SILVIO MEIRA

tédio, mobilidade e criatividade

O tédio pode ter um papel salutar e evolucionário para a vida humana. levado em conta de forma apropriada, pode servir como alarme, pois nos diz que as coisas que estamos fazendo [ou sendo forçados a fazer] não nos fazem bem. tédio deveria ser tratado como angina, como um sinal de que se não mudarmos de vida muito em breve, coisas muito piores nos vão acontecer. esta é a tese do professor peter toohey, da universidade de calgary, canadá, autor de boredom: a lively study, onde tenta mostrar que o tédio é uma das nossas mais comuns e construtivas emoções e uma parte essencial da experiência humana.

cientificamente, tédio é o estado afetivo caracterizado pela falta de interesse no que ocorre [ou está sendo feito], combinado com a dificuldade de se concentrar na atividade [qualquer que seja ela] que deveria estar a seu encargo. e o trabalho é o lugar onde o tédio pega pesado. em 2011, a PwC descobriu que 61% das faltas com desculpas falsas eram “motivadas” por tédio. ressaca era a causa de 18% das faltas e paixão repentina, das de fugir com o amado e avisar no trabalho que está com uma virose mortal… de apenas 5%. dados mostram 1/3 dos trabalhadores já tendo usado alguma desculpa para não trabalhar e que o esquema é contagioso: 1/3 acha que se os outros conseguem  “se dar bem” quando faltam sem razão, eles também irão conseguir.

um terço parece o número mágico quando o assunto é  tédio: estudos do começo da década de 90, antes da era das redes e dos games, já mostravam os estudantes do ensino médio se diziam entediados 32% do tempo de aula. e agora? lá fora, a rede, smartphones, tablets e games, um mundo de diversão e engajamento; aqui dentro, a mesma sala de aula da década de 50. ou antes.

imageacontece que há experts que dizem que o tédio, pelo menos um certo tipo dele, o que nos dá um imenso vazio, acaba se tornando ponto de partida para a realização  de trabalho criativo. este é o caso de teresa belton, da university of east anglia, depois de estudar crianças [na escola] e adultos [escritores, artistas, cientistas]. para muitos dos “criativos”, a combinação de solidão, contemplação e tempo, que muitos associam ao mais puro e simples tédio, é o combustível para a criação.

aqui é onde entra a computação, conectada, onipresente: será que ficamos sem tempo realmente livre, fazendo quase nada, contemplando o mundo? o “nós”, na sentença anterior, não é exatamente cada um de “nós”, mas o coletivo. estudantes, trabalhadores, gestores, todos, imersos quase sempre nas possibilidades de jogos, vídeos, múltiplas formas de entender o mundo, o tempo todo, com a visão quase sempre dos outros, cada um e todos nós o tempo todo dentro da caixa, os olhos e os ouvidos, nossos sensores, colados em alguma coisa que provoca, explica ou tenta ensinar algo? isso quando não estamos com o nosso e-tédio, que talvez seja o trabalho [na rede], nos acompanhando e exigindo tudo, de nós, o tempo todo? até que ponto tanta imersão compromete a capacidade criativa de muita gente, talvez de toda uma geração?

ninguém sabe. as evidências, até aqui, são de que o excesso de informação não faz muito mal. é  certo que leva uns e outros a acreditarem [ainda, incrivelmente] em tudo o que vêem e ouvem na rede, como se nela estivessem escritas as tábuas da salvação. a combinação de velocidade da rede e dos acontecimentos faz com que mesmo jornalistas experimentados se percam e passem a repetir uns aos outros, desligando o senso crítico e deixando de cumprir seu papel de informar, ou de criar significados, como mostrou o incidente do ataque DDoS à spamHaus.

e criatividade está ligada a senso crítico: se a imersão no fluxo de informação que está quase sempre ao redor de cada um for impensada, irrefletida, única e somente para evitar o tédio, talvez tenhamos um problema a tratar. a fila do supermercado, que era um lugar de profundo tédio antes de smartphones e 3G, agora é espaço pra jogar, pra ver youTube, pra interagir com meio mundo nas redes sociais. ao ponto de ser preciso avisar a quem está online que chegou sua vez de ser atendido. coisa parecida rola no transito, nos engarrafamentos: quando trava geral, um número de motoristas vai pra rede, primeiro pra como escapa do trânsito e, quando nota que não consegue, se perde por lá mesmo, em algum lugar da web, até que a buzina do carro de trás avisa que o da frente já se foi há tempos.

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o tédio pode ser a porta para o desespero. mas também da alegria, da esperança e da mudança. há evidências de que está ligado à criatividade de mais de uma forma. no fim, talvez mobilidade de [e na] rede seja uma boa saída [sempre] para aqueles que sofrem e se desesperam com o tédio e passaram a ter uma alternativa na rede. para todos os outros, vai ser preciso se concentrar mais, se abstrair mais, resistir à tentação de fugir para a web, jogar ou checar  -a cada minuto- se algum conhecido postou outra foto do gato, entediado, na rede. aí, é  fugir do tédio para o e-tédio.

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Silvio Meira é cientista-chefe da TDS.company, professor extraordinário da CESAR.school e presidente do conselho do PortoDigital.org

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