tecnologia, no discurso e entendimento contemporâneo, é o mesmo que tecnologias da informação e comunicação, TICs. não deveria ser, até porque uma ponte de concreto não tem nada de digital; acontece que um sem-número de tecnologias não só está na ponte mas foram usadas para construí-la. mas essa é uma parada que a gente perdeu, aparentemente, por um tempo… e, mesmo sabendo que não deveríamos contribuir pra isso, vamos usar tecnologia no lugar de plataformas aqui nessa conversa e, em especial, de plataformas digitais. simbora, falar um pouco de umas poucas leis gerais para tratar tecnologia e[m] crises.

  1. tecnologia não deveria causar crises [na sociedade]. as infraestruturas, serviços e aplicações usadas para qualquer função [de interesse social] deveriam ser desenhadas, projetadas, construídas, operadas, mantidas, evoluídas e eventualmente terminadas de forma a garantir seu funcionamento ininterrupto, especialmente em tempos de alta demanda e, acima de tudo, em crises. até porque, nas crises, as pessoas quase certamente vão depender mais -e não menos- de tecnologia do que em tempos normais.
     

    para que o maior número possível de agentes sociais [pessoas, organizações…] confie nas tecnologias das quais depende, pode ser essencial que os sistemas [principalmente aqueles de amplo alcance social] passem por alguns crivos: primeiro, transparência, criando as condições para que todos consigam entender o que e porque o sistema faz o que faz. o segundo crivo é o da explicabilidade, que deve expor as entranhas do sistema de tal forma que pelo menos os experts externos à organização que cuida do sistema conseguem entender como o sistema faz o que faz… e,…

    …por último, responsabilização: deve-se considerar a existência de canais simples e efetivos para o relacionamento entre usuários insatisfeitos e os responsáveis pela tecnologia e aqueles devem ter como responsabilizar estes por efeitos negativos da tecnologia sobre suas ações e condições. tais crivos –TER– também podem ser usados para lidar com uma vasta gama de relações entre tecnologia e sociedade e, em particular, podem servir como filtro para identificar aplicações socialmente responsáveis de inteligência artificial.

    um caso recente e que deverá se tornar um clássico de tecnologia causando crise é o ocorrido no sistema de apuração eleitoral do TSE… que não passa nem perto dos crivos TER, por sinal.

  2. nas crises, tecnologia deveria ser resiliente. na física, resiliência é a capacidade de um sistema voltar ao normal depois de submetido a esforços que mudam seu estado. aqui, é adaptar-se a mudanças, superar obstáculos e [ou] resistir [ou atender] a novas demandas em situações adversas. a internet brasileira deu um salto de tráfego médio da ordem de 30% em praticamente um dia, no fim da primeira quinzena de março de 2020 e… ninguém notou. o sistema internet atendeu à nova demanda, na emergência, como se fosse parte do dia-a-dia.

    claro que havia muitos semblantes preocupados entre executivos e engenheiros das teles, houve corre-corres muitos, porque o que estava acontecendo não era normal e o país, e não só o nosso, tinha passado a depender completamente da tecnologia e da operação e manutenção dela. e o conjunto de agentes da rede deu uma aula magna, de teoria e prática. dentro da anormalidade do maior salto de tráfego da história, a rede voltou ao normal muito rapidamente. taí um grande exemplo de resiliência, pra todo mundo usar, daqui pra frente.

    mas note bem: isso não aconteceu por acaso; o desenho, os protocolos abertos, a distribuição em rede, os múltiplos caminhos entre pontos, a eliminação de pontos únicos de falha… o entendimento conjunto de todos, sobre o todo… a internet foi projetada e construída para ser resiliente. e ainda bem. já imaginou se fosse um supercomputador tentando usar uma inteligência artificial não testada, para se adaptar à nova e surpreendente demanda? você não estaria lendo este texto na rede, agora…

  3. nas crises, tecnologia deveria empoderar a sociedade. e não restringir as ações dos agentes sociais. tecnologia deveria ser sempre um habilitador, e não um limitador. nem sempre é assim, claro, mas a gente sempre pode virar a chave pra ser assim. quantos crimes cometidos nas ruas, no brasil, foram solucionados a partir da análise de imagens de câmeras de vigilância dos prédios e estabelecimentos comerciais? e olhe que há um imenso debate, filosófico, ético e legal sobre a sociedade da vigilância que as tais câmeras habilitam. ainda assim, e podendo ser usadas para o mal, tem os visto muitos exemplos de seu uso para o bem.
     

    no caso da pandemia e da internet, tudo poderia ter sido muito melhor se o brasil tivesse políticas públicas profundas e de longo prazo. há recursos para o acesso universal à rede, vindos de contribuições obrigatórias dos operadores de conectividade desde a década de 1990. mas eles -irresponsavelmente- não foram usados para o que deveriam. poderiam ter incluído toda a população de baixa renda não só na internet, mas no sistema financeiro digital. infelizmente, no país das disputas, discursos e desculpas, o que vimos foram as imensas filas para ter acesso ao auxílio da pandemia, de onde saíram quase certamente muitos contaminados, o que quase inevitavelmente causou sofrimento e mortes.

    para verdadeiramente empoderar a sociedade, as tecnologias de amplo alcance devem ser pensadas com todos, para todos, o tempo todo, e sempre levando em conta que amanhã pode ser um dia de crise. a desculpa -lembre-se: o brasil é o país dos 3D: disputas, discursos e desculpas- de que havia muita gente acessando o serviço deixou de valer 10 anos depois das nuvens computacionais se tornarem realidade… e isso foi há mais de 10 anos.

