SILVIO MEIRA

smartphone, ligado, derruba avião?

Não há nenhuma evidência científica de que um tablet ou smartphone ligado durante o pouso ou decolagem afete o comportamento de um avião. é ainda menos provável que haja uma possibilidade real de um deles, ligado e transmitindo dados, seja capaz de derrubar uma aeronave. quantas vezes você já não esqueceu e voou com um de seus smartphones ligados? a coisa ficou na lá mochila, você não estava usando quando embarcou, os preparativos para decolagem levaram muito tempo, você cochilou e, só quando chegou no destino e foi ligar… descobriu que já estava ligado. e concluiu que seu smartphone, ligado, não derruba avião.

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a realidade é bem mais complexa e é preciso tratar o problema do ponto de vista dos padrões de segurança da aviação comercial. o fato de seu smartphone não ter interferido no seu vôo não implica que é seguro voar com o smartphone ligado em todos os casos. chegamos nisso já, já. agora, veja a imagem acima, deste texto. a alaska airlines e a united airlines já trocaram aquelas maletas de papéis de mapas e manuais dos pilotos por tablets desde 2011. na united, estima-se que a troca leva à economia de um milhão de quilos de combustível por ano. sem falar nas costas dos pilotos, pois uma daquelas maletas de manuais pode pesar entre 20 e 25 quilos. a american está pondo 17.000 tablets na mão dos comissários, para melhorar o serviço de bordo. e começou a trocar os sistemas de entretenimento dos aviões [aqueles trecos da década de 70] por tablets e fará  isso em toda frota. a emirates vai pelo mesmo caminho. as outras, mais lentas, virão depois.

então, dentro do avião, todo mundo estará informatizado, menos nós, passageiros. bem, sim, e não. nos EUA, a FCC [a ANATEL de lá] pediu pra FAA [a ANAC deles] pra considerar o uso de todos tipos de dispositivos de computação e comunicação pelos passageiros em todas as fases do vôo. isso foi em junho de 2012. de lá pra cá, a FAA criou um grupo pra estudar o problema e, até o fim deste ano, espera-se o anúncio de novas regras para o uso de eletrônica pelos passageiros em todas as fases da viagem. por mais incrível que pareça, tudo indica que tablets devem ser liberados pra uso geral, mas não smartphones. ridículo: a FAA permite o uso de barbeadores elétricos e gravadores de áudio em todas as fases da viagem, e tais coisas emitem mais radiação do que os dispositivos em modo avião [ou não].

como pelo menos alguns membros do congresso dos EUA exercem seu papel de representantes do povo [quem vai fazer isso, em relação a este assunto, aqui?…] a senadora claire mcCaskill resolveu chamar a FAA à razão –pela via de um projeto de lei- e quer que a agência reguladora… 1. apareça com evidências científicas pra proibir tablets e smartphones em todas as fases das viagens aéreas ou 2. libere, de forma geral, tais dispositivos em aviões, de uma vez por todas. taí algo pra gente fazer no brasil, de forma inovadora, agora. mas o compasso, aqui, é de espera.

pra saber porque mudar a conversa sobre dispositivos digitais conectados e vôos, que tal fazer uma rápida pesquisa? aqui entre os leitores que viajam de avião, 2 ou mais vezes por mês, pelo menos: quantos de vocês desligam os dispositivos [ao invés de botar em modo avião] quando a tripulação manda desligar?

meu chute? metade ou menos. resultado? assumindo que metade dos passageiros é viajante frequente [dados melhores, quem?], um quarto dos viajantes decola com smartphones e tablets em modo avião. ou ligados. como há milhares de pousos e decolagens por dia, as regras estão sendo desobedecidas por dezenas de milhares de pessoas todo dia, sem qualquer influência sobre a viagem, a não ser o ingênuo comissário de bordo dando ordens para o passageiro desligar o tablet antes da decolagem… como se ele, o passageiro, fosse um delinquente.

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mas a gente pode debitar a regra da decolagem à super proteção do regulador em relação à nossa segurança. pois o que falta é um legislador –como a senadora lá nos EUA- pra botar a ANAC no canto da parede.

danado –e ridículo- é o discurso dos comissários quando o avião pousa e está taxiando, proibindo ligar celulares, tablets e smartphones. nunca vi ninguém obedecer a tal comando: trata-se de prova cabal daquelas regras brasileiras que não pegam, pois não fazem sentido e que, por não fazerem, ninguém obedece… e que o sistema continua fazendo de conta que existem, quando ninguém está nem aí pra elas.

smartphones e tablets fazem parte da vida de [quase] todas as pessoas, o tempo todo. aviões ainda são parte da vida de alguns, pelo menos enquanto ainda têm que ir de um ponto a outro [5 horas de ida, outras tantas de volta] para uma reunião de uma hora. isso vai acabar, não há dúvida. até lá, se alguém tem que se ajustar, são os aviões e seus reguladores, e não os smartphones e os seus.

pois se houvesse qualquer risco, mínimo que fosse, de um smartphone derrubar um avião… você acha que nos deixariam embarcar com eles?…

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Silvio Meira é cientista-chefe da TDS.company, professor extraordinário da CESAR.school e presidente do conselho do PortoDigital.org

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