalho para processamento de informação [mas não só], criado lá na Revolução Industrial. E o que foi que aconteceu na pandemia? De repente, descobrimos que uma parte significativa do trabalho do escritório podia ser feita de forma distribuída. Distribuída no sentido de não haver uma supervisão [local] sobre os agentes, sobre as pessoas que o realizavam; mas também deslocalizada: o trabalho não precisava ser executado no mesmo lugar, por todos os envolvidos; e, por fim, dessincronizada: não precisava ser realizado por todo mundo, ao mesmo tempo, num certo turno. 

Isso criou um conjunto de expectativas e aspirações sobre qual é o trabalho que se faz e se fará na economia do conhecimento e como se faz tal trabalho. Um estudo do IPEA mostra que, no Brasil, somente 25% do trabalho pode ser feito de forma remota. Isso é um sinal também, comparado com os (quase) 50% da Suécia, de que o país não está exatamente na economia do conhecimento. Estamos atrasados. E não é pouco. Na pandemia, os dados mostravam que 14% dos trabalhadores brasileiros estavam trabalhando de forma remota.

Esse papel do escritório, de processar informação, de ter os equipamentos e as ferramentas para tratar informação, é só uma parte dele, no entanto. Porque o “office” também é um centro de tomada de decisões que, às vezes, dependem de olharmos olho no olho –ao vivo– das pessoas. É um centro de formação, de evolução, de adaptação e de transformação da cultura dos negócios. 

Comparemos aqui um grupo de trabalho que tem metade das pessoas num esquema presencial e a outra metade remota. O que acontece na hora do almoço? Quem está no escritório tende a almoçar junto e, naquelas duas horas, tomar decisões implícitas sobre os projetos nos quais estão trabalhando, sobre os serviços que estão desenhando, os produtos que estão construindo. Decisões que vão ser completamente estrangeiras para quem está remoto, sozinho, de uma certa forma, isolado na sua casa.

Mesmo nas empresas de tecnologia, o que estamos vendo é que existe uma tendência global de se redesenhar o trabalho como sendo uma atividade híbrida. Boa parte das empresas está pensando, no momento –porque tudo isso é muito experimental–, em dois, três dias por semana no escritório e outros dois dias onde a pessoa quiser. Algumas companhias estão tomando a decisão de que esses dias presenciais sejam síncronos e para todos. Todo mundo tem que estar lá ao mesmo tempo. Mas é preciso dizer que há empresas que estão tomando a decisão de nunca mais ter um escritório. O que vamos ver nos próximos dez, quinze anos, é como é que cada um desses arranjos produtivos do conhecimento vai se estabelecer e vai criar, no fim, produtividade, competitividade e sustentabilidade, que é o que interessa. 

O outro lado dessa história é o “home”. Porque levar o trabalho para a casa de cada pessoa, em tese, é como transformar a sala de cada um em escritório, pessoal. Só que mais complicado, pois em casa tem alguém cozinhando ou você tem que cozinhar ou, de uma forma ou de outra, outras pessoas atrapalham; seu cachorro vem latir no seu escritório; sua criança invade a sala; a “sua” sala de trabalho [que não existe em casa], que é de todo mundo. De outras pessoas, da sua casa, que fizeram da sala escritório, também, de outro trabalho, inclusive.

Entre os que têm casa, hoje, temos quase sempre menos espaço relativo nas casas quando comparamos com o passado. Os lares ficaram menores, ficaram mais compactos. Ficaram mais conectados, é verdade, mas não foram desenhados para trabalharmos neles. A arquitetura do trabalho em casa não é a arquitetura do escritório lá do trabalho, só que na sala da sua casa. Lá, normalmente tem um cafezinho, tem o bebedouro, tem o restaurante do lado. Todos são pontos de encontro. São as “fogueiras” dos escritórios, onde os encontros formam as redes e as alianças que, em muitos contextos, são fundamentais para o trabalho em conjunto.

Centros de cidades, historicamente, ou clusters de espaços de trabalho, foram desenhados de tal forma que um certo número de comodidades associadas à performance humana estão lá: resturantes, cafés, cinemas, teatros, museus, padarias, academias…, fluxos de trânsito conectando com todo o resto da cidade e assim por diante. Lugares para onde se vai, para encontrar quem também foi para lá.