  4. tecnologia desenvolvida nas crises deveria evoluir para se tornar parte da norma. aqui se trata de uma questão de inteligência e economicidade. como o brasil é o país dos 3D, sempre há um temor de que as tentativas, erros e aprendizados de eventos passados não sirvam como base para lidar com situações correntes e futuras, como se a nossa memória estratégica e operacional tivesse os mesmos problemas da nossa lembrança política.
     

    aprendizados das crises, convertidos em sistemas para a norma, deveriam evoluir com o tempo e uso, em tempos onde as crises são pontuais, levando em conta as leis anteriores. isso quer dizer, como é fácil depreender, que a norma tem que lidar com a possibilidade de eventuais crises do porte de uma pandemia. ahhh… você poderia dizer, aí é impossível, porque tudo ficaria muito mais caro, mais difícil. é, isso mesmo.

    lembra do que aconteceu no começo da pandemia? a indústria têxtil nacional não tinha a capacidade de produzir máscaras em escala. não estamos falando de chips para computadores quânticos, mas de artefatos de tecido e elástico que são parte da norma desde o século XIX e, no seu formato atual, desde os anos 1920. de repente, nós tivemos que reaprender a produzir coisas simples que tínhamos deixado pra lá. evoluir do aprendizado baseado no caos para sistemas -ou tecnologia, como queira- que fazem parte do dia a dia e estão normatizados é parte essencial da evolução das sociedades em direção à civilização.

    falando nisso… a única diferença entre a civilização e a barbárie é a manutenção. durante a pandemia, compramos, instalamos e operamos várias vezes o número de respiradores que o país precisa em condições normais de demanda. estes sistemas -tecnologias…- devem ser mantidos [e os que forem estocados, preservados], para que no próximo pico de demanda -a próxima crise…- nós não tenhamos que passar pela mesma escassez, correria, aperreio e despesas que tivemos dessa vez. parece muito difícil, eu sei. mas, no fundo, é muito simples: é manutenção. a única diferença entre a civilização e a barbárie é a manutenção.

  5. na norma, tecnologia deveria estar preparada -e sempre se preparando- para tratar crises, especialmente as imprevistas. parece um contrassenso. mas não é. parece que não dá tempo, mas dá. e, quando não dá, o resultado é o caos, quando as crises acontecem. um dos papéis fundamentais de quem lida com tecnologias -sociais, especialmente- é estender o presente para o futuro e trazer, de lá, possibilidades, possíveis futuros que, antecipados nas preparações feitas no presente, evitam o pandemônio que vem das surpresas nem imaginadas.
     

    não deveria ser nenhuma surpresa que, para evitar surpresas, havemos que nos preparar pra elas. como? criando, adaptando, evoluindo e transformando, o tempo todo, nossa estratégia.

    estratégia é o processo de transformação de aspirações em capacidades, levando em conta o tempo, o espaço e a escala do que se pretende realizar e considerando os fatores conhecidos, probabilísticos e desconhecidos que podem ajudar ou atrapalhar o caminho entre aspirações e capacidades e a própria execução das capacidades como operações que, de fato, hão de realizar a estratégia.

    simples de dizer. quase impossível de fazer apropriadamente. quase ninguém tem uma. o que quer dizer que teremos surpresas desagradáveis no futuro, quase sempre. para minimizá-las, podemos pelo menos tentar estabelecer estratégias mínimas viáveis. muito mais fáceis de conceber e validar. mas quase ninguém tem, tampouco. e os que têm, claro, se diferenciam. e muito.

por fim, quando se fala de tecnologia, que é feita por engenheiros -mas não só, é bom lembrar os poetas, engenheiros da imaginação -mas não só. na voz de bernardo soares, fenando pessoa diz que… o sonho que nos promete o impossível já nisso nos priva dele. é fundamental ter aspirações que dão conta das 5 leis gerais descritas acima; mas deve-se ter a certeza de que aspirações não resolvem problemas, são as capacidades que o fazem, e a ponte entre as duas é a estratégia que deveríamos ter.

ao mesmo tempo, imaginar soluções mágicas, que resolvem tudo, o tempo todo, em todos os contextos,  é prometer o impossível. quem lida com tecnologia, seja na sua feitura ou uso, deve sempre estar preparado para aceitar que há um [grande] conjunto de coisas que simplesmente não será realizável dentro dos limites de tempo, recursos e competências que [sempre] há.

é por isso mesmo as leis valem dentro de um contexto onde, seja qual for a solução que tivermos, ela será incompleta -não resolve tudo o que deveria, imperfeita, porque não resolve completamente, nem necessariamente da melhor forma, tudo, entre o que se comprometeu a entregar, que deu conta no seu espaço-tempo e impermanente, porque o contexto muda constantemente e, com ele, os problemas… que depois de um tempo a solução já não mais resolve.

e isso é bom, porque sempre haverá contexto para evoluir, para fazer melhor, mais resiliente, mais inclusivo, mais prático, mais seguro, mais barato… para fazer menos, com menos recursos, menos impacto, em menos tempo na próxima versão, com menos riscos. assim caminha a humanidade…