por Silvio Meira

você tem medo de quê?

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080709-brain-fear_big.jpgcientistas parecem ter descoberto a região do cérebro que causa a vasta maioria dos medos e fobias. os neurônios intercalados [ITC] da amígdala [veja no diagrama da national geographic ao lado] são essenciais para "apagar" as memórias de medo [como sons, imagens e cenários] e permitir comportamentos normais em situações onde o contexto é semelhante [mas não igual] a um outro, anterior, onde tivemos muito medo.

quando os ITC não funcionam bem, as memórias não são apagadas, ou apagadas em parte, e ficamos com medo ou paralisados diante de contextos que a amígdala relaciona com situações de medo [e risco]. vêm daí as fobias a cobras, ratos, baratas e a certos sons e imagens.

o cérebro humano é uma gigantesca máquina de processar informação; são cem bilhões de neurônios trabalhando em paralelo e calculando, o tempo todo, nossas reações ao contexto. e o cérebro ainda é uma máquina muito pouco conhecida; descobertas como esta são parte do caminho para entendê-lo melhor e, conseqüentemente, melhorar a forma de programar nossos neurônios para realizar a contento suas funções.

ao contrário do que pode parecer, estamos programando o cérebro -deliberadamente- há milênios. as primeiras evidências de uso de ópio, por exemplo, datam de 10.000 AC, em pleno neolítico. mas pode ser que seu uso remonte aos homens de neandertal, 100.000 anos antes de cristo.a casca do salgueiro, cuja versão moderna é a aspirina, que modifica o comportamento cerebral para atenuar a sensação de dor, era conhecida desde hipócrates, no século V AC. a "programação" do cérebro usando drogas como ópio e aspirina foi descoberta quase por acaso, em épocas remotas, onde o funcionamento do sistema neuronal que nos guia era completamente desconhecido.

à medida que nosso conhecimento sobre o cérebro avança, e a passos largos, é cada vez mais provável que consigamos [re]programar cérebros para melhor reagir a estímulos externos. não vai ser nem um pouco mais fácil do que escrever programas para computadores. muito pelo contrário. mas pode dar resultados muito mais interessantes.

"programar" o cérebro pra ler [e escrever], por exemplo, talvez seja muito pouco em relação ao que pode ser feito, no longo prazo, depois que entendamos mais a nossa máquina cerebral. leitura e escrita foram fundamentais para criar a civilização como a entendemos hoje, até porque as regras da sociedade [e boa parte do contexto] dependem disso. mas pense o que poderíamos programar, se tentássemos… de verdade.

pra quem quiser se livrar de seu pavor de ratos, baratas e escuro, em breve um remédio na farmácia da esquina. pra quem quiser fazer integrais duplas bem rapidinho, no futuro próximo um programa na internet. pra fazer download [quase] direto pro seu cérebro. será?…

 

Sobre o autor

Silvio Meira

silvio meira é cientista-chefe da TDS.company, professor extraordinário da CESAR.school e presidente do conselho do portodigital.org

por Silvio Meira
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silvio meira é PROFESSOR EXTRAORDINÁRIO da cesar.school, PROFESSOR EMÉRITO do CENTRO DE INFORMÁTICA da UFPE, RECIFE e CIENTISTA-CHEFE, The Digital Strategy Company. é fundador e presidente do conselho de administração do PORTO DIGITAL. silvio é professor titular aposentado do centro de informática da ufpe, fundou [em 1996] e foi cientista-chefe do C.E.S.A.R, centro de estudos e sistemas avançados do recife até 2014. foi fellow e faculty associate do berkman center, harvard university, de 2012 a 2015 e professor associado da escola de direito da FGV-RIO, de 2014 a 2017.

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