É possível irmos pra bem longe do local de trabalho e fazermos o trabalho individual de forma “remota”? Não há dúvida que sim. É possível aprendermos individualmente de forma remota da mesma forma que aprendemos junto com e trabalhando com muitas outras pessoas? Aqui, há muitas dúvidas. Tenho quase certeza que não, especialmente para os mais jovens e|ou que chegaram mais recentemente na profissão. Essa é uma dificuldade que estamos encontrando agora, em muitas empresas, em todo mercado onde há alguma intensidade de trabalho remoto.

Ainda temos uma interpretação e percepção do trabalho humano remunerado por hora de dedicação… de um tempo de trabalho entre duas “batidas de ponto”. Mas na prática e há muito tempo, humanos qualificados estão, no trabalho, resolvendo problemas com suas performances. E isso não deveria ser remunerado por hora… mas tampouco descobrimos formas consistentes de fazer de outra forma, em escala. Só que, no trabalho do conhecimento, a “hora” remunerada já deixou de ser central à performance e ao resultado final. No escritório contemporâneo, pensando bem, o principal processo é tomada de decisão, em rede, para articulação e coordenação da performance do negócio.

O que é possível se fazer em uma hora de trabalho? Montar “n” rodas e pneus num carro, por exemplo, mas quem já faz isso hoje é um robô na fábrica. O que é possível se fazer em uma hora de trabalho num ambiente de conhecimento? Depende da pessoa. E não se vai remunerá-la necessariamente pela quantidade de problemas resolvidos, mas pela complexidade dos problemas que ela trata e pela qualidade das soluções que ela desenvolve . Pelo impacto da solução. Pelo processo de articulação e de conjugação de esforços que a pessoa faz, no trabalho, para transformar soluções de problemas em resultados para os clientes e performance para os negócios.

Então, de mais de uma forma, já estamos vivendo [do ponto de vista do trabalho do conhecimento] num mundo disfuncional. Não deveríamos estar cobrando, das pessoas, horas de trabalho e nem pagando, às pessoas, por horas de trabalho. Nós deveríamos estar trabalhando de maneira articulada para resolver problemas e remunerando todo mundo por isso. 

Do ponto de vista de como nós olhamos para esse mundo tão complexo ao nosso redor, os dados mais precisos que temos mostram que, por exemplo, durante a pandemia, nas empresas, há lugares onde as pessoas trabalharam 30% de tempo a mais, mas que perderam algo como 25% da produtividade. Chegou-se a 130% do esforço, em quantidade de horas, mas quando se equaciona os 25% de queda de produtividade, volta-se para os 100%… na verdade, para 97,5% da performance de antes da pandemia. Ou seja: não ganhamos nada indo trabalhar remotamente, a não ser horas extras. Trabalhou-se mais, mas produziu-se menos, por hora… e no todo.

É possível, por outro lado, que um número muito grande de coisas esteja mudando e muito mais do que se consegue perceber. Por exemplo: um número significativo de brasileiros no setor de TICs trabalhando para empresas que estão baseadas na Alemanha, em Portugal, no Japão, nos Estados Unidos, na Hungria, na Polônia… em firmas que não têm e nunca terão escritórios no Brasil. De repente, o trabalho pode ser [para uma certa classe de pessoas e por escolha própria] conectado da sede e das bases de uma empresa contratante para onde o trabalhador está. Como diria um certo jogador de futebol… “fez que ia, não foi, mas aí acabou fondo”. Foram trabalhar pra fora sem ir trabalhar lá fora. Temos muitos desses casos espalhados no país agora. Um número significativamente grande de contratadores globais de pessoas de tecnologia deslocalizou sua força de trabalho pelo mundo afora. Você precisa saber o quê, para participar desse “nem tão novo” ecossistema de trabalho global? Codificar, fazer design, fazer arquitetura de software e assim por diante. E falar inglês fluentemente. Se esse é o seu caso, você está no mercado de trabalho global.

O que a pandemia fez foi forçar todo mundo a aprender a funcionar num modo no qual estávamos funcionando em parte, mas não muita gente ao mesmo tempo; e agora nós -da economia do conhecimento- fomos quase todos para lá. No auge do isolamento, pesquisas mostram que quase 80% das pessoas do planeta estavam em casa; sem ter alternativas de acesso ao espaço físico de trabalho, de estudo, as pessoas aprenderam a usar ferramentas digitais de todos os tipos e para quase tudo, e foram realizar suas performances sobre plataformas digitais.

Para resumir, e antes que a mania brasileira de estabelecer normas e regras para tudo, antes que os novos normais se estabeleçam, ainda não é hora de sair codificando nada sobre o futuro do ambiente de trabalho e sobre esse “novo” trabalho que começa a surgir. Ao invés de escrever as novas leis do trabalho, a hora é experimental. É de testar hipóteses, de ver o que funciona e o que não funciona e, o que fica como novos hábitos que se estabelecem e, lá na frente (daqui a 5 anos, 10 anos), pegarmos o que é a norma, do ponto de vista da realidade, e transformar na norma do ponto de vista da legalidade. Levando em conta que, quanto mais gente trabalhar em diferentes facetas da economia do conhecimento e falar inglês… mais gente haverá, trabalhando em Taperoá, PB, e contratado em Walldorf, Baden-Württemberg. Sabendo que os problemas “trabalhistas”, se e quando acontecerem, não serão resolvidos em Taperoá, João Pessoa, Campina Grande e muito menos em Brasília.

Aliás, Brasília, agora, deveria estar preocupada com duas coisas fundamentais que também já estão definindo o futuro do trabalho no Brasil, agora.

A primeira, o efeito “o último a sair apague a luz do aeroporto”: brasileiros de todas as competências, não só as digitais, saindo do país porque 1. há muito mais oportunidades no mundo do que aqui e, para muitas carreiras, a remuneração é bem maior do que aqui; 2. não conseguem perceber qual é o futuro -e [su]as carreiras- no país, onde a principal discussão nacional é como evitar um golpe de estado se o incumbente da maior cadeira do executivo perder uma eleição para a qual, agora, tem algo como 1/5 das intenções de voto e 3. mesmo indo para longe da família e amigos, 1 e 2 criam um contexto onde vale a pena emigrar agora, para voltar sabe-se lá quando.

A segunda, o efeito “cadê a Pasárgada que estava aqui?”: enquanto os brasileiros querem ir para o mundo, ninguém quer vir para o Brasil, e as razões são tantas que cada um pode fazer sua grande lista. Mas uma da razões é a falta de condições estruturais para que se crie, aqui, mais negócios de classe global, que tenham o mundo como mercado. Enquanto não resolvermos as condições estruturais e conjunturais para que negócios de conhecimento made in Brazil tenham mercados globais e atraiam, ficando lá ou vindo para cá, trabalhadores globais, estaremos mantendo e recriando as condições para o efeito “aeroporto” agir, à solta, sobre o capital humano do país.

Tornar o Brasil mais atrativo para os brasileiros e para o resto do mundo deveria ser um dos maiores desafios sendo enfrentados pelo país agora… mas não. Continuamos presos no atoleiro do nosso subdesenvolvimento, na maior parte do tempo imersos em discussões que não criam futuros, não aceleram presentes, não resolvem passados. A consequência são muitos, muitos mais do que deveriam, recitando, sem nem saber…

Vou-me embora pra Pasárgada
Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização…

Manoel Bandeira, 1930.

 

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Texto produzido a partir de uma entrevista no Programa Opinião Pernambuco, da TV Universitária Recife (TVU Recife), edição do dia 13/07/2021, com o tema “Futuro do Escritório”. O vídeo, na íntegra, está no link… bit.ly/2VUliWm.

Sobre o autor

Silvio Meira

silvio meira é cientista-chefe da TDS.company, professor extraordinário da CESAR.school e presidente do conselho do portodigital.org

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por Silvio Meira

Pela Rede

silvio meira é PROFESSOR EXTRAORDINÁRIO da cesar.school, PROFESSOR EMÉRITO do CENTRO DE INFORMÁTICA da UFPE, RECIFE e CIENTISTA-CHEFE, The Digital Strategy Company. é fundador e presidente do conselho de administração do PORTO DIGITAL. silvio é professor titular aposentado do centro de informática da ufpe, fundou [em 1996] e foi cientista-chefe do C.E.S.A.R, centro de estudos e sistemas avançados do recife até 2014. foi fellow e faculty associate do berkman center, harvard university, de 2012 a 2015 e professor associado da escola de direito da FGV-RIO, de 2014 a 2017.

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